Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Genética

ACASALAMENTOS DIRIGIDOS

Melhoramento genético planejado e sustentável

Rodolffo Assis*

Apesar de ainda pouco aplicado, o melhoramento genético tem se firmado como uma forma imprescindível para o incremento na rentabilidade da pecuária nacional. Há duas ferramentas que podem promover esse melhoramento: seleção e acasalamento.

Muito se comenta sobre seleção, e sua utilização tem sido facilitada, nos últimos anos, com adventos em identificação e mensuração dos animais. Já o acasalamento direcionado, na maioria das vezes, ou não é empregado, ou é utilizado de forma menos eficaz do que se poderia.

Matrizes acasaladas x Acasalamento 2017

Genética

Quando se fala em acasalamento dirigido, muitos imaginam que o objetivo seja apenas correções morfológicas, como orelhas, pigmentação, marrafa e chanfro, mas a verdade é que essa ferramenta vai muito além e se torna fundamental no processo de melhoria nos principais fornecedores de genética do mundo.

Seleção

É importante que haja um levantamento da situação atual do rebanho, dos objetivos e dos critérios de seleção para que a escolha dos reprodutores a serem utilizados seja eficiente.

A partir de uma minuciosa análise, deve-se escolher os touros e a quantidade de animais que serão utilizados. Após essa etapa, já é possível a verificação da média da próxima safra. Caso essa etapa seja negligenciada, mesmo com um ótimo direcionamento de acasalamento, não será possível atingir os objetivos.

Há a possibilidade de se definir a quantidade de utilização após o acasalamento individual. Isso dá maior liberdade para o acasalamento, mas é necessário cuidado para que não se concentrem acasalamentos com touros que, entre os selecionados, estejam entre os piores, o que é comum acontecer quando o acasalamento prioriza apenas a correção morfológica dos animais. Nessa situação, o ganho genético esperado não seria alcançado.

Objetivos dos acasalamentos dirigidos

- Controle de consanguinidade
Sabe-se que animais com alto coeficiente de endogamia (resultado do cruzamento entre parentes próximos) são menos produtivos. Esse fato é conhecido como depressão endogâmica e afeta, principalmente, a fertilidade e a sobrevivência.

Hoje, praticamente todos os programas de melhoramento dispõem de softwares que calculam o coeficiente de endogamia dos possíveis acasalamentos e permitem limitar perdas. Em geral, recomenda-se que esteja abaixo de um índice 6,25.

– Ajustes morfológicos
O direcionamento individualiza do dos acasalamentos é utilizado, há muito tempo, para essa finalidade. Consiste em encontrar o reprodutor adequado para corrigir um ou mais pontos morfológicos inadequados de uma matriz. O resultado esperado é a produção de animais padronizados, seja ele estabelecido por uma raça ou pelo próprio selecionador. Como exemplos, podemos citar possíveis ajustes em frame (tamanho), umbigo, pigmentação, garupa, boca, ossatura, caráter mocho etc.

Genética

Apesar de essas características, em geral, possuírem alta herdabilidade (muita influência genética), devemos salientar que ocorrem muitos equívocos por serem informações, na maioria das vezes, de origem subjetiva.

– Correções genéticas
Nesse sentido, o acasalamento funciona para ajustar alguma deficiência genética que o animal tenha. Em matrizes negativas para peso ao sobreano, por exemplo, seriam utilizados touros muito bons nessa característica, resultando, assim, em produtos positivos. Esse tipo de acasalamento pode ser chamado de corretivo ou compensatório.

Para isso, os atuais programas de melhoramento trabalham com possibilidade de filtros nas projeções das avaliações dos acasalamentos, ou seja, pode-se excluir acasalamentos que resultem em características piores que um valor predeterminado.

Quando é realizada a seleção prévia para os reprodutores e suas respectivas quantidades, e se prioriza a correção, há um aumento na homogeneidade da próxima safra, podendo-se ter menos descartes por avaliações ruins, mas, dificilmente, serão produzidos animais excepcionais. Seguindo o exemplo, utilizaríamos as doses de sêmen de que dispomos de um touro com excelente peso ao sobreano para corrigir as matrizes mais fracas nesse atributo e teríamos de utilizar um touro inferior nesse quesito nas matrizes superiores.

- Animais com avaliações genéticas extremas
Esse é o maior objetivo dos rebanhos de seleção. Baseia-se em priorizar o acasalamento dos melhores machos com as melhores fêmeas e, automaticamente, dos piores machos com as piores fêmeas (entre os já selecionados). A esse sistema é dado o nome de acasalamento entre semelhantes.

Quando se utiliza esse tipo de estratégia, há uma maior variabilidade genética da safra, o que é muito importante para obtenção de animais “fora da curva”, objetivo primário dos selecionadores. Em geral, quanto mais se adota, mais se aumenta a quantidade de produtos extremos e diminui-se a quantidade de medianos.

O gráfico mostra como se comportaria uma safra resultante do acasalamento entre os mesmos animais, diferenciando- -se apenas a estratégia adotada. No exemplo, a média dos touros é superior à das matrizes, e cada um é utilizado na mesma quantidade. Verifica-se que, caso os touros sejam utilizados na mesma quantidade, a média da safra independe da estratégia. O que determinaria a estratégia a ser adotada seria o objetivo:

– Homogeneidade dos produtos e obtenção de poucos animais com avaliação muito fraca: acasalamento corretivo;

– Produção de animais de excelente avaliação: acasalamento entre semelhantes.

Novidades

Os programas de melhoramento têm desenvolvido várias ferramentas para auxiliar o processo.

Há pouco mais de um ano, a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), por exemplo, lançou o MaxPAG, um programa que sugere acasalamentos otimizados, os quais, além de controlar consanguinidade, têm a função de aumentar a variabilidade genética, resultando em maior ganho genético a médio e longo prazos.

Outro exemplo de inovação na área vem do programa Geneplus. Em sua ferramenta de pré-acasalamento, há a possibilidade de se classificarem as indicações pelo “Nível de Problema”. Com essa classificação, são priorizados os acasalamentos com réguas de Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) mais equilibradas, e não apenas por um índice final padrão, o que poderia “esconder” animais com características negativas indesejadas.

Também deverão estar disponíveis, em breve, programas que vão possibilitar o controle de consanguinidade por meio de avaliação genômica, o que será ainda mais preciso que o método de análise que possuímos atualmente.

Longe de ser apenas uma ferramenta para ajustes estéticos, o acasalamento direcionado tem se tornado uma peça fundamental para o melhoramento genético planejado e sustentável. Realizá- lo de forma eficiente pode gerar uma significativa redução no tempo necessário para se atingirem os objetivos de seleção.

*Rodolffo Assis é médico- -veterinário da Berrante Genética e técnico de Corte Alta