Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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A hora e a vez dos embriões

Aumento na demanda deve democratizar genética preparada de alta performance em 2020

Já se foram os tempos em que a Fertilização In Vitro (FIV) era reservada apenas para a pecuária de elite. Com o avanço da tecnologia, veio também maior acessibilidade da técnica, viabilizando a FIV para rebanhos comerciais, tanto de corte quanto de leite. Além disso, o mercado mostra-se Aumento na demanda deve democratizar genética preparada de alta performance em 2020 promissor para quem investe na ferramenta, com boas perspectivas para o preço da arroba do boi e o início da estação de monta com bons resultados, por exemplo, assegurando um custo-benefício atraente para o produtor.

A sensação dominante em relação à FIV é que a técnica será cada vez mais usada. Mas ainda existe muito espaço para o seu crescimento. Sua crescente eficiência é um dos grandes atrativos para o pecuarista. Temos casos de rebanhos de corte que chegam a 80% de concepção – um resultado extraordinário e que depende, claro, de um manejo planejado e eficiente. É comum encontrar clientes com a taxa de concepção estável em 50% a 60%, com o uso da FIV.

Algumas fazendas encontram maneiras inovadoras de aproveitar o melhor da genética por meio da técnica. É o que acontece na Agronova Nelore (MT), onde nossa equipe aspira um grupo de 14 doadoras no decorrer do ano inteiro, consolidando um banco de embriões congelados. Durante a estação de monta, esses embriões são transferidos de modo a aumentar a pressão de seleção do rebanho, favorecendo ainda mais o uso da fertilização in vitro.

Outro exemplo é a Fazenda Santa Luzia (MG), que sempre deve ser citada quando o assunto é o uso da FIV na pecuária de leite. É um rebanho notável pelo fato de ter 100% da reprodução feita por meio de embriões. A fazenda faz uso extensivo do sêmen sexado, o que lhe permite obter a produção de 85% a 90% de fêmeas. É evidente que, para um produtor de leite, uma maior distribuição de fêmeas é um benefício muito impactante.

Com a FIV, a equipe da Santa Luzia trabalha com a possibilidade de aspirar apenas as fêmeas que se enquadram na elite do rebanho, aproveitando a Fertilização In Vitro para promover a multiplicação dessas vacas de alto valor genético e produtivo. Assim, o restante das vacas pode ser utilizado como receptoras para embriões. É uma estratégia de resultados altamente eficientes e proveitosos para o sistema de produção.

A Agronova Nelore e a Santa Luzia não são os únicos exemplos. Outros grandes players do mercado seguem apostando na técnica da FIV com resultados cada vez mais impressionantes. Sino Agropecuária (MG), Nelore RG (GO), Rancho da Matinha (MG) e Nelore Grendene (MT) estão entre os destaques – incidentemente, o aumento da utilização dessas tecnologias está ligado à tendência recente do mercado de valorizar o Nelore focado em produção e avaliação genética.

Mais recentemente, uma nova solução de sêmen sexado para obtenção de matrizes da raça Nelore de alta performance chegou ao mercado. O intuito é oferecer o benefício da tecnologia para produtores interessados em multiplicar a quantidade de matrizes superiores no plantel, diversificando o leque de opções relacionadas à genética sexada e oferecendo a segurança e a confiabilidade que essa tecnologia disponibiliza.

a tecnologia disponibiliza. De forma geral, os clientes estão procurando aumentar o volume produtivo, tanto de machos quanto de fêmeas, e a FIV é uma ferramenta que permite chegar a essa meta. Trata-se de uma tecnologia que se paga e traz lucro para a fazenda. Em propriedades de alto valor genético, a multiplicação acelerada do rebanho é precisamente o que torna a técnica ainda mais viável.

Um 2020 promissor

Os embriões também estão em alta. É impactante o crescimento da demanda do mercado. E nós – indústria de produção – temos que estar preparados para atendê-la. O laboratório da ABS em Uberaba (MG), que é o maior da América Latina, vem alcançando níveis sem precedentes de produção, chamando a atenção do produtor para as vantagens da Transferência de Embriões (TE). Só em outubro deste ano, conseguimos estabelecer um recorde de 13.886 embriões produzidos – isso apenas na sede de Uberaba. Em todo o Brasil, é, de longe, o melhor mês que tivemos, e nenhum outro laboratório chegou perto dessa produção. Somando o volume produzido em todos os nossos laboratórios – temos outros dois no Brasil, o total fica em praticamente 20 mil embriões. Em apenas um mês. É incrível. E é incrível também pensar o impacto que esses números trazem em termos de melhoramento para a pecuária nacional.

E ainda estamos apenas no início. Para 2020, a expectativa é de ainda mais crescimento. Não só para FIV, como também para a IATF. Segundo o último relatório da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), 2019 já soma um crescimento de mais de 18% nas vendas de sêmen. E o caminho é promissor. É importante levar em consideração que somente 15% do rebanho nacional é inseminado – uma fatia muito pequena, com muito potencial para crescer. No que diz respeito ao uso de embriões, o percentual que se faz valer da FIV é menos da metade. Mesmo assim, o aumento expressivo da produção nas centrais permite vislumbrar um futuro no qual essas tecnologias serão usadas por muitos outros produtores.

Um forte sinal disso é a possibilidade, já real, de se adquirir, por preço comercial, o embrião com a genética já preparada, sem a necessidade de se ter uma doadora. É mais uma facilidade do mercado que tem impulsionado a FIV. É tão simples como olhar um catálogo de qualquer outro produto e escolher uma evolução já pronta. Em um único embrião, a possibilidade de avançar 10, 20, 30... 40 anos de seleção. A tecnologia está democratizando a genética e inserindo, ao mesmo tempo, um produto de alta qualidade genética no mercado – esses são os grandes objetivos.

Essa maior velocidade de ganho genético está deixando até grandes empresas impressionadas e interessadas em investir nessa tecnologia. A ABS já desenvolve projetos de grande porte com a Nestlé, e, no Nordeste, em parceria com o Sebrae. No caso da Nestlé, nos juntamos à sede da empresa em Ituiutaba, onde funciona a maior planta de produção de leite em pó de toda a América Latina.

A Nestlé viu nos embriões uma oportunidade de desenvolvimento e aprimoramento da sua cadeia de fornecedores, e buscou, na parceria tecnológica, uma forma para viabilizar esse crescimento. Eles subsidiam o trabalho relacionado à transferência de embriões para rebanhos de pequenos, médios e grandes produtores de leite, que fornecem, então, o produto final para o laticínio. Além de desmistificar a tecnologia de embriões para produtores que ainda não conheciam as vantagens e a viabilidade de instalar essa técnica na fazenda, é uma forma de democratizar o acesso à tecnologia de ponta do mercado, potencializando sistemas de produção independentemente da escala dos rebanhos.

Da mesma forma, o Sebrae desenvolve um projeto semelhante no Nordeste, voltado exatamente para o aumento da produção dos pecuaristas participantes. Com o uso de embriões, o produtor consegue, no espaço de apenas uma geração, alcançar o melhoramento genético que demandaria até sete gerações para se conseguir com técnicas mais convencionais. Isso é progresso.

A FIV também apresenta uma trajetória ascendente. No início, era perceptível uma resistência do produtor à técnica, devido à alta burocratização dos processos. Com a tecnologia Direct Transfer (DT), o descongelamento dos embriões ficou muito mais fácil. Hoje, o produtor não precisa investir pesado na criação de toda uma infraestrutura na sua fazenda para viabilizar o uso de tecnologias de reprodução.

Além disso, é claro, também tivemos uma profissionalização das equipes que atuam com a FIV e transferência de embriões. Acompanhando a evolução das tecnologias, houve uma melhoria do trabalho técnico, tanto nos laboratórios quanto no campo. Isso também tem o efeito de motivar o produtor a utilizar cada vez mais as ferramentas. Bem-vindo, 2020! Mais um ano em que o investimento em genética deve pulsar mais forte no rebanho brasileiro.

*Médico-veterinário, integrante da equipe técnica de embriões da ABS