Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Tecnologia

Da quarta Revolução Industrial para a onda 6.0

Nova década requer pessoas e sistemas de produção especializados, mas versáteis e preparados para aproveitar novas oportunidades

Júlio Barcellos* e Tamara Esteves de Oliveira**

A pecuária brasileira, deitada em berço esplêndido, puxada pelos ventos favoráveis da demanda, prepara-se para a aurora do amanhecer de 2020, logo ali, em uma fração temporal e cronológica quase imperceptível. Novos desafios, novas conquistas para a cadeia produtiva da carne bovina, velhos problemas, muitos aprendizados nas últimas décadas e perspectivas favoráveis para o amanhã. Nesse contexto, a quarta Revolução Industrial, proposta pelo criador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, contempla a fusão de tecnologias e a interação entre os domínios digitais, físicos e biológicos. Ela é a mais complexa das ondas transformadoras que atingiu a sociedade, pois avança em uma velocidade inimaginável, com amplitude mundial e efeitos profundos.

Obviamente, a pecuária de corte, como atividade econômica e de grandes conexões com as pessoas, não esteve isolada dessa revolução e até foi reimaginada como Pecuária 4.0. A partir do uso da inteligência artificial, da internet das coisas, da robótica, da biotecnologia e da nanotecnologia, o dentro da porteira, com a criação do gado, usufrui, ainda que modestamente, dessa onda. Vale dizer que, aqui, há um grande paradoxo: o mesmo pecuarista que usa um sistema de rastreamento por satélite do rebanho ainda não tem certeza do estoque de gado de sua fazenda. Portanto, aqui pretendemos transitar por esses dois mundos: o dentro da porteira (visão do pecuarista) com o depois da porteira (as influências externas da sociedade).

Neste novo mercado, o protagonista é o pecuarista que orienta sua produção para grupos de consumidores e integra-se de maneira vertical com frigoríficos e varejo. Nesse último, ressurge o velho açougue, agora denominado de boutique de carnes ou beef stores. Nele, não há mais o gato sobre o balcão, mas produtos dignos da Revolução Industrial 4.0 – sal gourmet, utilidades para o churrasco, carvão especial, madeiras aromatizantes, azeites e vinhos finos, novos cortes de carnes, além de receitas do chef – não mais do açougueiro. Enfim, produtos e serviços associados à carne que permitem, por meio do QR Code, em tempo real, conhecer o nome da fazenda, a idade do animal e o seu sistema de criação, além da certificação por uma terceira parte.

Da Pecuária 4.0 para a 6.0

O atendimento da produção em um conceito que está além da cadeia de suprimentos, mas subordinado à força puxadora da demanda (Demand Chain), pressupõe que, dentro da porteira, o pecuarista precisará atender ao que lhe pedem, mas de forma que a atividade lhe aproprie o lucro mínimo à sua sustentação e ao crescimento. A isso, cada vez mais forte, somam-se as imposições estabelecidas pelos marcos regulatórios vigentes no que diz respeito ao uso dos recursos ambientais e às relações de trabalho. Assim, as preocupações são mais amplas e interligadas, pois o gestor, agora, precisa cuidar da produtividade, do meio ambiente, dos custos de produção, dos recursos humanos e, ainda, ter os olhos voltados para o além da porteira – os stakeholders (aqueles que palpitam de longe, mas que influenciam a demanda).

Na primeira metade da última década, houve uma incorporação muito intensa de tecnologia aplicada à pecuária de corte, a maioria ligada aos insumos, pois as relações custo-benefício eram muito favoráveis. Estratégias tecnológicas ligadas ao controle da reprodução e da alimentação animal foram consolidadas. Nunca o Brasil inseminou tanto seu rebanho, sendo referência internacional no tema.

A suplementação a pasto, o semiconfinamento e o confinamento cresceram e repercutiram na redução de idade ao primeiro acasalamento e ao abate. A avaliação genética de touros para as características econômicas e de qualidade de carne também se estabeleceram nos programas de seleção da maioria das raças bovinas. Aplicativos para smartphone, videoaulas, centenas de consultores e técnicos de campo propagaram, nos quatro cantos do País, conceitos e práticas revolucionárias na pecuária. Entretanto, com tudo isso, os resultados econômicos para o pecuarista foram muito modestos – inclusive, para muitos, prejuízos na certa. Então talvez não seja apropriado chamar de Pecuária 4.0 uma atividade que ainda tem baixa produtividade e mínimas margens econômicas.

Na visão de um grupo de consultores, o caminho é o da gestão ou da cogestão, palavras que, nos anos 1970, chamávamos de organização da produção. Estamos apenas cinco décadas atrasados, pois, se nesta virada do ano, olhando para os próximos dez anos, o pecuarista insistir que apenas a gestão e o estabelecimento de controles dos processos produtivos são suficientes, pouco se beneficiará dessa nova fase que se aproxima.

Portanto, cabe fazer um atalho e denominar, pela primeira vez, uma sexta revolução, sem rito de passagem ou transição, saindo do movimento 4.0 para o mundo real, que vamos chamar de 6.0, com foco na integração entre os mundos digital e físico. A partir da premissa de que os principais indicadores físicos da produção na bovinocultura de corte são ganho de peso diário e número de animais/hectare (lotação); e os econômicos, custo e margem bruta/kg produzidos, têm-se que buscar o equilíbrio entre esses elementos da complexa equação para apropriar-se do favorecimento do mercado. Vale dizer que, embora o produtor não tenha força no mercado, a entrega do bezerro, do boi gordo ou de qualquer outra categoria, sob uma demanda específica, sempre lhe confere certo poder sobre a sua precificação.

Nos processos produtivos, a organização da produção, passará, inicialmente, pela definição dos tipos de sistemas mais ajustados às características regionais ou até locais. A cria, a recria, a engorda, a recria -engorda e o ciclo completo começam, novamente, um movimento dos anos 1980, a especialização. Contudo, em uma visão de futuro, com mudanças muito rápidas nos negócios, novas exigências do mercado – e até mesmo legais, pressupõem sistemas no estilo “flex”, especializados, mas versáteis e preparados para aproveitar oportunidades que surgem. O pecuarista deve estar atento às demandas momentâneas sobre um “tipo” de gado e, mesmo que não seja o seu foco, vendê-lo sob condições favoráveis de preços.

Um produtor especializado na engorda pode vender animais para reposição, ou exportá-los em pé. Assim, o pecuarista deve sair da armadilha de somente vender para pagar os gastos. Deve também vender por excesso de produção ou aproveitar oportunidades. Atualmente, 90% dos pecuaristas vendem gado porque precisam do dinheiro; 7%, para desocupar o pasto às novas categorias que entram; e apenas 3%, por oportunidade. Dessa forma, ele está sempre subordinado ao mercado e às suas flutuações estacionais de preço. Organizar a produção e associar a comercialização ao fluxo de caixa é a ferramenta mais óbvia e passa, obrigatoriamente, pelo uso de tecnologia.

No que diz respeito à produção, o entendimento de um fluxograma com as principais etapas da criação por todos os processos associados, seus procedimentos básicos, como o acasalamento, o desmame, a recria, o processo de engorda, marcados por indicadores de processos e de resultados, constituem a base física gerencial. A partir disso, o pecuarista está preparado para escolher o conjunto de tecnologias para cada processo produtivo, pois, para cada um, existem várias opções de tecnologias. Por exemplo, para a engorda, temos suplementação a pasto, confinamento com alto grão ou com dieta total, engorda exclusiva a pasto, uso de feno, etc. Cabe ao pecuarista, baseado no custo, nos benefícios, na operacionalidade, nos riscos e na flexibilidade de cada técnica fazer sua escolha. Ele não pode ficar refém de “modinhas” tecnológicas como se apenas elas fossem aplicáveis à sua realidade.

A próxima década será a da Pecuária 6.0, aquela que incorpora todos os princípios técnicos da 4.0 – aplicativos para avaliar a condição corporal do gado, sensores para detectar a variação da temperatura corporal dos animais e leitura por sobrevoo de drones. Integra, ainda, comedouros destinados a suplementar os animais a campo sem fornecimento diário (quantidade de suplemento liberado de forma individual), cercas virtuais para subdividir áreas de cultivos agrícolas em pequenas parcelas para integração com a pecuária, diagnósticos de doenças por fotos ou vídeos encaminhados a clínicas virtuais. Cabe falar, ainda, das rações compostas por um conjunto de aditivos e novos nutrientes destinados a funções específicas, balanças integradas com sistemas de gestão e controle da fazenda, e também com o frigorífico de destino do gado. Equipamentos que capturam o bezerro no pasto sem o uso do cavalo e do laço.

Neste mundo, a identidade telúrica, atávica, a vinculação do homem com a terra, com o animal, a sua sensibilidade, seu empirismo geracional e sua capacidade de observar a natureza desapareceu? Na visão da Pecuária 4.0, sim. Na 6.0, não. E é isso que proponho para reflexão do pecuarista e das modinhas de plantão.

Nesta onda de 2020-2030, o papel preponderante e diferencial é a inclusão do homem, dos recursos humanos, do indivíduo como agente ativo do processo. Por mais que queiramos, atender ao parto de uma vaca e curar o umbigo do bezerro, não têm Pecuária 4.0 feita somente pelo homem e pelo seu conhecimento tácito. Então a diferença é que a modernidade complementa a pecuária, e não a substitui.

A competitividade estabelecida pela maior produtividade como fator indutor do menor custo/quilo produzido, utilizando economia de escala e maior eficiência – fazer mais com menos – será a cereja da década. Denominamos isso de eficiência tecnológica – quanto obtemos de uma técnica quando a utilizamos na fazenda. Se a suplementação a pasto na recria tem o potencial para o aumento de 1,0 kg/cabeça/dia e alcançamos isso, a ferramenta teve 100% de eficiência tecnológica. Por outro lado, se atingimos apenas 0,500 kg, o custo foi similar à situação anterior, mas o resultado é de apenas 50% do esperado. O que determinou essa diferença? Na Pecuária 4.0, talvez tenha sido a quebra de um equipamento ou o sensor da distribuição do suplemento. Na 6.0, está e estará associada ao homem que executa isso e a tudo que diz respeito a seu entorno, suas habilidades, sua capacidade de observação, sua motivação, sua remuneração e sua valorização como indivíduo ativo no processo.

Portanto, a próxima década será cada vez mais dependente do ser humano, e o famoso gap de pessoas para atuarem na pecuária, dentro da porteira, precisará ser superado, pois não haverá equipamento e internet das coisas, impressora 3D ou veículos monitorados que substituam o homem. Preparar pessoas, capacitar as competências necessárias à nova realidade, torná-las mais participativas, ensinar fazendo, premiá-las por produtividade, inseri-las no conceito do produto final ao consumidor serão os grandes desafios para que o pecuarista aproveite e consolide tudo o que os bons preços lhe proporcionarão.

*Professor titular da Faculdade de Agronomia – NESPro/UFRGS (foto ao lado) [email protected] **PhD em Agronegócios, pesquisadora em Cadeias Produtivas e Sistemas de Produção Animal – NESPro/UFRGS