Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuária de Leite

2018 registra instabilidade, e espera-se 2019 com início promissor

Pecuária

Para o primeiro semestre do próximo ano, o quadro mais ajustado entre a oferta e a demanda será um fator positivo para as valorizações no mercado brasileiro

Rafael Ribeiro* e Juliana Pila**

A retomada da produção de leite no País desde 2017 e a demanda interna patinando, devido à crise econômica, foram fatores de dificuldade para a evolução dos preços (matéria-prima) e derivados neste ano, mesmo durante o período de entressafra.

A intensidade da alta no preço pago ao produtor até maio ficou aquém do previsto em função do consumo ruim. Segundo levantamento da Scot Consultoria, considerando a média nacional, houve alta de 8,6% no preço do leite pago ao produtor nos primeiros cinco meses de 2018 (de janeiro a maio).

Com a greve dos caminhoneiros no final de maio e começo de junho, a captação de leite foi prejudicada. Esta menor disponibilidade de matéria-prima e a maior concorrência entre os laticínios fizeram o preço subir 11,7% no acumulado dos três pagamentos seguintes (Figura 1).

Figura 1 - Preço do leite pago ao produtor (média nacional ponderada de 18 estados pesquisados), em R$ por litro, sem o frete

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Para o produtor, apesar da valorização média em 21,3% de janeiro a agosto, pico de preços (em algumas regiões, a alta superou os 40% neste período), as margens da atividade ficaram pressionadas, principalmente para quem não planejou as compras dos insumos.

Segundo o Índice Scot Consultoria de Custos de Produção, os gastos da atividade subiram, em média, 4% em 2018, puxados pela alta do milho (+60,5%, outubro/18 versus outubro/17) e do farelo de soja (+32,4%, outubro/18 versus outubro/17).

Peso da safra

O mercado virou em setembro. Depois de sete meses em alta, os preços do leite ao produtor caíram no pagamento de setembro e outubro, referente à produção entregue no mês anterior. O aumento da captação (safra) e a demanda patinando na ponta final da cadeia pressionaram os preços em todos os elos da cadeia ao longo de setembro.

Segundo o Índice Scot Consultoria de Captação de Leite, em agosto, o volume captado (média nacional) aumentou 3,7%, em relação a julho. Em setembro, o aumento foi de 2,5%, e, em outubro, o volume cresceu 2,2%.

As chuvas dentro da normalidade neste ano (sem atrasos, com bons volumes, regulares e bem distribuídas) colaboraram com esse quadro de aumento da produção, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do País.

A expectativa é de que em estados como Minas Gerais, São Paulo e Goiás, por exemplo, os volumes captados continuem crescentes até janeiro de 2019.

Dessa forma, a maior oferta de matéria- prima (leite cru) prevista para os próximos meses tende a pressionar as cotações em todos os elos da cadeia do leite no curto e médio prazos.

Figura 2 - Índice Scot Consultoria de Captação de leite, média nacional. Base 100 = março de 2011

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Do lado da demanda, com as festas de final de ano, espera-se uma maior movimentação nos mercados de creme de leite, manteiga, queijos e leite condensado; no entanto, a demanda por leite fluído sazonalmente é menor neste período.

Balança comercial de lácteos

A balança comercial de lácteos, até outubro, ficou com déficit de US$ 340,51 milhões (MDIC). Já são dez anos com a balança deficitária.

Em 2018, porém, a balança apresentou uma redução de 16,1% frente ao ano anterior. Até outubro, a importação de lácteos totalizou 121,6 mil toneladas. Na comparação com igual período do ano passado, caiu 17,9% em volume.

O principal produto importado foi o leite em pó. O Brasil adquiriu, nesse período, 77,3 mil toneladas por US$ 219,84 milhões.

Os maiores fornecedores em valor foram a Argentina e o Uruguai, com 53,2% e 38,0%, respectivamente.

Assim como para os lácteos, na comparação ano a ano, o volume de leite importado em pó caiu 15,5%, e os gastos foram 26% menores.

Apesar da redução nas compras no acumulado dos dez primeiros meses, em relação a 2017, o volume importado aumentou no segundo semestre. Entre julho e outubro, o País comprou um volume 46,4% maior que em igual período de 2017. No entanto, o valor pago pelo quilo do produto importado foi 11,3% menor.

A queda no preço aconteceu devido à desvalorização cambial dos nossos principais fornecedores – Argentina e Uruguai –, que deixou o produto mais competitivo no Brasil.

Figura 3 - Balança comercial brasileira de lácteos nos últimos dez anos, até outubro, em milhões de US$

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Do lado argentino, ainda cabe o destaque de que as cotas para exportação de leite em pó ao Brasil já não existem, e o consumo interno no país vizinho tende a diminuir em função da elevada inflação que corrói o poder aquisitivo da população. Este fato pode deixar um excedente importante no país, e o Brasil deve ser uma alternativa de escoamento.

Com relação às exportações, até outubro, o embarque de produtos lácteos somou 17,4 mil toneladas. Na comparação com igual período de 2017, uma queda de 41,2%. O faturamento caiu 46,9%, totalizando US$ 44,27 milhões.

O principal produto exportado foi o leite em pó, perfazendo 7,8 mil toneladas e faturando US$ 15,72 milhões.

A Venezuela, que foi a principal cliente do produto brasileiro em 2017, não ocupa mais as primeiras colocações, que foram tomadas por países africanos.

Destaque também para a abertura de novos mercados. Em 2017, o Brasil exportou leite em pó para 34 países, e, em 2018, foram 50.

Cabe a ressalva que, apesar de crescente, a produção brasileira de leite (matéria-prima) deverá fechar 2018 próxima à registrada no ano anterior, sem excedentes.

O câmbio, grande influenciador na balança comercial de lácteos, teve grande volatilidade neste ano em virtude das incertezas político-econômicas.

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Consumo de leite deverá retornar aos patamares antes da crise

Mercado internacional

Até novembro, os preços dos produtos lácteos na plataforma Global Dairy Trade (GDT), referência no mercado internacional, ficaram, em média, em US$ 3.293,00 por tonelada.

Na comparação com igual período do ano passado, as cotações ficaram 0,7% menores. O leite em pó integral, na parcial até novembro, ficou 2% menor que em igual período do ano anterior.

O volume de vendas de produtos lácteos, até o início de novembro, foi de 568.848 toneladas, 1,5% mais que o volume comercializado em igual período do ano passado. O incremento na oferta de matéria-prima foi um dos motivos dessa desvalorização.

Em 2017, a produção mundial de leite aumentou 1,9% em relação a 2016. Para 2018, o ritmo de crescimento deverá ser maior. A expectativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) é de que a produção mundial de leite fluído atinja 614,88 bilhões de litros neste ano, quantidade 2,4% superior à produção registrada em 2017.

Para os próximos leilões, os contratos apontam para os preços futuros do leite em pó andando de lado (com ligeiro viés e baixa).

As projeções de preços para os próximos seis meses apontam valores entre US$ 2.601,00 e US$ 2.758,00 por tonelada (Tabela 1).

Tabela 1 - Preços futuros* do leite em pó integral nos leilões da Global Dairy Trade

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Expectativa para 2019

Para o primeiro semestre do próximo ano, o quadro mais ajustado entre a oferta e a demanda será um fator positivo para as valorizações no mercado brasileiro. Além disso, a expectativa é de continuidade do crescimento da demanda interna, porém o consumo ainda deverá ficar em níveis de antes da crise.

Outro ponto positivo para as margens da atividade é com relação aos custos com alimentação concentrada no ano que vem. A maior oferta no Brasil e principais produtores deverá pressionar para baixo, por exemplo, os preços da soja e do farelo de soja no mercado internacional (e já vem pressionando). No Brasil, as cotações em reais dependerão do câmbio, que, por sua vez, já sinalizou um patamar mais baixo e menores oscilações em 2019, após o resultado das eleições para presidente no País.

Figura 4 - Preços médios, em US$ por tonelada, e variação no índice de preços em relação ao leilão anterior

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No caso do milho, espera-se se um cenário mais calmo de preços, diferentemente de 2018. A pressão de baixa deverá ser maior no final do segundo trimestre de 2019, quando a colheita da segunda safra (2018/2019) ganha força.

Para o produtor de leite, a sugestão é planejamento, principalmente com relação à compra dos itens que compõem os custos de produção da atividade, para fugir dos riscos.

*Rafael é zootecnista, msc. e consultor de mercado da Scot Consultoria **Juliana é zootecnista e analista de mercado da Scot Consultoria