Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado de Touros

Negócios aquecidos

Crescimento entre 10% e 40% na comercialização de reprodutores anuncia ano promissor para a venda de genética

Thaise Teixeira e Lucas Borghetti
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O reflexo do boom da arroba sentido no final deste ano só chegará às pistas no próximo ano, mas os últimos meses de 2019 já deram uma provinha aos leiloeiros do que prometem os negócios no país que está, dia a dia, se consagrando como grande fornecedor de carne e grãos para o mundo. Antes mesmo de contabilizarem o caixa total de janeiro a dezembro, o saldo já estava 40% maior do que o registrado no ano anterior com relação à quantidade de animais comercializados e 30% com relação ao faturamento.

Resultados decorrentes de um ciclo de cinco anos de baixa que se encerra com déficit de bezerros e retenção de fêmeas, os números refletem não só a retomada da economia brasileira. De acordo com os ícones do martelo no país, devem-se à profissionalização da pecuária e do consequente investimento no melhoramento genético realizado pelos criadores. E inauguram uma nova era em que os amadores estão sucumbindo ao poder de fogo dos profissionais, inclusive na oferta em pista.

É o que verifica o leiloeiro Maurício Tonhá, proprietário da Estância Bahia Leilões, que atende o mercado pecuário das regiões Norte e Centro-Oeste. “O ano de 2019 já foi melhor do que 2018 para quem faz melhoramento genético. Diminuiu muito a oferta de animais sem números, sem avaliação. Ao mesmo tempo, aumentou a qualidade dos produtos ofertados, animais com circunferência escrotal acima da média, precocidade”, relata. A este motivo, ele credita uma valorização de 10% a 20% registrada nas médias deste ano e a comercialização de 12 mil exemplares com média em R$ 10 mil para os touros PO para produção.

Uma das líderes na venda de touros no Brasil, a Central Leilões, deve fechar o ano com a comercialização de 17 mil touros e um crescimento entre 37% a 40% no faturamento conforme o proprietário da empresa, Lourenço Campo. “Neste período do ano passado (até outubro), tínhamos vendido R$ 147 milhões. Este ano (até outubro), já passamos de R$ 201 milhões”, revela. De acordo com ele, a valorização em pista deve-se à forte demanda por bezerros, que, neste ano, apresentaram médias 10% superiores às de 2018. “Tem muita demanda e quem procura não encontra. Na época de seca, normalmente, o preço cai. E este ano subiu tamanha está a falta de bezerros”, comenta. No caso dos touros, a valorização registrada pela Central, em 2019, foi de 12%. “Este ano, estamos com média de R$ 8,6 mil contra R$ 7,8 mil registrada no ano passado”, compara Campo.

O apagão de bezerros também impactou positivamente nos negócios da Programa Leilões segundo o diretor comercial da empresa, Flávio Santos. De acordo com ele, as médias dos touros aumentaram em torno de 25% quando comparadas às de 2018, saindo de R$ 9 mil para entre R$ 10 mil e R$ 11 mil. “Mataram muita fêmea, gerando uma grande falta de bezerros, que ficaram escassos e caros há nove meses. Por isso, a reposição está cara”, diz. A previsão é fechar o ano com a comercialização entre 22 mil e 25 mil touros.

Sintéticas e cruzadas

As raças sintéticas, principalmente Braford e Brangus, foram as vedetes da temporada de Primavera do Rio Grande do Sul, o berço da genética britânica e europeia no Brasil. Segundo o proprietário da Knorr Remates, Eduardo Knorr, ambas se destacaram com relação ao preço. Atingindo médias entre R$ 7 mil e R$ 12 mil, foram as preferidas dos criadores do Sudeste e do Centro-Oeste do país que buscaram genética, rusticidade e precocidade. Juntamente com a raça campeã na venda de sêmen no Brasil, a Angus, e a Hereford, que também expande Brasil afora, as médias foram de 10% a 15% maiores do que no ano passado.

A liquidez na venda de bovinos e as médias alcançadas foram pontos positivos da temporada segundo a Trajano Silva Remates, com destaque para os leilões realizados a partir do dia 15 de outubro com preços mais elevados e 100% das ofertas comercializadas. O diretor da leiloeira, Marcelo Silva, destaca os leilões que ocorreram em Uruguaiana (RS) e em Lavras do Sul (RS), que fizeram média, entre os terneiros, de R$ 7,09 e R$ 7,20 o quilo, respectivamente. “Isso significa uma alta de 30% em relação ao mês de setembro”, observa, afirmando que muito desse resultado se deve à realidade das exportações brasileiras de carne.

Para o leiloeiro Fábio Crespo, as medidas de touros e matrizes registraram elevação entre 10% e 12% com relação ao ano passado. "Foi uma temporada mais fácil e menos trabalhosa, com gente procurando touro, procurando ventres de todas as raças. O Paraná comprou muito, mesmo com o adiamento do fechamento da fronteira com o Rio Grande do Sul e Santa Catarina para o dia 1º de janeiro”, ressalta.

Na região central do país, o meio sangue Angus segue expandindo nas pistas com incremento entre 10% e 15% no volume de animais de algumas praças especialmente em estados como Mato Grosso, Tocantins, Rondônia e Pará. Destaque também para as sintéticas Montana, Senepol e Caracu, segundo Lourenço Campo, da Central Leilões

Que venha 2020

Com a sinalização positiva do mercado de touros no último trimestre de 2019, a expectativa dos leiloeiros para as pistas é de aquecimento, principalmente com o impacto da abertura de mercados internacionais. “Se o mercado interno, acanhado do jeito que estava, na crise em que ainda está. conseguir melhorar junto mercado externo, vamos ter anos bons para a pecuária” analisa Lourenço Campo, da Central Leilões.

Quanto a 2020, o clima é de otimismo na Trajano Silva Remates. “Esperamos que este ativo que é a pecuária sofra um incremento importante, de maior valorização em dólares dos touros”, relata Marcelo Silva. Entre os motivos, Silva também aponta as novas possibilidades de exportação de carne. Um segundo motivo, seria a troca de ativos, ou seja, a migração de gente do mercado financeiro para a pecuária por conta queda dos juros das aplicações. Por último, o diretor da Trajano Silva aponta a redução de lavouras orizícolas, o que leva alguns produtores levarem parte dos investimentos da lavoura de arroz para a pecuária. “Acredito que, se a procura de outros países pela carne brasileira se tornar concreta, com o ingresso forte da China no mercado, um fator determinante, a sinalização é positiva para os próximos anos”, estabelece Knorr, sem medo de errar. “Além disso, temos as exportações de gado em pé, que vem se mantendo”, complementa.

Um novo ciclo para a pecuária é esperado por Maurício Tonhá, da Estãncia Bahia, com a retomada da economia e a forte entrada da Ásia na demanda dor carne. “Acredito que estamos no limiar de uma mudança de parâmetros. Na pecuária, isso costuma acontecer a cada cinco anos. Em 2015, tivemos bons números e depois vivemos uma profunda dificuldade”, lembra. Para isso, conta com o aumento na realização dos leilões virtuais, que já respondem por 70% dos negócios da leiloeira. “Animal não é bicho para ser exposto, principalmente o gado de produção, de corte. O bicho criado a pasto, quando colocado em caminhão e curral, quebra, briga, se machuca, perde peso. Defendo a racionalidade dentro do bem-estar animal e a racionalidade econômica, e isso está no leilão virtual”, declara.

Os leilões virtuais também respondem por 70% das vendas na Programa Leilões. Segundo Flávio Santos, diretor comercial da empresa, a modalidade é responsável por democratizar o acesso à genética a todos os cantos do Brasil. “ O criador adquire genética por preço acessível e a recebe em casa. Ano passado, a gente teve 2 mil compradores de lotes individuais novos, não compravam porque não recebiam o animal em casa”, finaliza.