Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado de Touros

60 MIL TOUROS

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Esse foi o número de reprodutores comercializados pelas principais leiloeiras do Brasil. A liquidez foi acima de 95%

Ivaris Júnior

As cortinas de 2018 vão se fechando para o espetáculo das batidas de martelo, por todo o País. O sentimento é de missão cumprida, mesmo diante de tantas atipicidades e do sempre surpreendente vigor da bovinocultura de corte nacional. Os protagonistas preparam o merecido descanso, mas sem esconder a quase empolgação pela reviravolta no poder.

A expectativa, para 2019, é a de valorização do poder produtivo do campo, liberalismo econômico e maior segurança jurídica no uso da terra. Então, no fundo, comemora-se a passagem da pecuária por uma das mais duras recessões já enfrentadas, sem grandes feridas, principalmente sob o ponto de vista da evolução técnica.

Em 2018, até aqui, as principais empresas leiloeiras do País comercializaram por volta de 60 mil reprodutores avaliados por vários programas de melhoramento genético, com liquidez superior a 95%, segundo seus diretores. Marcadamente, foi um ano de investimentos cautelosos, mas com reconhecimento aos touros, efetivamente, diferenciados em suas qualidades zootécnicas.

“Os compradores se mostraram ainda mais exigentes, procurando animais mais jovens e com pacotes genéticos inquestionáveis”, reforça Flávio Santos, diretor comercial da Programa Leilões, responsável por oferecer quase metade dessa oferta, cerca de 27 mil cabeças.

Mas, para entender os preços praticados nesses reprodutores, é preciso desenhar todo um cenário.

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Os compradores se mostraram ainda mais exigentes, procurando animais mais jovens e com pacotes genéticos inquestionáveis, reforça Flávio Santos

Se não bastasse a forte recessão econômica provocada por governos deficitários, a pecuária de corte trabalhou mais um ano com preços estanques em seus produtos básicos. É preciso considerar, ainda, que 2018 foi ano de Copa do Mundo de Futebol na Rússia e de eleições gerais, inclusive para a escolha do executivo mais importante da República.

O vai e vem dos preços

Lourenço Miguel Campo, titular da Central Leilões, dividiu o ano em duas etapas. A primeira pegou do começo da temporada até agosto, quando “o mercado girou com 97% de liquidez e média saltando de R$ 9,1 mil (2017) para R$ 9,5 mil” – um incremento próximo de 4%. Para Campo, “o fato de registrar valorização, mesmo que modesta, era muito positivo, já que se esperava até encolher”.

Mas, depois, veio a segunda etapa, pós-agosto, quando o valor praticado nos tourinhos retornou ao patamar da temporada passada. De qualquer forma, o empresário avalia que este foi “um comportamento geral de toda a economia, e não só da pecuária de corte”. A Central Leilões comercializou 16,5 mil touros em 2018, sendo 14 mil zebuínos. O volume foi superior em 15% frente ao de 2017.

A percepção de dois momentos distintos no mercado de animais deste ano é partilhada por Adriano Barbosa, leiloeiro rural muito ativo no segmento de reprodutores. A primeira ele também delimita com fim no mês de agosto, mais precisamente colocando a Expogenética como divisor de águas.

Até a feira, os preços foram razoáveis, com perda na média em torno de 5%. Diferente de Lourenço, ele não viu valorização. Na segunda etapa, logo após a feira realizada em Uberaba/MG, na sua percepção, os valores despencaram por volta de 30%; ou seja, animais de R$ 10 mil caíram para R$ 7 mil ou R$ 6,5 mil. Ele também viu o fenômeno como “reflexo de toda a economia brasileira”.

Barbosa ainda salientou que vê “o produtor de bezerro bastante descapitalizado, com perda no valor de seu produto em, pelo menos, 20%, e obrigado a abater matrizes para fechar as contas, principalmente pela pressão da alta do dólar que baliza os insumos”. Sem fêmeas na reprodução não há porque comprar mais touros.

O leiloeiro ainda trouxe ao contexto um mercado com “oferta reforçada por um número considerável de liquidações de plantéis de gado PO, aumentando, em muito, a qualidade dos produtos disponíveis, sem que a demanda acompanhasse, seja em volume de compradores, seja na capacidade de pagar mais”.

Quem foi bastante sintético em sua avaliação foi Guilherme Tonhá, diretor da Estância Bahia Leilões. Para ele o mercado do touro, em 2018, deixou bem evidente que, quanto mais ele traz a condição de “melhorador” – mais números positivos no que diz respeito à sua avaliação genética, incluindo genótipo e fenótipo –, mais agrega valor final.

Por outro lado, “cada vez mais, o comprador está ciente disso. Mais ele exige antes de investir. Esses produtos sempre se diferenciam em termos de preços. Tivemos remates de até R$ 13 mil, de média, em função dessa diferenciação, enquanto outros ficaram nos R$ 6,5 mil, por faltarem informações”.

O diretor entende que o ano foi de “boas vendas, com muita liquidez”. Para ele, a “discrepância de preços” se explica na provação de um touro enquanto melhorador de progênie. “Quanto mais eficiente, mais valorizado!” Mas a média entre os dois extremos fica mesmo na casa de R$ 10 mil.

“Certo é que touro muito bem-avaliado e ‘bonito’ saiu bem acima dos demais. Se é que podemos conceituar assim, o touro commodity saiu por preços bem menores. Fechamos o ano comercializando mais de 12 mil reprodutores e sentimos demanda aquecida para 2019. Nossa crença é determinante por atuarmos nas principais praças da bovinocultura de corte do País, entre elas, Mato Grosso, Acre, Rondônia, Pará e Tocantins”, justifica.

No Rio Grande do Sul, tradicional celeiro das raças taurinas, importantes na produção de carne com qualidade superior por meio do cruzamento industrial, a realidade acompanhou o mercado, porém com algumas ressalvas. Fábio Crespo, diretor da Parceria Leilões, destaca que o comércio de touros em 2018 fica marcado por maior demanda por parte dos criadores, registrando liquidez de 96%.

Em seus pregões, os preços oscilaram entre R$ 8 mil e R$ 12 mil, dependendo do pacote genético oferecido e da grife que assinou a criação do animal. Ele chama a atenção para as raças sintéticas, em especial, o Brangus e o Braford, que se valorizaram em relação às suas raças mães, pela crescente procura para o trabalho no Brasil Central. “Cresceu a oferta abaixo do crescimento da demanda”, observa Crespo.

Também do Sul vem a avaliação de Eduardo Knorr, diretor da Knorr Leilões, que vai ao encontro das impressões de Crespo e reforça que 2018 acabou surpreendendo em relação aos preços praticados, mesmo contra adversidades do baixo valor do boi gordo. “Houve muita liquidez e demanda crescente.”

Os preços estiveram no patamar de 2017, o que para Knorr é positivo, sendo que as sintéticas Braford e Brangus registraram valorização acima de 10% sobre o Hereford e o Angus, “não só pela demanda do Centro-Oeste, mas também porque selecionadores do Sul estão optando por criar essas raças nas regiões gaúchas mais adversas. A Knorr comercializou de 800 a mil cabeças no ano.

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Segundo Guilherme Tonhá, houve remates de R$ 13 mil de média, enquanto outros ficaram em R$ 6,5 mil por falta de informações sobre os touros

Já Marcelo Silva, diretor da Trajano Silva Leilões, foi mais crítico com a temporada de negócios. Ele considerou todo o contexto político-econômico desfavorável, mas observou que “os preços praticados ao longo do ano, apesar de satisfatórios, registraram queda em torno de 5% em relação a 2017. Em todo setor há ciclos de baixa e de alta. Nessas fases, apenas temos de trabalhar mais e melhor. Sua empresa despejou quase 2 mil touros no mercado pela média de R$ 10,5 mil.

Um bem-vindo 2019

No fechamento desta edição, os entrevistados desta reportagem eram unânimes em comentar dois aspectos sobre suas expectativas para o próximo ano. Um é estrutural, em função do cenário político já desenhado para Jair Bolsonaro, presidente eleito, em um modelo econômico liberal – sem tanta intervenção do Estado –, de uma equipe de governo (ministros, secretários e presidentes de estatais) bastante técnica e sob um posicionamento político muito favorável às coisas do campo.

Alguns comparativos de mercado

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Um exemplo é a indicação para ministra de Agricultura, Pecuária e Abastecimento da deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), sacada da bancada ruralista do Congresso Nacional – que, aliás, cresceu depois de apuradas as urnas – com amplo credenciamento junto ao setor. Sem contar a presença de Sérgio Moro (o capataz da Lava Jato), no Ministério da Justiça, o que representa segurança jurídica.

Paralelamente, declarações e nomes da futura equipe econômica liderada por Paulo Guedes alentavam o mercado. Enfim, algumas amarras começavam a ser desatadas. Pelo lado conjuntural, destravando a economia por incertezas políticas, a pecuária anota um singular cenário. Segundo grande parte dos analistas, a atividade entra em 2019 com um novo ciclo de alta.

Depois de três anos de abate sistemático de matrizes para deixar tudo azul no caixa, é hora de correr atrás delas e aumentar a produção de bezerros. No final de novembro, alguns números reforçavam essa tese. Faltam bezerros. Flávio Santos, da Programa Leilões, vê indicativo em um leilão realizado no meio de novembro, quando fêmeas comerciais foram arrematadas por R$ 2,2 mil, contra R$ 1,7 mil registrado em 2017.

Lourenço Miguel Campo, da Central Leilões, traz outro indício. Até meados deste ano, segundo seus contatos na indústria frigorífica, 44% dos abates traziam fêmeas. Embora não pudesse informar um percentual pela condição recente da informação, em novembro, as plantas registraram redução acentuada no desmonte de matrizes.

Outro indício importante é a demanda crescente do cruzamento industrial. Se estão comprando mais touros sintéticos é porque há compromisso de fornecer bezerros de qualidade para a recria e a engorda. Alguns inconformistas, no entanto, preferem jamais se posicionar em relação ao futuro, mas até eles sabem que, quando a coisa está muito ruim, significa que está muito perto de tudo melhorar, pois não há mal nem bem que dure para sempre.

Para alguns de nossos entrevistados, o saldo de 2018 é positivo até por lucratividade e liquidez. Para outros, os negócios surpreenderam, porque não encolheram tanto e até se mantiveram em uma curva estreita, no que diz respeito ao necessário aperto de cintos em tempos de vacas magras. Certo é que um novo tempo de prosperidade está na porta e ninguém vai deixar de recebê--lo, ansiosamente.