Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Na Varanda

No caminho para o boi holístico

Na

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

N um recente encontro com pecuaristas, perguntei aos presentes: “Qual é a missão do produtor rural?” Disseram que não compreendiam bem o motivo da minha pergunta, sendo que a resposta era óbvia. “A função do agro é alimentar o mundo.” Comprei a briga e contra-ataquei: “Errado. A função do fazendeiro é alimentar sua família, o resto é consequência. O taxista tem como missão principal ganhar dinheiro para alimentar a família e só depois a de transportar pessoas. A missão do médico é assegurar o sustento da família, tratando da saúde dos pacientes”.

Ou seja, devemos aprender aquilo que os norte-americanos chamam de first things first. Essa prática que explica a liderança desse povo na eficiência em quase tudo o que fazem define a seguinte linha na tomada de decisões na vida profissional e pessoal: (1) definir prioridades; (2) avaliar as interdependências de todos os fatores que influenciam a escolha sobre a implantação de novas ferramentas tecnológicas; (3) uma vez decidido o caminho, o ritmo e o investimento, focar toda a energia na implementação rápida; e, finalmente, (4) usar métricas e aplicativos para avaliar o progresso e os resultados em tempo real.

Nessa atitude comportamental sobra pouco espaço para a emoção. Em tradução livre da regra de ouro norte-americana, poderíamos dizer: “Primeiro o dever, e depois o prazer”. Assim, a tradicionalmente defendida paixão na produção bovina cederá espaço para uma conduta mais racional. Pois, se a produção no campo não for sustentável, o negócio da família rural não será (economicamente) sustentável. E sem esse padrão de rentabilidade da atividade não haverá sustentabilidade ambiental e, provavelmente, nem sucessão familiar a médio e longo prazos. Em resumo, sem gerar lucro, a família não sobrevive, e a fazenda dificilmente será sustentável. Podemos reduzir tudo isso na frase: “Paixão alimenta o boi, mas não sustenta a família”. Como, então, encarar e organizar essa transformação cultural?

Defender essa nova visão não é fácil numa atividade na qual a maioria se define como “apaixonado pela pecuária”. Paixão anima, sim, mas geralmente consome muito mais energia, resultando numa relação custo-benefício duvidosa do investimento de tempo e dinheiro. Como já perceberam, é um economista que está falando.

Aqui, seguem dois pontos para defender minha tese. Primeiro, por que são os investidores financeiros e não os pecuaristas de 2ª ou 3ª geração que lideram o ranking das fazendas mais lucrativas? E segundo, por que, nas análises do Rally da Pecuária, apenas seis das dez fazendas bovinas de maior produtividade fazem parte da lista das dez mais rentáveis? Surge, assim, a preocupação de dar um pouco mais de atenção ao negócio como um todo e um pouco menos para a excelência técnica da produção. Usando metáforas, poderíamos deduzir que a razão (lucro) vence a corrida contra a emoção (o boi perfeito).

Com isso, chegamos ao nosso “boi holístico”. Os interessados perguntarão: Ele é de qual raça? Respondo: não sei! Ele pasteja melhor em qual bioma? Novamente, não sei! Ele nasce e engorda em qual dimensão ideal de rebanho? Repito, não sei! Como conclusão, temos que qualquer tipo de animal e tamanho de propriedade pode atingir o topo na pirâmide da lucratividade – desde que os detentores da tecnologia de produção (as empresas de insumos) estejam perfeitamente engrenados com o perfil empresarial do produtor.

Na prática, os técnicos altamente capacitados que fazem a ponte entre as empresas e os produtores focam geralmente mais na fazenda e menos no fazendeiro. Explico a diferença: imagine uma fazenda de 1.000 hectares e 1.000 animais. Ela será entregue a você, amigo leitor, a mim e a um advogado da sua cidade. Se fizermos um levantamento dos resultados atingidos após um período de cinco anos, as três gestões não apresentariam três resultados econômicos diferentes? Ou seja, o fato de encontrar três realidades distintas para a mesma fazenda física significa que a personalidade do produtor e suas circunstâncias familiares são mais importantes do que a terra, o rebanho e as infraestruturas físicas da própria fazenda.

Assim, podemos concluir que os técnicos que assessoram o produtor na escolha entre as múltiplas opções tecnológicas devem ampliar o radar de atenção do tradicional foco na fazenda para o campo mais complexo da “psicologia da consultoria”, que procura entender e envolver o perfil humano do produtor. Pois, é esse chamado mindset que determina a amplitude e a prioridade das decisões que são o impulso principal para a direção do caminho de transformação que denominaremos “de produtor para empresário rural”.

Na próxima conversa, e aproveitando o espírito especial da passagem do ano, vamos avaliar como as empresas de insumos devem adaptar estratégias de marketing para atender melhor o pecuarista. Elas devem focar naquele produtor que tem potencial e vontade, mas ainda está sem noção clara sobre como implementar os passos necessários para realizar as mudanças. Desafios que são provocados pelo consumidor cada vez mais exigente de um lado e pela crescente competitividade entre os produtores rurais do outro. Vamos conhecer o “boi ferrari”, primo do “boi holístico”. Trata-se de desenhar novas formas de comunicação interativa para o aproveitamento da ampla oferta de ferramentas que suportam a crescente tecnificação das fazendas bovinas. Usaremos essas metáforas para facilitar o entendimento das megatendências que, neste momento, estão revolucionando a tradicionalmente tranquila atividade da pecuária.