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Como se encaixam os sistemas integrados de produção em um mundo globalizado?

Roberto Giolo de Almeida*

No atual cenário mundial, com a crescente demanda por produtos provenientes da agricultura e as limitações para uso da terra em áreas com vegetação nativa, novas tecnologias são desenvolvidas para atender a essas necessidades. Nesse contexto, os sistemas integrados de produção, em especial o lavoura-pecuária-floresta (ILPF), surgem como estratégia para diversificação de empreendimentos agropecuários por permitir maior eficiência no uso dos recursos disponíveis e flexibilidade frente a riscos mercadológicos e bioclimáticos. Além disso, contribuem na redução da degradação dos solos agricultáveis e do desmatamento.

Entretanto, a maior complexidade inerente à ILPF deve ser compreendida no momento da tomada de decisão para sua adoção. Por envolver três componentes (agrícola, pecuário e florestal), seja em consórcio, sucessão ou rotação, o planejamento e a gestão do sistema devem ser realizados de maneira mais criteriosa do que em sistemas tradicionais, exigindo um conjunto de informações técnicas e mercadológicas das cadeias produtivas envolvidas.

A ILPF contribui para ampliar as entradas de recursos financeiros a partir de produtos agrícolas e pecuários, mantendo um fluxo de caixa mais constante durante os diferentes ciclos produtivos. A introdução da lavoura, geralmente, ocorre em fases iniciais do sistema, enquanto o componente arbóreo não prejudica a produtividade das culturas com o sombreamento. A lavoura contribui para o adequado condicionamento do solo e, com a venda dos produtos agrícolas, permite amortização parcial ou total dos gastos com a implantação do sistema. Após a fase agrícola, e quando as árvores atingem porte capaz de suportar animais em pastejo, a fase pecuária é introduzida.

Já para a escolha do componente florestal, entretanto, deve-se dar preferência a espécies de rápido crescimento, com fuste retilíneo e estrutura de copa não muito densa e que produzam madeira para usos múltiplos. Esse componente é uma estratégia para aumento da renda, decorrente da venda dos produtos florestais. Além disso, possibilita vários benefícios ambientais, entre os quais, o sequestro de carbono, que permite a mitigação da emissão de metano pelo gado e, indiretamente, torna o produto de origem animal – no caso, a carne (carne carbono neutro) – mais atrativo para exportação.

A produção animal pode ser mantida satisfatoriamente em sistemas de ILPF desde que conte com uso de forrageiras tolerantes ao sombreamento, com o manejo adequado do pasto e com o planejamento de desramas e de desbastes das ávores para reduzir o sombreamento. Em locais com restrições para o cultivo de lavouras, entretanto, o sistema silvipastoril, que é uma modalidade de ILPF, pode ser uma opção viável e, nesse caso, com a utilização de espécies arbóreas adaptadas a solos de menor fertilidade, como os eucaliptos.

A produção por animal tende a ser maior em sistemas de ILPF pelo melhor valor nutritivo da forrageira e pelo maior conforto térmico proporcionado pelo sombreamento aos animais em pastejo. Com isso, espera-se melhor desempenho relativo com animais de maior exigência e produtividade, desde que atendidas às demandas por água e minerais, com adequado manejo sanitário e do pasto. Sendo assim, o produtor pode contar com animais terminados em menor tempo e com melhor qualidade de carne. Entretanto, a produção por área pode ser diminuída em sistemas com maiores densidades de árvores, nos quais o sombreamento excessivo prejudica a produção do pasto e, consequentemente, a produção de carne.

Os sistemas de integração apresentam nível de intensificação intermediário para produção de carne quando comparados a sistemas pecuários intensivos (sem árvores), com uso de irrigação e/ou submetidos a elevadas taxas de adubação anual. Isso é decorrente da influência do componente florestal sobre o desenvolvimento da forrageira no sub-bosque. Assim, o manejo das forrageiras deve ser mais criterioso. Isso porque elas se encontram em grau de competição (com as árvores) mais elevado do que em monocultivo e em pleno sol, sendo que priorizam o crescimento da parte aérea em detrimento do sistema radicular e apresentam menor capacidade de rebrotação e resposta à adubação.

A ILPF, assim como todo sistema de consórcio que se baseia na sinergia entre seus componentes, deve ser entendida como uma estratégia para produção agropecuária com otimização de uso dos recursos, e não para maximizar a produção individual dos componentes envolvidos. Ela pode ser utilizada em diferentes escalas no meio rural.

A crescente demanda por produtos agropecuários aliada ao aumento da conscientização ambiental, em escala mundial, tende a projetar a ILPF a posições mais competitivas para o mercado global futuro, com reflexos positivos para a conservação ambiental e o desenvolvimento regional. E você, produtor, já pensou nessa possibilidade?

*Engenheiro-agrônomo e pesquisador em Sistemas de Produção