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Caprinovicultura

Esforço pela eficiência produtiva

Aproveitamento do potencial existente para os diferentes derivados da criação de ovinos e caprinos depende, entre outros fatores, da qualificação dos produtores e da aproximação com o consumidor

Denise Saueressig [email protected]

Em um país tão grande e diverso como o Brasil, são inúmeras as potencialidades para os produtos derivados dos rebanhos de ovinos e caprinos. Ao mesmo tempo, os desafios também são significativos e envolvem as diferentes etapas da cadeia, desde o campo até a mesa do consumidor.

tura e Ovinocultura Brasileiras discutiu as tendências para as duas atividades nos próximos dez anos. Embora os resultados ainda estejam em fase de análise, o pesquisador Olivardo Facó, da Embrapa Caprinos e Ovinos, projeta alguns cenários prováveis. Um deles indica a maior organização dos produtores em associações ou cooperativas e uma melhor interação entre estes e a indústria. Da mesma forma, essa atuação em conjunto deverá viabilizar a assistência técnica de qualidade a um número maior de produtores. Também haverá uma maior profissionalização no processamento dos produtos de modo a atender à exigência dos consumidores por porções menores e com maior facilidade de manipulação e preparo das refeições.

Hoje, a demanda pela carne ovina é acentuada e crescente, destaca o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Gressler. Os altos preços pagos aos criadores ajudam a ilustrar esse aquecimento. No Rio Grande do Sul, o valor médio do quilo vivo do cordeiro era de R$ 7,30 em novembro, segundo a Emater/RS. Já em São Paulo, a mesma unidade valia R$ 9,05, de acordo com o Cepea (Esalq/USP).

O presidente da Arco atesta que a procura é forte em todo o País e traduz a importância do trabalho que deve ser realizado pelo aumento do rebanho. “Nossa qualidade genética nos favorece, mas precisamos mudar de atitude e pensar na melhoria dos índices nas propriedades, como taxas Aproveitamento do potencial existente para os diferentes derivados da criação de ovinos e caprinos depende, entre outros fatores, da qualificação dos produtores e da aproximação com o consumidor Denise Saueressig [email protected] de desmama e de natalidade, pensando na eficiência produtiva”, destaca.

Conhecimento para o campo

A qualificação dos criatórios passa pela capacitação dos produtores. Por isso, em 2020, a Arco vai dar início a um projeto atrelado ao Fundo de Desenvolvimento da Ovinocultura (Fundovinos), mantido pela Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, para promover ações que levem conhecimento e treinamento a criadores gaúchos. A ideia é estabelecer parcerias com instituições como a Emater e o Programa Juntos para Competir, liderado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/ RS). “Precisamos somar esforços para levarmos as melhores informações ao campo. A iniciativa terá início no Rio Grande do Sul, mas existe a intenção de promover esse modelo em outros estados também”, afirma Gressler.

Na opinião do dirigente, é preciso destacar as potencialidades e os desafios que existem não apenas na carne, mas também nos mercados da lã e do leite. No Rio Grande do Sul, a produção da lã acompanhou a queda observada no rebanho gaúcho nos últimos anos. Segundo dados do IBGE e do Governo do Estado, a produção, de 10,9 milhões de quilos em 2014, passou a 8,8 milhões de quilos em 2017. Desse total, 67% foi exportado. “Precisamos valorizar a qualidade dos nossos fios, que são obtidos de animais de raças especializadas, assim como fomentar nossa indústria e nosso mercado interno”, avalia.

O leite de ovelha é considerado um mercado promissor pelo presidente da Arco. A oferta ainda é restrita, mas as linhas de produtos disponíveis, como queijos e iogurtes, são de alto valor agregado. “Nesse caso, precisamos trabalhar por mecanismos que facilitem a formação de rebanhos especializados, que, por enquanto, são poucos no Brasil”, conclui.

Proximidade com o mercado

Para que os cortes ovinos apareçam mais frequentemente na mesa do brasileiro, é preciso trabalhar contra a informalidade nos abates, alertam os especialistas da Embrapa Caprinos e Ovinos. “Outro desafio é a competição com a carne oriunda do Uruguai, principalmente. Existe uma facilidade de importação da carne do Uruguai, e veja como é um dilema: é uma carne que não tem a mesma qualidade que a produzida no Brasil, nem tem o mesmo sabor. A carne uruguaia que vem para o Brasil não é a melhor carne que aquele país produz, a melhor eles vendem para outros países, até porque o principal propósito de se produzir ovinos no Uruguai não é a carne, é a lã. Mas ela compete aqui no País e chega com um preço mais barato, dificultando que os nossos produtores coloquem seus produtos a um preço mais justo”, constata o pesquisador Espedito Cezário Martins.

Para o analista Alexandre Monteiro, uma medida importante para o desenvolvimento da cadeia é o fortalecimento de polos de produção próximo aos mercados consumidores. “Já temos polos tradicionais, como a (cooperativa) Castrolanda, no Paraná, e podemos fortalecer outros, em estados como Bahia, Ceará, Piauí. A organização não se resume aos aspectos dentro da porteira, mas há também desafios pós-porteira relacionados à escala, qualidade. Há muito consumo de carne de cordeiro em dias festivos, mas um desafio é o de conseguir que famílias possam comprar e consumir esta carne pelo menos um dia por semana”, complementa.

Possibilidades além do consumo regional

No Brasil, o maior potencial de consumo da carne caprina é o mercado regional do Nordeste e das comunidades nordestinas nas outras regiões. Em um cenário futuro, no entanto, o produto pode alcançar um número maior de consumidores em grandes centros. “Para que isso aconteça, é preciso que se estabeleça uma estratégia de marketing que mostre o diferencial da carne caprina como um produto saudável e uma das carnes mais magras, com menos gordura que a de frango”, sugere Martins.

Também existe espaço para a “gourmetização” dos subprodutos, acrescenta Monteiro. Para ele, a organização não é um desafio apenas da cadeia, mas também do Estado, que precisa trabalhar para modernizar a legislação e se adequar às realidades locais. “Hoje, a legislação se baseia no modelo da bovinocultura, o que não é viável, até pelo tamanho do rebanho da bovinocultura, que chega a ser 10, 15 vezes maior que o caprino em algumas regiões. Há outros desafios, como marketing, escala de produção, organização, cooperativismo, mas, se não houver adequação da legislação, continuaremos a ter problemas como o abate clandestino”, considera.

O mercado do leite caprino é mais delicado, por ser um produto de alta perecibilidade e por ainda existir preconceito por parte dos consumidores, enumera o pesquisador Klinger Magalhães. “O que vem despontando, em um mercado gourmet, é a inclusão dos derivados lácteos, principal mente dos queijos, que estão se tornando produtos com alto valor agregado, o que vejo como um grande potencial. Um desafio é que, mesmo em regiões consideradas polos de produção, como a Paraíba, ainda há uma dependência muito grande dos programas de compras governamentais. Isso faz o produtor ficar refém da quantidade de leite adquirida pelos governos, gerando uma reclamação contínua dos produtores por padrões de cotas e de preços”, expõe.

Os programas governamentais foram uma boa válvula de escape para a produção de leite nos últimos anos, mas é preciso criar estratégias para criar hábitos de consumo em públicos como as crianças, completa Monteiro. “E aí os derivados podem agradar o paladar infantil. Um doce de leite de cabra pode ser mais saudável em relação a outros doces com mais gordura ou mais produtos químicos, como os doces industrializados. O iogurte de leite de cabra pode ter menor nível calórico. E temos os queijos finos, para um paladar mais adulto, que podem ser combinados a vinhos ou outras bebidas apropriadas”, diz.

Crescimento no Nordeste

Os dados do Censo Agropecuário de 2017 do IBGE revelam que o rebanho de caprinos chegou a 8,25 milhões de cabeças no Brasil, um crescimento de 16% em comparação com o censo anterior, de 2006. Já o número de ovinos apresentou retração de 2,8%, ficando em 13,7 milhões de animais. A Região Nordeste foi a única em que o número dos plantéis registrou aumento entre 2006 e 2017. São 7,6 milhões de caprinos e 9 milhões de ovinos.

Fator importante para essa expansão é a grande capacidade de adaptação dos animais à região, conclui o analista Zenildo Holanda. “A seca dos últimos anos também dificulta a viabilização de atividades como bovinocultura, agricultura, e aí os caprinos e ovinos, extremamente adaptados, entram no páreo”, aponta. O Nordeste ultrapassou o efetivo da Região Sul ainda na década de 1990, informa o pesquisador Klinger Magalhães. “Mas, para entender a retração, devemos observar também os dados de ocupação das áreas. A variação da área de estabelecimentos rurais no Brasil foi 5,3% positiva de um censo para outro. Só que, nas lavouras, houve aumento de 14,1%, enquanto a variação na pecuária foi só de 0,9%. Esse aumento de área, então, foi puxado pela agricultura, que trouxe mais alternativas às demais regiões”, justifica