Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Caprinovinocultura

Dever de casa: ampliar a oferta

Caprinovinocultura

Setor tem exemplos positivos, como a união de diferentes agentes da cadeia para o fornecimento de carne, mas ainda é preciso superar gargalos que entravam o aumento da produção

Denise Saueressig
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O Brasil reúne condições necessárias para um maior desenvolvimento da cadeia de ovinos e caprinos. Diversidade de raças adaptadas, melhoria genética, iniciativas de organização e, sobretudo, um mercado consumidor com interessante potencial de crescimento. Mas o setor também tem gargalos que precisa superar, e o incremento da produção é o maior deles. “Tanto para caprinos como para ovinos, a busca é pelo aumento da escala, viabilização de uma melhor logística de abate, regularização e comercialização”, observa Espedito Cezário Martins, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos. O esforço segue com a necessidade de ampliação das unidades especializadas de abate com vistas à segurança alimentar dos consumidores.

Num cenário doméstico dominado pelos cortes bovinos, suínos e de frango, também representa um desafio importante. O mercado é imenso, considerando uma população de mais de 200 milhões de habitantes, mas os números revelam a grande distância em relação às outras proteínas. Para se ter uma ideia, o consumo per capita de carnes de frango, bovina e suína soma 44,8 kg, 32,5 kg e 14,1 kg, respectivamente. Já o consumo da carne ovina é estimado em apenas 400 gramas por pessoa/ ano, segundo a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco).

Caprinovinocultura

Um ponto forte na caprinocultura é o aparelhamento de associações e cooperativas, com iniciativas especialmente em estados do Nordeste e do Sudeste

Um dos caminhos é o investimento em uma forte campanha de marketing, algo possível somente com informações confiáveis em mãos. “Lançado neste ano, o Centro de Inteligência e Mercado de Caprinos e Ovinos é um passo para colocar mais dados à disposição de todos os elos da cadeia”, relata Martins.

Por meio das oficinas do Programa Rota do Cordeiro, iniciativa do Ministério da Integração Nacional, Embrapa e outros parceiros, os pesquisadores também observam outros problemas recorrentes: insegurança hídrica e falta de pastagem, no caso mais específico do Nordeste; necessidade de profissionalizar a produção e de melhorar a assistência técnica; aperfeiçoar a segurança nas propriedades para minimizar casos de roubos de animais; e continuidade e integração de políticas públicas.

Para o presidente da Arco, Paulo Schwab, é fundamental que os produtores contem com assistência técnica capacitada e especializada, já que a atividade tem características singulares e que merecem atenção para incremento da rentabilidade. “É importante reduzir índices negativos, como a mortalidade de cordeiros e a ocorrência de verminoses”, cita.

Parcerias para superar a informalidade

Entre os desafios de curto prazo está a viabilidade de feiras que, tradicionalmente, são bancadas por sindicatos rurais. “O fim da contribuição sindical deverá trazer dificuldades para a realização desses eventos, e, por isso, estamos em tratativas para alternativas que possam ajudar, como parcerias com, por exemplo, empresas de insumos, instituições financeiras, estados e ministérios ligados à área”, informa Schwab.

Caprinovinocultura

Na opinião do dirigente, o Brasil acumula ganhos importantes na área da genética, com recente melhoria dos rebanhos formados por raças adaptadas às diferentes regiões. No entanto, a pequena escala de produção faz com que o País ainda seja importador de carne ovina e de outros derivados, como leite e lãs mais finas. “Nosso dever de casa é ampliar a oferta e criar condições para que o mercado supere a grande informalidade”, sustenta.

Uma das direções mais interessantes seguidas nos últimos anos é a formação de parcerias para o fornecimento de carne de cordeiro, como os acordos que envolvem agentes desde a produção no campo até o varejo, passando pelo transporte e pela indústria. “A união entre os elos é fundamental para conseguirmos melhores resultados. A caprinovinocultura ainda não tem uma organização de cadeia aqui no Brasil, a exemplo do que ocorre com aves e suínos. Precisamos trabalhar nessa direção”, destaca o presidente da Arco.

O analista da Embrapa Caprinos e Ovinos Zenildo Holanda tem percepção semelhante. “Mesmo que de forma lenta, o setor vem evoluindo, com avanço do cooperativismo, no qual é possível enxergar as associações de produtores se mobilizando. A carne ovina vem atingindo mercados sofisticados, nos quais a gastronomia é mais valorizada”, constata.

Para o criador Claudio de Sottomaior Filho, presidente do Núcleo Poll Dorset Sul, os bons preços praticados na ovinocultura podem favorecer um maior desenvolvimento do setor nos próximos meses, inclusive com atração de produtores para a atividade. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o quilo do cordeiro vivo valia, em média, R$ 6,48 no final de novembro, segundo levantamento da Emater/RS. “Também temos a expectativa de reativação da economia a partir de 2019, o que poderá ter impacto positivo sobre o poder aquisitivo e, consequentemente, sobre o consumo da população”, completa.

Ações para ampliar o consumo

Os primeiros resultados divulgados pelo Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o rebanho de caprinos chegou a 8,25 milhões de cabeças, um crescimento de 16% em comparação com o censo anterior, divulgado em 2006. Já o número de ovinos apresentou retração de 2,8%, ficando em 13,7 milhões de animais.

A Região Nordeste foi a única em que o número de ovinos e caprinos registrou aumento entre 2006 e 2017. Neste ano, o fator clima foi um ponto positivo nesses estados, que concentram a maior parte dos plantéis do País. “Tivemos condições climáticas um pouco mais favoráveis. Isso ameniza o problema de seis anos de secas consecutivos, que repercute em aumento de custos devido à necessidade de aquisição de insumos externos”, indica Klinger Magalhães, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Na avaliação do especialista, um ponto central para a caprinocultura é o gerenciamento do negócio. “Uma gestão mais eficiente leva a decisões mais acertadas. Dessa forma, pode- -se lidar com os desafios do clima, utilizando melhor os recursos naturais e convivendo com o semiárido”, acrescenta.

Um ponto forte na caprinocultura é o aparelhamento de associações e cooperativas. Na Paraíba e em Pernambuco, existem núcleos bastante desenvolvidos, não só na produção de leite, como também de derivados, com agregação de valor. Outro mercado mais aprimorado está no Sudeste, em estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde há demanda por produtos sofisticados. Apesar de haver produção crescente de derivados do leite caprino, o consumidor, em geral, ainda não conhece esses produtos, ressalva Zenildo Holanda, lembrando que muitas pessoas sequer provaram iogurte ou queijos finos feitos a partir do leite de cabra. “Então, um dos desafios é essa questão mercadológica, um trabalho de fazer com que o mercado consumidor se amplie e mais pessoas conheçam esses produtos”, salienta.

Já o consumo de cortes caprinos ainda é bem restrito ao Nordeste, apesar de ser uma carne diferenciada, mais magra que a de frango. Para Espedito Martins, esse diferencial pode ser usado em ações de marketing para promover o produto. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo – que têm grandes populações de descendentes de nordestinos com esse hábito alimentar de consumo – podem ser exploradas.