Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Cenário

Como vencer na próxima década?

Em torno de 40% dos pecuaristas deixarão a atividade nos próximos dez anos. Aos 60% que permanecerem caberá a missão de construir a “pecuária vertical” para produzir mais sobre o mesmo pedaço de terra

Francisco Vila*

A pecuária evoluiu muito ao longo das últimas décadas. Genética, pasto rotacionado, confinamento, bem-estar animal, gestão com drones etc. A diferença de agora para o futuro é que tudo se desenvolverá com velocidade e amplitude bem maiores. E, para ter uma visão holística das perspectivas, precisamos enxergar nossa fazenda com um olhar de “fora da Em torno de 40% dos pecuaristas deixarão a atividade nos próximos dez anos. Aos 60% que permanecerem caberá a missão de construir a “pecuária vertical” para produzir mais sobre o mesmo pedaço de terra Francisco Vila* porteira”. A combinação de processos e pessoas e as implicações financeiras e legais serão os principais fatores que dominarão a nova forma de gerenciar a produção da carne bovina.

O cenário

Raramente uma década começou com tantos eventos disruptivos como o período 2020-2030. Mas não é só a natureza e a gravidade dos acontecimentos que preocupam. O principal desafio será sua simultaneidade e, por consequência, sua evolução espiral de efeitos cumulativos. Esses, sim, são dificilmente previsíveis.

Somos testemunhas de crescentes manifestações e minirrevoluções de todo o tipo e em um número cada vez maior de países. A facilidade de espalhar informações (mais fake news do que dados corretos ou conclusivos), reforçada pela acessibilidade total e instantânea, faz (e fará) com que qualquer pequeno acontecimento seja imediatamente multiplicado mundo afora. Isso já mudou e mudará mais ainda a forma como viveremos e trabalharemos no futuro.

Na mídia, questões de fome e pobreza ocupam as manchetes. Porém não consideram que temos, hoje, os mesmos 800 mil famintos que o inglês Malthus citou em sua obra publicada em 1800, quando defendeu a necessidade de frear o crescimento da humanidade em até 1 bilhão de pessoas. Poucos lembram do seu argumento de não haver comida suficiente na Terra para tanta gente. No entanto, ele não podia imaginar que, com a invenção do adubo, das máquinas agrícolas e com avanço na genética, tudo mudaria. Em 2020, a população mundial chegará a 8 bilhões, mas continuará contando com as mesmas 800 mil pessoas sem alimentação adequada.

O aquecimento global é outro assunto de moda. Não que ele não exista e precise ser inteligente mente combatido. Todavia, o foco em causas pouco relevantes desvia atenção e energia da promoção de medidas mais eficientes de proteção. Além disso, o avanço tecnológico na preservação de água, na geração de energias renováveis e na criação de insumos cada vez menos danosos contribuirá para manter o mundo dentro dos limites dos acordos de Paris.

Outro tema que requer uma abordagem mais racional é a discussão sobre pobreza e desigualdade entre ricos e pobres. Essa questão também tem a ver com as mudanças no perfil do setor do agro e do consequente êxodo rural. Primeiro, é verdade que os ricos ficam cada vez mais ricos. No entanto, os chamados “pobres”, ou seja, a população das classes C e D, também melhoraram significativamente seu acesso a bens materiais de consumo, educação, saúde e conforto em geral. É só frequentar o transporte público nas horas do rush para constatar que as pessoas andam mais bem vestidas, com relógios, bolsas e smartphones. Esse nível de consumo era inimaginável há uma ou duas décadas atrás, seja no Brasil, na China ou na Índia.

Esse fenômeno é importante sob dois aspectos. O acesso a melhores produtos amplia a demanda da classe média por alimentos mais sofisticados. Por outro lado, a insatisfação (de certa forma, pouco justificada) com a distribuição da renda faz com que se intensifique a polarização da sociedade e, assim, da política. A consequência está à vista em muitos países que entraram em uma espiral de ingovernabilidade. Essas tendências de antiglobalização, anticapitalismo e antigoverno, nem sempre sem razão, corroem os fundamentos da nossa sociedade ocidental. Certamente, enfrentaremos novos desafios para questões como propriedade rural, tributação de heranças etc.

Os reflexos negativos serão vistos no crescimento econômico e na demanda por bens no horizonte de dez a 20 anos. Não é por acaso que entramos no chamado ciclo secular da redução do crescimento das principais economias mundiais. Porém, enquanto os gigantes do palco global brigam entre si, o Brasil pode focar em produções que dependem menos das conjunturas econômicas, políticas e até do avanço tecnológico. Água, terra e sol são tão ou mais importantes que computadores hiperinteligentes ou carros voadores.

Não obstante esse privilégio natural, é imprescindível olhar para a revolução tecnológica com muita atenção. Com a introdução do 5G (quinta geração da telecomunicação), entraremos em um campo de acelerada interconexão entre biotecnologia, nanotecnologia e a internet das coisas. Ainda não somos capazes de imaginar os efeitos das múltiplas novidades, nem a velocidade e a amplitude com as quais elas invadirão nossas vidas na fazenda, na família e na sociedade como um todo. Comenta-se que poderá haver um chip em cada planta de soja. Será mesmo? Penso que sim, pois ninguém fala mais sobre o chip no boi, que já é realidade atual.

Não podemos olhar para as perspectivas da pecuária na nova década sem, antes, lembrar das forças motrizes que moldarão tudo em nossa realidade. Precisamos ter uma ideia clara sobre para onde vai nosso setor para podermos trazer nossos filhos para dentro do melhor negócio que existe no Brasil. Há 45 anos, 45% dos brasileiros moravam no campo, e as famílias gastavam 45% da sua renda familiar com comida. Em 2015, a população rural encolheu para 15%, e o custo com alimentos baixou para 15%. Essa tendência continuará enquanto o Brasil assumir a liderança nas exportações de alimentos.

A demanda

A demanda por carne bovina está garantida! Porém o “Produto 2030” será bem diferente daquilo que temos oferecido ao consumidor ao longo das últimas décadas. A transparência total e instantânea de todos os acontecimentos faz com que problemas como “carne fraca”, “vaca louca” (falsa ou verdadeira), rotulação enganosa (caso da Irlanda), “produtos falsificados” (leite em diversos países) ou “ovos com salmonelas” (Holanda, 2018) se espalhem em poucos minutos ao redor do planeta. E, como sempre, é a notícia negativa que chama mais atenção.

Enquanto a demanda global por nossa carne continuar crescendo entre 2% e 3% ao ano, o foco deve se concentrar na qualidade e no preço.

Pois, para todos os bolsos, a carne bovina – um produto de luxo –, já é cara atualmente. E não aguenta maiores preços nas gôndolas dos supermercados. Ganhos dentro e fora da porteira, o chamado lucro sistêmico da cadeia produtiva, devem chamar a atenção do produtor. A empresa devidamente tecnificada está ciente de que, se seu boi atender à classificação das premiações dos frigoríficos, não terá problema em vender toda sua produção conforme programado. As montadoras de automóveis estão com inveja desse modelo de negócio no qual o resultado depende mais da gestão da empresa do que dos caprichos do mercado. Pois, no agro, vende-se o que se produz!

Oferta e concorrência

Estamos acostumados a falar “do pecuarista” ou “da carne”. Mas convivemos em um setor de extrema diversificação. O Brasil conta com 1,2 milhão de produtores de bovinos. A maioria criando e engordando sem um conceito claro de padronização. Certamente, existem em torno de mil líderes tecnológicos com perfil supersofisticado de operação. São aqueles que atingem patamares acima de [email protected] por hectare/ano. Outros 10 mil altamente tecnificados, em parte com sistemas Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), representam um rebanho expressivo com animais padronizados e precoces. É de lembrar que os três maiores frigoríficos, que abatem a metade da oferta nacional, compram de (apenas) 70 mil a 80 mil pecuaristas. Ou seja, devemos diferenciar quando falamos do pecuarista e da carne.

Em nossa reflexão, consideramos aqueles produtores que estão antenados com as informações sobre novas soluções para a produção bovina. Não devem representar mais do que 10% do total, ou seja, um pouco mais de 100 mil fazendas com gado de corte. Isso significa duas coisas. Os outros 90% criam e engordam no tradicional sistema extensivo com custos que nem contabilizam. Por consequência, eles vendem pelos preços definidos pelos frigoríficos. Sob esse aspecto, eles são concorrentes quantitativos que pressionam o nível do preço para os 10% de líderes qualitativos. Ou seja, os concorrentes do produtor eficiente não são a Argentina ou a Austrália, mas os próprios vizinhos que oferecem animais por preços muitas vezes abaixo do custo!

Com a crescente sofisticação das exigências dos consumidores, esse enorme contingente vai reduzir seu rebanho e passará a fazer parte do segmento dos, aproximadamente, 40% dos pecuaristas que deixarão a atividade na próxima década. Isso vai liberar área para aqueles 60% de produtores que continuarão na pecuária de corte. Porém esses não vão, necessariamente, precisar de mais pasto, pois construirão a chamada “pecuária vertical” (produzir mais em cima da mesma terra). No entanto, os extensivos degradam e, antes de desistirem da atividade, irão impactar de forma negativa a oferta de animais para o abate e, por consequência, o patamar geral do preço do boi. Enquanto não devemos nos preocupar muito com outros países concorrentes, convém observar com atenção as influências da ausência de sucessores, bem como do êxodo rural sobre a oferta bovina em geral.

E onde entram as recentes tendências de vegetarianismo e da carne artificial? Ambas representam opções sobre as quais o consumidor, “que é rei”, decide. E quem já provou o burger do Beyond Meat consegue entender por que empresários como Bill Gates e os donos de empresas como Google, Burger King e Marfrig investem montantes expressivos nesse mercado. O valor, na bolsa, somente da nova empresa Impossible Foods, ultrapassa US$ 2 bilhões! Porém o crescimento da população multiplicado pelo aumento da renda per capita, nomeadamente nos países em desenvolvimento, criará demanda suficiente para absorver todos esses alimentos, inclusive a carne do nosso boi. O novo conceito da carne que combina os elementos qualidade, sanidade, preço, sustentabilidade e embalagem adequada, juntamente com campanhas inteligentes de marketing, assegurará o já referido crescimento anual de 2% a 3% para a próxima década.

A tecnologia favorece a intensificação que resulta em mais carne em cima da mesma terra liberando área para agricultura e florestas plantadas. Mas outros artigos desta edição do Guia do Criador explicam, em detalhes, o que há de soluções técnicas mais avançadas na produção da pecuária 4.0. Por isso, vamos concentrar na mudança do foco da “produtividade” para a “rentabilidade” com visão para a “sustentabilidade”.

Da produção para a gestão

Estudos mostram que, no grupo das dez pecuárias mais rentáveis, figuram apenas seis fazendas do grupo das dez mais produtivas. Ou seja, excelência técnica nem sempre assegura a melhor performance do negócio. Com outras palavras, a paixão pela otimização dos processos precisa ser complementada e, às vezes, controlada pela visão mais racional do lucro. Afinal, toda atividade econômica precisa de lucro para oferecer sustento aos donos e um fluxo de caixa para o investimento na melhoria contínua de todo ambiente produtivo.

A evolução do trator ao longo das últimas décadas revela bem a mudança da agropecuária que migrou da força física para o agronegócio inteligente. Algumas das máquinas modernas não precisam mais de homens nem de mulheres, que também passaram a pilotar tratores com GPS e cabine climatizada. O equipamento autônomo faz o trabalho sozinho, de forma mais eficiente e com menor custo. A tradicional metáfora do “olho do dono que engorda o boi” é substituída pelo drone que permite que o filho do pecuarista gerencie os processos na fazenda a partir do seu escritório. Muitas vezes, a centenas de quilômetros de distância do rebanho. A comunicação é instantânea e com todos os colaboradores – seja individualmente, seja em rede, seja por voz ou por imagem do FaceTime, ou pelo WhatsApp.

O que significa esse salto revolucionário na realidade da produção bovina? Não são mais apenas as pessoas presentes na fazenda que estão envolvidas no planejamento e no manejo. A rede de consultores, sócios (proprietário, filhos e eventuais outros parceiros no futuro), fornecedores, bem como indústrias e varejo pós-porteira, estão constantemente interconectados para, juntamente, programar, otimizar e controlar todos os aspectos do processo produtivo na fazenda. Tudo na cadeia produtiva estará integrado para assegurar o chamado “lucro sistêmico”.

Essa complexidade crescente exige um foco estratégico nas pessoas que colaboram nos processos, que gerenciam os animais, que operam as máquinas e sincronizam investimentos, custos, fluxo de caixa e lucro. Com algum atraso, seguindo a trajetória da agricultura, a pecuária também se transformou em agronegócio. E o próximo passo, já realizado em 15 milhões de hectares, será a conquista dos efeitos físicos e financeiros benéficos da integração entre lavoura, pecuária e floresta. Naturalmente, esse sistema integrado que melhor aproveita os recursos naturais exige uma preparação adequada, tanto do dono como da organização da equipe que executará múltiplas funções ao longo dos anos com três ou quatro safras. Esse será o cenário da produção. E os empresários rurais que incorporarem esse novo modelo de negócio serão os vencedores da pecuária de precisão que será realidade em todas as regiões do País no final dessa próxima década.

Como avançar?

Falta uma reflexão final para completar a avaliação dos fatores relevantes para ajustar a atual situação às exigências e oportunidades do futuro. Trata-se da sucessão na empresa rural. Como a maior parte das fazendas passará da pessoa física para um dos diversos formatos jurídicos, o processo de “passar o bastão” será facilitado. Pois, em geral, será apenas um dos descendentes que possui vontade e vocação para continuar na atividade. Os outros filhos passam a ser sócios. Isso requer uma nova forma na tomada de decisões e na divisão dos resultados. Essa precisa ser planejada e ensaiada.

Porém, ainda não se chegou nessa situação. No momento, é mais importante estudar como um ou vários dos jovens podem ser atraídos para o negócio da família. O motivo é claro quando olhamos para a necessidade de, continuamente, incorporar novas tecnologias, sejam técnicas, gerenciais, financeiras ou comerciais. O atual proprietário, que ainda continuará coordenando a produção por bastante tempo, dificilmente terá tempo, energia e conhecimentos atualizados para se envolver na escolha e na operação dos múltiplos aplicativos necessários para uma gestão eficiente da fazenda 4.0.

Por outro lado, quanto mais tecnificado o negócio, maior a probabilidade de atrair o interesse dos filhos. O campo, hoje, está praticamente urbanizado, com acesso à internet e estradas melhores. Os serviços de ensino e saúde melhoraram o nível de vida nas cidades de porte médio, no interior, do que nos centros urbanos. Temos, assim, um panorama favorável para a chamada “cogestão”. Trata-se de uma nova forma de articulação entre as gerações e as equipes, cada vez mais capacitadas e envolvendo consultores, técnicos dos fornecedores e os responsáveis da indústria de transformação. Dificilmente, existirão condições melhores para empreender do que no setor da pecuária. Sendo assim, depende apenas da iniciativa da família do produtor para fazer parte do melhor negócio do Brasil e, por que não, do mundo!

*Francisco Vila é consultor internacional e colunista da Revista AG