Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Na Varanda

Como construir a Gestão 5.0 para vencer na Agropecuária 4.0?

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

Num recente megaevento com o nome sugestivo “Bem-vindo Amanhã”, cerca de 250 palestrantes debateram, durante cinco dias, os múltiplos aspectos das mudanças em curso. Nada ficará mais como antes! E, nesta época de final do ano, com um ritmo mais lento – acompanhado por encontros com familiares e amigos –, temos uma boa oportunidade para avaliar quais dessas inovações tecnológicas e com quais efeitos no comportamento humano são relevantes para a construção do nosso futuro. Resumindo os ensinamentos de mais de 100 horas de apresentações e debates, podemos constatar que tudo será mais amplo, mais profundo e muito mais rápido. O que mais impressiona e, de certa forma, assusta é o aumento infernal da velocidade em todos os domínios. A chegada, em breve, da tecnologia 5G só vai potencializar essa tendência. O que está acontecendo então? E o que tudo isso tem a ver com a nossa agropecuária?

o, nem perante o olho onipresente das autoridades ou dos vizinhos. Tudo que fazemos está sendo observado sem percebermos. Já existem lojas com sistemas de reconhecimento facial que, ao você entrar no estabelecimento, sabem o que você comprou no passado, o que costuma adquirir na internet e quanto você pagou com seu cartão de crédito. Já que a maioria está plugada em WhatsApps, Googles, Facebooks e Instagrams, somos nós mesmos que fornecemos esses dados, geralmente sem saber e sem querer. Mas pouco adianta lamentar! Vamos avaliar como podemos aproveitar este novo mundo hipertransparente. E vamos por etapas.

Ao longo dos últimos anos, a grande maioria dos artigos da Revista AG reforçaram a necessidade de transitar da pecuária tradicional para o conceito da Agropecuária 4.0. Em paralelo, a visão do dono evoluiu do perfil de “pecuarista” para o modelo mais complexo de “empresário rural”. O leitor sentiu que essa mudança não é opcional. Ela passou a ser obrigatória para assegurar o lucro num ambiente de mercado cada vez mais sofisticado.

Numa empresa – diferentemente da prática corrente de uma fazenda de gado, onde o foco está nos aspectos mais físicos da produção –, as questões de racionalização de processos e o foco nos números são tão importantes quanto o manejo cuidadoso dos animais é no campo. Comprar e vender no momento certo, apoiado por aplicativos, ou blindar os riscos da compra de insumos e da venda do gado com antecedência tornou-se prática nas fazendas de referência. Além disso, a transição do tradicional “leilão” dos animais entre vários frigoríficos na hora da venda para programas de fidelidade – com vantagens e obrigações de ambas as partes – faz parte do novo modelo de negócio da pecuária de precisão.

Segundo, se a adesão à Agropecuária 4.0 é necessidade inquestionável, convém avaliar como chegar lá. O caminho mais seguro é evoluir do modelo hierárquico do patriarca para um sistema mais aberto e inclusivo de cogestão. O conceito da Gestão 5.0 ainda não ocupou as manchetes das revistas do agro. Isso é bom, pois oferece a vantagem de o leitor fazer parte da “cabeceira” do grande rebanho dos 1,2 milhão de pecuaristas que produzem carne de boi. E por que não Gestão 4.0? Porque essa definição se refere à tecnificação da produção bovina que se faz através da incorporação crescente de tecnologias. Aplicativos para controlar o peso à distância, formas mais ágeis nos procedimentos do ultrassom, bem como o uso de drones para uma variedade de funções na fazenda, tudo isso constitui o ambiente focado na divulgação de soluções técnicas com equipamentos e programas de TI de ponta. Mas isso tudo já existe. Só falta aplicar em um número maior de fazendas.

O próximo passo é a otimização dos recursos através de um modelo de sincronização de todos os fatores físicos, tecnológicos e humanos. O foco deve estar naquilo que surge com cada vez maior evidência: a “humanização” do sistema de produção. Terra e animais já temos, e tecnologia estamos aplicando com cada vez maior intensidade. Falta o quê? Falta preparar as pessoas que fazem tudo isso acontecer, pois são as pessoas que fazem a diferença, enquanto todo o resto a gente pode comprar, arrendar ou terceirizar.

A Gestão 5.0 coloca as habilidades humanas no centro da organização dos processos na fazenda. E quem são essas pessoas? Normalmente, enxergamos apenas duas categorias. O dono e os peões. Mas a realidade é muito mais complexa. O dono tem filhos que podem ou não, agora ou no futuro, fazer parte do sistema de gestão da atividade. A equipe, que era relativamente homogênea, hoje, é diversificada. Uns possuem maior habilidade na lida com os animais, outros preferem operar equipamentos com aplicativos cada vez mais sofisticados. Ainda há os que possuem vocação especial para entender a natureza das plantas e os segredos da composição de dietas. Não vale mais o conceito de que um peão serve para tudo. No tempo do saudável Fusca, éramos nós que consertávamos os problemas do motor. Hoje, ao abrir a capota do nosso carro, nem sabemos onde estão as válvulas ou os cilindros. Temos que chamar um mecânico. Algo semelhante ocorre na fazenda.

Nós e um dos sucessores definimos o mapa, a rota e a velocidade da condução do negócio. A seguir, a equipe é treinada em diversas competências técnicas e de organização de processos para, em seu conjunto, conduzir a produção dentro desse plano estratégico. Ao mesmo tempo, o envolvimento de consultores, bem como de assessores técnicos das empresas de insumos e de máquinas, assegura a atualização de todos os envolvidos no negócio. Isso vale do dono ao tratador, passando pelo contador e a filha, que se encarrega da contabilidade e dos recursos humanos.

Mas recursos humanos não seriam competência do dono? Continuam a ser, mas o pecuarista de 50 ou 60 anos precisa de capacitação para mudar sua rotina tradicional de comando de cima para baixo para a gestão compartilhada, que envolve todos. Pois cada um é especialista em sua área de responsabilidade. Só se cada pessoa for capacitada e efetivamente responsabilizada pela sua área aparecerão os resultados da Agropecuária 4.0. Que tal dedicar um almoço da época de Natal para a conversa sobre como aplicar práticas da Gestão 5.0 em sua propriedade? A atual bolha do preço da arroba oferece um clima positivo para essa reflexão estratégica.