Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Ciclo Pecuário

O poder está com elas

Expectativas de preços firmes para reposição estimulam retenção de fêmeas, enquanto novilhas devem continuar com demanda forte para o mercado chinês

Hyberville Neto* e Alcides Torres**

O cenário de preços do boi gordo e da reposição, ao final de 2019, mostra um nível de otimismo incomum. As cotações futuras do boi gordo para outubro de 2020 ultrapassaram os R$ 200,00/@ à vista no início de novembro. Normalmente, em um mercado, temos fatores positivos intercalados com fatores negativos. Por vezes, o consumo doméstico está bom, mas a oferta de boiadas também está grande. Ou, então, a exportação está fraca. Quando há indicadores em direções opostas, não é fácil atribuir peso a cada um e estabelecer uma expectativa. O último trimestre de 2019, no entanto, trouxe apenas pontos positivos. São vetores de maior ou menor intensidade, mas todos na mesma direção.

A exportação de carne bovina está com bom desempenho e com projeções positivas, principalmente por causa da demanda chinesa. No mercado doméstico, a demanda não está nos seus melhores momentos, mas tem se recuperado, e as expectativas são de que a recuperação continue. Com relação à oferta, o abate de fêmeas nos últimos anos deixou o mercado de reposição enxuto e as cotações firmes e em alta.

O foco desta análise é justamente o mercado de reposição, o abate de fêmeas e o ciclo de preços pecuários, não há como dissociar os assuntos. O abate de fêmeas sofre a influência dos preços do boi e da reposição, estabelecendo o ciclo de preços pecuários. Em uma análise direta, comparando os preços futuros do boi gordo para outubro de 2020 (em alta), devemos lembrar que se trata da venda de bovinos que, hoje, são categorias de reposição.

Abates e ciclo pecuário

Os preços da reposição e dos bovinos terminados têm comportamentos semelhantes quando analisamos o intervalo de alguns anos. Aqui, cabe o comentário de que, no longo prazo, década a década, as categorias jovens têm se valorizado mais do que o boi gordo, gerando perda de poder de compra do recriador/invernista e, consequentemente, exigindo mais eficiência na produção.

Após esse comentário conjuntural, voltaremos a um intervalo menor de análise (anos) para falar do ciclo pecuário. Nas fases de alta de preços do boi gordo e da reposição, o produtor de bezerros vê seu resultado melhorar, o que estimula a produção. Neste momento, o criador tende a diminuir o descarte de fêmeas com o intuito de aumentar a oferta de bezerros, então valorizados. É uma fase positiva, na qual o produtor aufere resultados melhores e, consequentemente, está mais capitalizado. Isso permite a estratégia de manter mais fêmeas no rebanho. A situação financeira favorável é importante, porque aumentar o rebanho é uma forma de investimento.

Quando isso é feito por diversos pecuaristas simultaneamente, essa retenção de fêmeas tira parte das vacas e novilhas dos abates, consequentemente, afetando a produção de carne e intensificando as altas. Quando uma parcela importante dos produtores adota tal estratégia, há um aumento no rebanho de fêmeas e, em um segundo momento, acréscimo no volume de bezerros produzidos. Então começa a fase de baixa do ciclo de preço, com oferta superior à demanda. A receita do criador é afetada e, por necessidade de caixa e interesse menor em produzir bezerros, então desvalorizados, aumentam as vendas de vacas e novilhas. Nessa fase, na qual o mercado já vinha fraco, essa oferta de vacas e novilhas intensifica os recuos de preços da arroba.

Esses momentos de alta e de baixa oferta de fêmeas no abate de bovinos caracteriza o ciclo de preços pecuários. A Figura 1 mostra essa oscilação da participação de fêmeas nos abates do primeiro semestre, juntamente com a evolução dos preços do bezerro de 12 meses em São Paulo, em reais por cabeça, deflacionados pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, da Fundação Getulio Vargas). Foram considerados os abates dos primeiros semestres para todos os anos para tirar o efeito da sazonalidade da venda de fêmeas, uma vez que, para 2019, os dados estão disponíveis até junho. Em geral, o abate de vacas e novilhas são maiores na primeira metade do ano devido ao calendário reprodutivo e ao descarte de parcela das vacas e novilhas vazias após a estação de monta.

Observe que, mesmo com a cotação do bezerro em alta, a participação de fêmeas praticamente se manteve em 2019, no primeiro semestre. Aqui, temos um fator importante para ser analisado, que é a participação de novilhas nos abates em decorrência da demanda chinesa, sobre a qual comentamos a seguir.

Abate de novilhas

Com a Peste Suína Africana dizimando o rebanho suíno chinês, maior produtor mundial, tem havido um aumento forte das compras do país, não apenas de carne suína, mas também de carne bovina e de frango. Os detalhes dessas exportações são alvo de uma análise específica, também neste anuário, mas, aqui, vamos dar atenção ao gado para a produção de carne para a China. Basicamente, os requisitos são que o bovino tenha até 30 meses de idade e que o frigorífico exportador seja habilitado. A idade é o que afeta a análise dos abates.

Quando falamos de gado confinado, normalmente, a idade não é problema. Se considerarmos um período de 100 dias no sistema, o bovino pode ter entrado com pouco mais de dois anos no cocho e ainda atende à exigência chinesa. Para a oferta de gado produzido em pastagens é diferente. Em geral, a idade de abate em sistemas de pastagem supera o exigido, o que limita a oferta para os exportadores. As novilhas são a opção.

Os abates de novilhas têm aumentado nos últimos anos também por questões de produção de carne de programas de qualidade, que compram bem a categoria. Mas, em 2019, especificamente, podemos atribuir uma boa parcela do aumento da procura pela categoria à demanda chinesa. Em 1997, as novilhas compuseram 11% do abate de fêmeas no primeiro semestre (IBGE). No primeiro semestre de 2019, as novilhas representaram 28,5%. A Figura 2 mostra a variação dos abates das categorias entre 2018 e 2019.

Perceba que caiu o abate de vacas e aumentou o abate de novilhas. Isso fez com que a participação de fêmeas no abate de bovinos aumentasse de 45,5%, no primeiro semestre de 2018, para 45,7% em 2019. O abate total, no primeiro semestre, foi de 15,96 milhões de cabeças, um aumento de 2,7% na comparação com o mesmo intervalo do ano anterior.

Mercado de reposição

O nível elevado de fêmeas abatidas nos últimos anos tem cobrado seu preço, diminuindo a oferta de gado para reposição. Isso tem sido sentido para as diversas categorias, deixando o mercado firme e em alta mesmo antes de o mercado do boi gordo ter deslanchado, no segundo semestre de 2019.

Em média, de janeiro a outubro de 2019, frente ao mesmo período de 2018, a cotação do bezerro de 12 meses subiu 6%, em valores reais. O boi magro subiu 3,2%, e o boi gordo, embora tenha ganhado força a partir do meio do ano, teve a menor alta na média do ano, de 1,2%. Comparando do outubro de 2019 com outubro de 2018, as altas reais foram de 10,9% para o bezerro de ano, 8,9% para o boi magro e 5,9% para o boi gordo. Os valores foram deflacionados pelo IGP-DI. As valorizações mais fortes para as categorias jovens demonstram a falta de oferta, o que vai ao encontro do cenário do aumento da participação de fêmeas nos abates em 2017 e 2018.

Para 2020, esperamos um cenário de preços firmes para as diversas categorias, “de mamando a caducando”. Apesar de expectativas positivas para os preços da reposição, como o cenário está promissor para as cotações do boi gordo, é possível que a valorização dos animais terminados seja mais expressiva que a dos bovinos de reposição, o que tende a ajudar na relação de troca, que vinha prejudicada pelos preços crescentes das categorias jovens.

É um ciclo, uma vez que preços em alta para o boi gordo animam os compradores de reposição e, por sua vez, ajudam a puxar essas cotações. De toda forma, como a demanda por carne no mercado doméstico deve melhorar e, no mercado externo, tende a continuar em alta, a cotação do boi gordo deve ser influenciada de maneira direta, assim como as categorias próximas da terminação, como boi magro e garrote.

Expectativas

Perceba como falar de ciclo pecuário, reposição e boi gordo é praticamente a mesma coisa. Para traçar as expectativas, esses assuntos também se misturam. Em 2019, esperávamos o início do período de retenção de fêmeas, que ocorreu para vacas, mas que foi mascarado pelo forte abate de novilhas. Para 2020, a expectativa também aponta para uma redução da oferta de fêmeas para abate, com a cria estimulada pelos preços dos bezerros. Por outro lado, a demanda da China faz com que os frigoríficos mantenham a demanda por novilhas em alta, o que pode, novamente, turvar o movimento de redução da participação de fêmeas nos abates.

Quanto à oferta geral de bovinos, a tendência é de diminuição, como tem sido observado para a disponibilidade atual de gado de reposição. O que pode alterar isso é a maior quantidade de novilhas para a produção de carne e uma eventual antecipação de parte do gado por meio de confinamento, a depender da atratividade dos preços futuros no primeiro semestre de 2020 frente a possíveis preços maiores para os alimentos, com destaque para o milho.

As dúvidas pairam sobre os efeitos que esse aumento súbito do abate de novilhas terá sobre a intensidade e a duração da fase de alta do ciclo. Vale ressaltar que a tendência de aumento do abate de novilhas já vinha sendo observada, mas, aqui, referimo-nos ao salto recente, relacionado, em boa medida, à demanda chinesa.

*Editor-chefe do informativo pecuário semanal Boi & Companhia da Scot Consultoria **Analista e consultor de mercado e coordenador das ações gerais da Scot Consultoria