Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado Externo

Com a faca e a carne na mão

Ampliação de exportações e habilitação de dezenas de frigoríficos pela China consagra País como fonte de alimentos para o mundo

Felippe Reis*

Apesar da demora das reformas econômicas, 2019 tem sido positivo para as empresas do agro, principalmente para Ampliação de exportações e habilitação de dezenas de frigoríficos pela China consagra País como fonte de alimentos para o mundo Felippe Reis* as que exportam. De janeiro a outubro, o Brasil exportou 1,2 milhão de toneladas de carne bovina in natura (Tabela 1), volume recorde para o período. Já em novembro, até o dia 21, o volume diário embarcado de carne bovina in natura, na média das três primeiras semanas, foi de 6,4 mil toneladas. Caso esse ritmo continue, o Brasil exportará 127,73 mil toneladas, o que seria o segundo maior volume para o mês de novembro de toda a série histórica. Para a carne bovina, na comparação ano a ano (considerando o período de janeiro a outubro), houve alta de 11,3% no montante embarcado e de 9,2% no faturamento.

Carne de frango e carne suína

Para a carne de frango e suína, de janeiro a outubro, os volumes embarcados foram de 3,18 milhões de toneladas para a carne de frango e de 515,59 mil toneladas para a carne suína. Para a carne de frango, houve um recuo no volume embarcado (-0,5%); contudo, o faturamento aumentou 6%.

Já para a carne suína, o volume exportado aumentou 14,2% e o faturamento foi 28,9%, maior do que igual comparação com 2018.

Milho e soja

Além das carnes, o desempenho das exportações de milho e soja grão também apresentaram crescimento. De janeiro a outubro, o Brasil embarcou 36,29 milhões de toneladas de milho, volume já recorde, mesmo sem contabilizar o último bimestre.

Já para a soja, o volume embarcado deverá ser menor em relação ao de 2018, cujo desempenho foi de 83,67 milhões de toneladas; contudo, apesar disso, a exportação em 2019 já é a segunda maior de toda a série histórica, com 69,75 milhões de grãos embarcadas de janeiro a outubro (Figura 1)

Câmbio

A valorização do dólar frente à moeda brasileira (Figura 2) colaborou com o maior volume de carnes exportadas em 2019. Na média de 2018, segundo dados compilados do Banco Central, o dólar ficou cotado em R$ 3,65. Em 2019, considerando os dados do período entre 2/1/2019 e 21/11/2019, o dólar ficou cotado em R$ 3,92, alta de 7,4% na comparação ano x ano. O atraso da aprovação de reformas (previdenciária e tributária, por exemplo) e as turbulências no cenário político colaboraram com a valorização do dólar em 2019. Além disso, a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos também impactou na precificação do dólar.

Reflexos das exportações no mercado interno

No mercado do boi gordo, o macho terminado ficou cotado em R$ 192,00/@ no fechamento da primeira quinzena de novembro. Alta de 30,6% na comparação ano x ano (considerando preço nominal). Além da oferta restrita de boiadas, o maior volume de carne destinada para o mercado externo colaborou com a alta de preços no mercado doméstico.

Movimento semelhante, porém em menor magnitude, para o preço da carne de frango. Apesar do menor volume embarcado (no acumulado de janeiro a outubro), a valorização da proteína no mercado externo repercutiu na cotação no mercado doméstico. A carne de frango subiu 8,7%, considerando o mesmo período.

Já a cotação da carne suína subiu 32,3% de novembro de 2018 a novembro de 2019. No mercado de grãos, a cotação da saca de 60 kg de milho, na região de Campinas (SP), subiu 27,8%, e a saca de soja (60 kg) subiu 4,1% na região de Paranaguá (PR), considerando a comparação anual (novembro 2018 x 2019).

China

O surto da peste suína africana na China desencadeou o abate sanitário e, consequentemente, afetou a produção. A China é a maior produtora e consumidora mundial de carne suína. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o estoque final chinês deverá cair quase 120 milhões de cabeças em 2019 com relação a 2018.

Em 2017, ano anterior à doença, a China detinha 441,59 milhões de suínos. Já em 2018, a quantidade havia caído para 428,07 milhões de cabeças, e a estimativa para 2019 e 2020 é de que o estoque final seja de 310 milhões e 275 milhões de suínos, respectivamente (USDA). Com a menor oferta de carne suína, o gigante asiático aumentou as importações de carnes, e o Brasil é um dos poucos produtores de alimentos do mundo com capacidade para atender a essa demanda.

A China foi o principal destino da carne bovina brasileira, com cerca de 21,8% do total exportado de janeiro a outubro. Hong Kong foi o segundo destino da carne, com cerca de 19,5% da carne bovina foi embarcada para o país (MDIC, 2019). Em 2017, a China importou 974 mil toneladas de carne bovina, 311 mil toneladas de carne de frango e 1,62 milhão de toneladas de carne suína (USDA). Em 2019, a estimativa é de que as importações sejam de 2,4 milhões de toneladas de carne bovina, 625 mil toneladas de carne de frango e 2,6 milhões de toneladas de carne suína (USDA).

Este cenário deve se intensificar em 2020. De acordo com o USDA, a importação chinesa de carnes no próximo ano deve ser de 2,9 milhões de toneladas de carne bovina, 750 mil toneladas de carne de frango e 3,5 milhões de toneladas de carne suína. Em 2019, as importações chinesas de carne bovina, de frango e suína devem aumentar 63,6%, 82,7% e 66,6%, respectivamente, na comparação com 2018, e, em relação a 2017 (ano anterior ao surto), o aumento dos embarques deve ser de 197,7% para a carne bovina, 141,2% para a carne de frango e 116% para a carne suína.

O consumo de carne bovina na China é de cerca de 5,42 kg/habitante/ano (abaixo da média mundial, que é de cerca de 7,89 quilos por habitante por ano). O consumo brasileiro é cerca de 37,55 kg/ habitante/ano (USDA e FAO, 2018). O consumo aumentou significativamente ao longo das últimas décadas. Em 1980, o consumo per capita era de 0,263 kg (USDA e FAO). A oferta necessária para atender à demanda chinesa representa, atualmente, 79,9% da produção brasileira de carne bovina. Com o consumo per capita chinês aumentando, e o Brasil sendo um dos poucos produtores capazes de atender a essa demanda crescente, a exportação para a China deve seguir em bom ritmo, no curto prazo.

Outro grande produtor mundial de produtos agropecuários são os Estados Unidos; contudo, estão em uma disputa comercial há meses, e o fim desse embate deve demorar. Caso esse cenário não se altere, o Brasil deve seguir exportando bons volumes de carnes para a China. De janeiro a outubro, a China foi responsável por 28,4% do faturamento total da exportação de carne bovina pelo Brasil.

Acordos comerciais

Em 2019, a China habilitou 22 plantas frigoríficas para exportar carne bovina, 17 foram habilitadas na primeira quinzena de setembro e cinco na primeira quinzena de novembro. O Brasil também conseguiu a habilitação de oito plantas frigoríficas para exportar carne bovina para a Arábia Saudita.

A Indonésia também abriu o mercado para o produto brasileiro em meados de agosto, e, em 2018, a Rússia voltou a comprar do Brasil. A abertura de mercado entre Brasil e Estados Unidos que não aconteceu. Contudo, essa notícia não afetou o mercado do boi gordo, que continuou com fortes altas tanto no mercado físico quanto no mercado futuro.

Em 4/11, data de anúncio do veto, até o dia 21/11, a arroba do boi gordo subiu 28,5%, considerando a praça de São Paulo. Já o mercado futuro, o contrato de outubro de 2020 saiu de R$ 194,30/@, no fechamento do dia 4/11, para o patamar de R$ 222,00/@ no fechamento do dia 21/11.

Produção brasileira de alimentos

Segundo o pesquisador da Embrapa, Evaristo Eduardo de Miranda, um país precisa produzir 250 kg/habitante/ano para ter segurança alimentar. Se o resultado ficar abaixo disso, significa que o país necessitará importar alimento. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 2019, o Brasil produziu 242,1 milhões de toneladas de grãos.

Ou seja, o Brasil produziu grãos suficientes para alimentar 968,48 milhões de pessoas. Isso sem contar com a produção de tubérculos e raízes (como mandioca e batata, por exemplo). A produção brasileira de carnes (bovina, de frango e suína), em 2018, foi de 27,02 milhões de toneladas.

Do total de grãos produzidos em 2019, a estimativa é de que 126,83 milhões de grãos sejam exportados (Conab). E, para as carnes (bovina, de frango e suína), a expectativa é que sejam exportadas 6,45 milhões de toneladas (USDA). Ou seja, além de produzir o suficiente para a alimentação brasileira, as exportações colaboram com a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas no mundo.

Expectativas

Para 2020, as expectativas são positivas. Do lado do câmbio, segundo o relatório Focus (material compilado e divulgado pelo Banco Central), publicado em 14 de novembro de 2019, a expectativa é de que o dólar se mantenha na casa dos R$ 4,00 no próximo ano, mantendo a boa atratividade das exportações.

A realização de acordos comerciais em 2019 (como a abertura de mercado com a Arábia Saudita e a Indonésia, por exemplo) deve manter a exportação atraente. Vale destacar a China importando bons volumes de carnes. A tendência, para 2020, são as exportações em alta, mesmo que haja queda no volume embarcado frente a 2019.