Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Nutrição

PRECISÃO NO COCHO

Indústrias de nutrição animal apostam na segmentação de produtos e serviços para cada etapa do ciclo pecuário

Thaise Teixeira e Lucas Borghetti [email protected]

boa expectativa do setor pecuário quanto à valorização da arroba para o ano que se aproxima e a consequente rentabilidade da atividade também se estendem ao setor de nutrição animal. Especialmente nas empresas voltadas à fabricação de produtos para ruminantes, o clima é de otimismo. As perspectivas são sustentadas pela recente abertura do mercado chinês e pela perspectiva de a carne brasileira entrar em novos mercados internacionais.

Com falta de bezerros e de fêmeas no mercado, a indústria aposta na força e no empenho do produtor em acelerar o ciclo pecuário e ampliar a taxa de desfrute das propriedades com sustentabilidade. Para isso, as indústrias apostam na segmentação de produtos e serviços para cada fase do ciclo pecuário e investem em assistência técnica especialziada. O objetivo é auxiliar criadores a trabalhar de forma mais assertiva para ampliar a quantidade e a qualidade dos rebanhos.

Uma das novidades está na suplementação direcionada às vacas de cria nos períodos de pré-monta e monta para acelerar o processo reprodutivo, encurtar o ciclo do sistema, ampliar o potencial dos exemplares e maximizar sua rentabilidade. “A suplementação estratégica pré-monta e ao longo da monta dá uma condição uterina melhor para fixação embrionária”, explica o gerente nacional de Ruminantes da Bellman Trouw Nutrition, André Cerqueira.

A alimentação direcionada à vaca de cria combina a utilização de suplementos energéticos e proteicos para melhorar a reserva corporal das mães, naturalmente comprometidas no período pós-parto – motivo esse que vem conquistando a preferência de quem trabalha especialmente com gestações precoces. “Hoje, fala-se em emprenhar uma fêmea aos 14 meses de idade. É uma adolescente que está crescendo e precisa estar prenha. Além de ter que cuidar de si mesma, terá que cuidar do bezerro. E, após o parto, seu balanço energético fica pior do que de uma vaca”, explica Cerqueira. A mesma estratégia também é indicada para as fêmeas depois de se tornarem primíparas. Não só porque continuarão se desenvolvendo até os 36 meses, mas também porque terão de cuidar do bezerro ao pé ao mesmo tempo em que outro estará na barriga, apresentando, assim, maior demanda proteica.

Cria e recria

A opção de nutrir a mãe para garantir a qualidade da cria também está na mira das indústrias. Com oferta reduzida, o quilo vivo valorizado e a necessidade de atender ao mercado externo, a previsão é que, em 2020, o pecuarista recomece a encher os campos. “A vaca só dá um bezerro por ano, e, nesse bezerro, você não pode errar”, argumenta Cerqueira.

De acordo com o médico-veterinário responsável pelo desenvolvimento de novos produtos da Matsuda, Fernando Antonio Nunes de Carvalho, uma correta suplementação mineral, associada ao balanceamento de proteína e energia desde o início da vida do animal, assegura um ótimo desenvolvimento de carcaça para o abate de exemplares jovens e bem-acabados de maneira sustentável, assim como a produção de matrizes jovens que entrarão em reprodução. “O uso de suplementos proteicos energéticos durante toda a vida do animal e o uso de tecnologias como o semiconfinamento associado às pastagens na fase final da vida do animal garantem uma carne de qualidade, bem-acabada, de maneira economicamente viável e sustentável. Portanto, a nutrição fetal é peça-chave para a pecuária do futuro”, argumenta.

Alimentação customizada

Produtos customizados e preparados para as diferentes microrregiões do País também estão contempladas nas estratégias de segmentação para 2020. Rações para taurinos criados em pastagens do Rio Grande do Sul, baseadas na realidade do Bioma Pampa, estão na mira da Matsuda, por exemplo. A empresa pretende associar uma suplementação balanceada à genética britânica ou europeia, peculiar nas pastagens do Pampa, para justamente fomentar o diferencial desses animais, que é a qualidade da carne a pasto.

Já a indústria Azevedo Bento customiza suplementos minerais de acordo com a necessidade dos clientes que oferecem volume e demanda para tanto. A fórmula é desenvolvida em conjunto entre ambos e visa atender às necessidades específicas apontadas pelo criador. “Um produtor mais profissionalizado consegue identificar as carências no rebanho dele em termos de minerais e, junto com o nosso corpo técnico, desenvolve produtos”, comenta Claudio Teixeira, gerente comercial da empresa. Os produtos elaborados de acordo com as necessidades de cada cliente são registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária, e levam na descrição o nome da fazenda do cliente, facilitando a identificação.

Há, também, quem já ofereça suplementação mineral de forma sólida para criadores com limitação de área e/ou que não utilizam cochos, como a Timac Agro. O produto é oferecido ao gado em dispensadores móveis, que podem ser manejados e remanejados de acordo com a necessidade e o objetivo de cada sistema de criação. E podem ser uma opção tanto nos períodos secos como nos chuvosos, quando o fornecimento de sal proteinado é dificultado.

Pecuária sustentável

Aditivos com foco na redução das emissões dos gases promotores do efeito estufa e na redução da resistência microbiana estão na mira de empresas como a Premix. A indústria investe em soluções tecnológicas baseadas em alternativas naturais para diminuir o uso dos convencionais antibióticos e ionóforos. Uma delas é o Fator P, desenvolvido dentro desse conceito e composto por aminoácidos, probióticos e ácidos graxos essenciais, como Ômega 3 e Ômega 6, além de minerais orgânicos e surfactantes. “Os trabalhos mostram que tivemos resultados com carne mais macia, com mais sabor e apresentando menos perda no processamento, no cozimento e no paladar”, revela.

A DSM aguarda o registro de uma tecnologia que promete combater a emissão de gases de efeito estufa pelas vacas (e outros ruminantes, como ovelhas, cabras e veados) em vários países, inclusive no Brasil. Trata-se do Bovaer, solução resultante de dez anos de estudo pela holandesa Royal DSM. O aditivo funciona bloqueando a produção de metano no estômago da vaca e, após decomposição, é eliminado pelos processos digestivos normais dos animais. Segundo a DSM, a ingestão de apenas um quarto de colher de chá de Bovaer por vaca ao dia suprime a enzima que desencadeia a produção do gás poluidor e reduz sua emissão entérica em, aproximadamente, 30%. A novidade aguarda o registro para a liberação de sua comercialização em vários países no mundo, inclusive no Brasil. “A DSM possui tecnologias de nutrição que aumentam a produtividade, reduzindo a idade ao abate e aumentando a produção de leite. Isso faz com que, proporcionalmente, a emissão de metano seja menor em relação à produção de carne e leite por animal”, afirma Juliano Sabella, diretor de Marketing da Tortuga, uma marca DSM.

2020 à vista

Mesmo com a indústria investindo em tecnologia e em produtos especializados para a bovinocultura de corte, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram), Ademar de Campos Leal, afirma que a suplementação inadequada ou em subdosagens ainda é um fator limitante ao desenvolvimento e à lucratividade das fazendas. Por isso, para 2020, espera um aumento no uso das tecnologias oferecidas pelas indústrias de nutrição. “Não adianta pensar em digitalizar, criar novas tecnologias, se a pessoa não for usar. Chegou o momento de o produtor rural utilizar essas tecnologias, e é o que esperamos para 2020. Uso mais qualificado, em maior quantidade e da forma correta”, diz.

Na opinião de Carlos Mercante, diretor comercial da Mosaic Fertilizantes, a valorização da carne e a necessidade de acelerar o gado para abate será um incentivo para o criador investir em tecnologia para nutrição. “Independentemente da fase e do modelo de produção, essa estratégia está passando por um aumento de qualidade e quantidade de nutrição envolvida”, diz. A necessidade de melhorar a carne brasileira com vistas a mercados mais exigentes é lembrada por Bruno Pietsch Cunha Mendonça, doutor em Nutrição de Ruminantes pela UFV e gerente técnico da Agrocria. “Quando falamos em qualidade, falamos em maciez”, comenta.

Ariovaldo Zani, CEO do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), diz que as exportações devem continuar modulando a cadeia produtiva das rações para bovinos em 2020, após um ano de 2019 considerado estável. Por isso, afirma ser “mandatório” o Brasil deixar para trás os traços coloniais e buscar seu protagonismo no mercado internacional. Para os próximos anos, destaca como tendência a introdução crescente dos destilados solúveis de milho/Dried Grains Soluble/DGS (seco/Dried DDGS ou úmido/Wet WDGS) originados da fabricação do etanol, em substituição ao farelo de soja e silagem de milho, como fonte de proteína e energia, respectivamente.

De acordo com o Sindirações, a produção de rações para bovinos de corte durante o primeiro semestre de 2019 foi de 1,1 milhão de toneladas, pressionada pelo aumento no custo dos insumos e pelo descompasso entre o preço do boi gordo e de reposição. “Ainda no primeiro semestre, diante da queda na rentabilidade do produtor e do frágil poder de compra doméstico, a expectativa de confinamento esfriou, muito embora diversos fatores tenham revigorado o segundo giro e impulsionado a produção de rações que vão contabilizar provavelmente mais de 2,6 milhões de toneladas durante o ano de 2019,” avalia Zani. Nas indústrias de suplementação animal, segundo a Asbram, houve um crescimento até outubro, de 3,85% em relação a 2018. A espectativa é fechar o ano com crescimento de 4,5%.