Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

O próximo ano será diferente?

Bruno de Jesus Andrade*

O Brasil saiu de 2017 muito machucado devido a diversos fatores ligados ao ambiente político- econômico. No final de 2017, entretanto, já se projetavam melhorias para o nosso País em 2018. Alguns analistas apontavam para o crescimento do PIB entre 2,5% e 3,5%, inflação controlada e queda na taxa de desemprego – na época, estimada para ficar entre 11% e 12,4%.

Já no início de 2018, algumas ressalvas eram colocadas, como a efetiva execução da reforma da Previdência, a disputa eleitoral acirrada, o consumo das famílias, entre outros temas. Também na abertura do ano, analistas do setor apontavam para bons resultados no agronegócio.

Valores médios mensais (R$/@) - Indicador Boi Gordo (CEPEA/Esalq + B3)

Confinamento

Agora, já em novembro de 2018, as projeções foram alteradas para números piores. O Ministério do Planejamento prevê que a economia brasileira cresça 1,4%, esse valor é bem inferior ao estimado no início do ano. O governo também passou a estimar a inflação para 4,3%, número que – se observado isoladamente – é um bom indicador ainda, pois está próximo ao centro da meta de 4,5%. A taxa de desemprego está próxima de 12%, valor ainda muito alto.

Em relação ao agronegócio, o PIB – volume do setor, calculado pelo CEPEA/Esalq-USP – aponta perspectiva de crescimento de 2,53%, com valores de 2,4% para o segmento de insumos, 1,34% para o segmento primário, 3,06% para a agroindústria e 2,90% para os agrosserviços. Nessa metodologia de cálculo, temos apenas a variação do volume de produção.

Quando analisamos as informações de renda real do setor, temos dados mais preocupantes para o agronegócio, em especial, os do setor primário da pecuária (dentro da porteira). Por outro lado, insumos e agroindústria mantiveram resultados positivos. Dentro da propriedade, os números negativos refletem a redução dos preços dos produtos pecuários e o aumento do custo de produção na agricultura, segundo informações do CEPEA/Esalq-USP.

Ainda que o cenário de 2018 não tenha sido ótimo, está sendo possível realizar a operação de pecuária em melhor condição do que em 2017. Poderia ter sido melhor, porém a greve dos caminhoneiros, por exemplo, impactou sobremaneira a atividade agropecuária. O IPEA apurou, no final do primeiro semestre de 2018, que as atividades de pecuária de corte, leite, frango de corte, suínos e ovos foram gravemente impactadas, em nível de produção, preços de mercado e renda dos produtores.

A greve dos caminhoneiros ocorreu no final da época das chuvas, quando as áreas de pastagens começam a piorar suas características. Embora a pecuária de corte tenha sido a que menos sofreu perante as demais cadeias do agronegócio, foi possível observar rebanhos de animais que precisaram ficar estocados em fazendas, em uma época do ano que normalmente estariam sendo comercializados no intuito de aliviar a pressão sobre as pastagens.

Adicionalmente, a greve dos caminhoneiros ocorreu em um momento de decisão para muitos terminadores de gado, pois as atividades de confinamento e semiconfinamento, que dependem fortemente de insumos comprados, tiveram de ser paralisadas em algumas localidades por conta da impossibilidade de circulação de produtos pelas rodovias brasileiras. Nesse momento, foi possível observar ações muito colaborativas, de produtores ofertando e/ou doando produtos para outras fazendas que estivessem mais necessitadas.

O mês de abril de 2018 já não tinha sido bom para as exportações de carne bovina, e, durante a greve, os frigoríficos brasileiros deixaram de exportar 40 mil toneladas, o equivalente a US$ 170 milhões.

Índice ICBC - LAE/USP - Goías

Confinamento

Aprofundando no tema exportação, as indústrias frigoríficas exportaram, de janeiro a outubro de 2018, a quantia de 1,32 milhão de toneladas, um crescimento de 10% em relação ao mesmo período de 2017. Em receita, foi apurado um total, entre janeiro e outubro de 2018, de US$ 5,34 bilhões, valor 8% superior ao mesmo período de 2017.

China/Hong Kong, em 2018, tem sido o principal destino de nosso produto. Em relatório publicado pela ABRAFRIGO, de janeiro a outubro de 2018, 44,1% do volume exportado foi destinado para China/Hong Kong. Em valores (US$), foram responsáveis por 44,9% do total apurado.

O continente asiático é, hoje, nosso principal mercado, responsável por 61,9% do volume exportado e 61,8% do valor arrecadado em dólares. Para 2019, mais exportação é esperada para esse continente e para o restante do mundo. Indonésia, Coreia do Sul, EUA e China/Hong Kong sinalizam para maiores aquisições de produtos em nosso mercado. Uma oportunidade, pelo lado da demanda, importante para o setor pecuário.

Pelo lado da oferta, estamos tendo, em 2018, um aumento na quantidade de bovinos abatidos, em relação a 2017. Dados do Ministério da Agricultura apontam para um total de 20,275 milhões de bovinos abatidos entre janeiro e outubro de 2018 em estabelecimentos com SIF, valor 6% superior ao mesmo período de 2017. Destaque para o mês de abril de 2018, que teve abates de 476 mil animais, número superior ao de abril de 2017; e maio de 2018 apresentou destaque inverso, com abates de -367 mil animais em relação a maio de 2017, consequência da greve dos caminhoneiros.

Mesmo que as exportações estejam se comportando de forma favorável, o mercado interno ainda não recuperou o patamar de consumo de carne bovina dos anos pré-crise brasileira. Dessa forma, essa maior oferta de animais para o abate não foi absorvida completamente.

O primeiro semestre de 2018 teve um comportamento normal dos preços, começando janeiro com patamares de preços superiores ao que foi observado no final da primeira metade do ano. A incerteza da produção de animais em sistemas mais intensivos e o atraso dessa produção fizeram com que o segundo semestre operasse com preços superiores aos do primeiro, tendo setembro como o mês com o melhor preço pago ao produtor até o momento. Essa variação dos preços do boi gordo na segunda metade do ano também pode ter sua explicação, em parte, pela provável reversão do ciclo pecuário.

No cenário brasileiro para os custos de produção, estudo da CNA aponta crescimento de 2% no custo operacional para a atividade de cria em 2018. Para recria e engorda, a elevação foi maior – em média, 9%. Os números divulgados pelo IMEA no estado do Mato Grosso acompanham esse cenário nacional, pois, naquele estado, a fase de cria apresentou aumento de 0,7% dos custos operacionais e 6,5% da fase de recria e engorda em 2018 comparado com informações do ano anterior.

O confinamento talvez tenha sido o modelo de produção mais afetado e no qual houve mais variação nos custos de produção. Estudo realizado pelo LAE/USP sobre custo da diária-boi em confinamentos no estado de Goiás mostra grande oscilação ao longo dos meses de janeiro e outubro de 2018.

Utilizando essas informações do custo diário, estima-se que a arroba engordada em 2018 nos confinamentos em Goiás possa se situar entre R$ 100,00 e R$ 134,00. Portanto, somente os confinamentos mais bem controlados, com alto uso de tecnologia, podem estar conseguindo apurar resultados econômicos interessantes em 2018.

Esse ambiente de custo de produção impactou no volume esperado para a safra de 2018 do confinamento, que ficou estagnado. Dados internos da ASSOCON, considerando as 1,4 mil unidades mapeadas pela entidade, apontam que o volume de animais confinados esperados para 2018 deverá ser de 3.386.323 animais, número semelhante ao apurado em 2017, de 3.369.475 animais.

De forma geral, esses números apresentados anteriormente nos revelaram um mercado com altos e baixos, influenciado por questões fora da porteira que exigiram dos pecuaristas extrema competência e “jogo de cintura” para se posicionar no momento certo.

Mercado de confinamento ficou estagnado em 2018, principalmente por conta dos custos maiores

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E 2019?

Para o próximo ano, o ambiente de negócios da pecuária poderá se consolidar no “ganha-ganha”. Analistas acreditam que produção e consumo seguirão tendências positivas. O Ministério da Agricultura estima que o Valor Bruto da Produção (VBP) da pecuária em 2019 seja de R$ 584,7 bilhões, crescimento de 1,12% em relação a 2018.

Existem boas sinalizações que as exportações de carne bovina em 2019 seguirão em expansão, tendo ainda na Ásia seu principal destino para os nossos produtos.

Quanto ao mercado interno, as sinalizações que a equipe econômica do novo governo vem dando favorecem a geração de empregos, investimentos e aumento do consumo das famílias.

O custo de produção para a pecuária de corte em 2019 tende a aumentar de forma natural, dado que o próximo ano também será favorável para a agricultura de forma geral. Nesse sentido, o pecuarista deve estar preparado a oportunidades que possam aparecer para “travar” sua compra de insumos.

Pensando na comercialização de boi gordo no próximo ano, provavelmente entraremos em um período de alta nas cotações. Isso poderá ocorrer por conta das margens apertadas dos produtores de bezerros nos anos anteriores, que resultou em abate de fêmeas além do normal. Agora, com preços mais atrativos para a categoria bezerros, pode-se observar maior retenção de fêmeas. Considerando o uso de tecnologias atualmente na pecuária, não é improvável esperar que o reflexo da alta recente de bezerro se concretize em elevação do preço do boi gordo para 2019.

Confirmando o cenário de alta nos preços do boi gordo para 2019, o pecuarista deve ficar atento às indústrias que possuem operação majoritariamente no mercado interno. As margens em 2018 não foram as melhores e, confirmando- -se a tendência para 2019, poderão ser piores. As indústrias exportadoras têm a seu favor a perspectiva no aumento das vendas externas, o que, dependendo da intensidade, pode dar sustentação aos preços do boi gordo.

Conforme é possível notar, o negócio pecuário está sujeito a diversas situações e combinações que, inúmeras vezes, não estão sob o controle do produtor rural. Estar constantemente se atualizando com informações sobre o mercado, realizando suas proteções de preço e planejando as atividades são as principais ferramentas que todos os pecuaristas dispõem para garantir rentabilidade. Sem isso, estarão sujeitos aos movimentos do mercado, às vezes ganhando e, muitas vezes, perdendo.

*Bruno Andrade é diretor-executivo da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon)