Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Touros

ENTRE ALTOS E BAIXOS

Touros

Em ano turbulento, genética fez a diferença e reprodutores com avaliação tiveram maior valorização e seguram o mercado de touros

Bruno Santos

Sem dúvidas, 2017 foi de fortes emoções para o pecuarista. O ano começou sob forte desconfiança do setor, devido às quedas nos preços registrados em 2016 e não foi diferente para os vendedores de touros. Somado a isso, a crise na política, a fragilidade e a instabilidade da economia causaram a queda no poder de compra do brasileiro. Esses já seriam motivos suficientes para deixar muito produtor preocupado.

Porém, nada é tão ruim que não possa piorar. Em março, a pecuária brasileira foi bombardeada em um dos seus piores momentos da história. A derradeira começou no dia 17, do mesmo mês, quando explodiu a bomba batizada de Carne Fraca.

Naquele momento, diante das informações de que carnes e produtos estragados estavam sendo liberados ao consumo, pelo menos 11 países embargaram, suspenderam temporariamente e até integralmente a importação da carne brasileira e seus derivados.

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A operação Carne Fraca e o escândalo envolvendo as delações dos executivos da JBS causaram grande impacto no setor, aponta Maurício Tonhá

A decisão foi um balde de água fria em todos os elos da cadeia produtiva da carne e com a venda de reprodutores foi igual. “O ano de 2017 foi tenso. Não alcançamos expectativas em nenhum aspecto. A operação Carne Fraca juntamente com o escândalo envolvendo as delações dos executivos da JBS, causaram grande impacto no setor”, aponta Maurício Tonhá, proprietário da Estância Bahia, de Água Boa/MT.

Até o início de novembro, a leiloeira comercializou cerca de 9.500 reprodutores poruma média de R$ 8 mil, praticamente o mesmo valor registrado em 2016, porém, abaixo dos R$ 9,2 mil registrados em 2015. “Tínhamos uma expectativa de preços acima de R$ 9 mil este ano também, mas provavelmente vamos encerrar 2017 com valor 10% abaixo do que esperávamos”, diz Tonhá.

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O ponto principal foi que houve demanda e liquidez, avalia Fábio Crespo

Outro fator apontado pelo leiloeiro como causa para a desaceleração do setor se deu por conta do Fundo de Assistência do Trabalhador Rural (Funrural). Segundo ele, os problemas da operação Carne Fraca e também os escândalos envolvendo a JBS foram pontuais, mas o impacto da indefinição do Funrural se estendeu demasiadamente. “Esta indecisão está fazendo com que produtores tenham dívidas que até então não existiam devido a liminares dentro do Supremo Tribunal Federal e que faziam parecer que a situação estivesse definida. O assunto, de volta à pauta econômica, fez com que houvesse uma paralisia na classe, causando um desconforto muito grande em relação ao futuro”, cita o empresário.

Mercado absorveu

Mesmo diante de tantos fatores negativos, alguns leiloeiros avaliam que a pecuária se manteve firme e soube se adaptar aos problemas. De acordo com Lourenço Campo, proprietário da Central Leilões, de Araçatuba/ SP, o mercado acabou se comportando bem. “Não tivemos o mesmo desempenho de 2016, mas se levarmos em conta os problemas enfrentados, podemos dizer que foi um ano bom”, destaca.

Até o momento, a leiloeira comercializou 12,6 mil reprodutores a uma média de R$ 8,9 mil, o valor representa uma retração de 4% em relação ao mesmo período do ano passado. “Estamos satisfeitos com os resultados, pois conseguimos manter o volume de reprodutores comercializados e tivemos demanda”, afirma Lourenço Campo.

O também leiloeiro e proprietário da Parceria Leilões, de Porto Alegre/RS, compartilha da mesma opinião de Lourenço Campo. Segundo ele, é fato que o mercado teve baixa, contudo, em contrapartida, conseguiu se adaptar à realidade. “O ponto principal foi que houve demanda e liquidez”, diz Fábio Crespo.

Até novembro, a Parceria Leilões realizou cerca de 20 remates de touros. Segundo Crespo, as médias tiveram um leve recuo e, no período, variaram entre R$ 7 e 12 mil contra R$ 8 mil e R$ 13 mil de 2016. As raças sintéticas Brangus e Braford tiveram mais valorização que os britânicos Angus e Hereford. “Até o momento, vendemos a mesma quantidade de touros que no ano passado, também notamos que os animais com dados e avaliações genéticas estão sendo mais valorizados. O produtor está olhando muito mais para o catálogo”, explica o leiloeiro.

Assim como a Parceria Leilões, a também gaúcha Trajano Silva é otimista quantos aos resultados de 2017. Para Marcelo Silva, proprietário da leiloeira, dentro da conjuntura deste ano, o saldo foi positivo. “Com tanto acontecimento ruim, poderia ter sido muito pior”, aponta Silva.

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Mesmo com os problemas enfrentados, podemos dizer que foi um ano bom, afirma Lourenço Campo

Este ano, a Trajano Silva comercializou cerca de 1.500 touros com média geral de R$ 9,6 mil. O valor é 12% mais baixo que a média de R$ 11 mil registrados em 2016. O melhor desempenho e demanda também ficou por conta dos sintéticos Brangus e Braford, seguidos pelos britânicos Angus e Hereford. “A maior valorização das raças sintéticas demonstra que o mercado consumidor está em busca de carne de qualidade”, relata o leiloeiro.

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Para Marcelo Silva, a maior valorização das raças sintéticas demonstra que o mercado consumidor está em busca de carne de qualidade

Genética valorizada

Assim como os leiloeiros gaúchos, o empresário Silvestre Marinho do Carmo, da Connect Leilões, de Londrina/PR, também está satisfeito com os números apresentados pela pecuária de corte no Brasil. Segundo ele, o primeiro semestre deste ano se manteve estável, mas a demanda se manteve aquecida, beirando os 90% de liquidez. “Já o segundo semestre, sobretudo em agosto e setembro, houve uma expressiva valorização. Creio que devemos terminar 2017 com aumento em torno de 25% nas vendas”, destaca.

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Este ano, a Connect Leilões realizou 71 leilões, nos quais foram comercializados 1.172 machos entre todas as raças bovinas. A média geral dos reprodutores se manteve acima dos R$ 8,5 mil. “Com exceção da raça Nelore, que é o pilar da pecuária, o Angus e o Sindi se destacaram muito, devido à crescente exigência de qualidade da carne”, diz Carmo.

A busca por carne de qualidade é, sem dúvida, um caminho sem volta e o produtor de touros avaliados que percebeu a mudança está sendo recompensado. “A pecuária de resultados mostrou que está consistente e conseguiu superar os problemas que a atingiram diretamente. Mesmo com tantos problemas, entre todas as ramificações do nosso setor, o mercado de touro surpreendeu e está mais seletivo”, diz, Paulo Horto, titular da também paranaense Programa Leilões.

Segundo o empresário, criatórios que instituíram uma marca forte e uma grife com sinônimo de qualidade não sofreram abalo. “Obviamente que os produtores que não atingiram estágio de reconhecimento no mercado sofreram um pouco mais, entretanto, os profissionais que estão focados na produção de touros não obtiveram baixa, tivemos crescimento em praticamente todos os leilões por eles realizados”, afirma.

Até o momento, a leiloeira comercializou cerca de 20 mil touros. Os remates das grandes marcas tiveram médias superior a R$ 10 mil, um crescimento de 3% sobre os R$ 9,7 mil registrados no último ano. “O pessoal que trabalha forte em cima de genética está sendo recompensado. Só venderam abaixo de R$ 8 mil os criatórios que ainda estão construindo marca e posicionamento. Mas no geral eu considero que o resultado foi positivo”, diz Horto.

Novos rumos Diante de tantos trabalhos e estudos que estão sendo realizados nas últimas décadas, em parcerias de empresas, instituições de ensino e até mesmo pecuaristas, os resultados já estão aparecendo. Para Paulo Horto, a percepção é que a cada ano o mercado vem se conscientizando que o touro é uma ferramenta indispensável para o melhoramento genético do rebanho.

Ainda segundo ele, o mais importante é que demanda está respondendo, mas pautada em qualidade. “A genética e a tecnologia são fundamentais para uma pecuária de alto nível. O touro é um melhorador e semeador. Temos de plantar uma boa semente. Uma semente ruim ou misturada não vai dar bons frutos. O produtor está enxergando isso”, destaca Horto.

Para o proprietário da Connect Leilões, a transição dos produtores de Elite para a produção de touros é um caminho sem volta. Conforme ele aponta, é alto o custo para manter os animais em exposições e muitos criadores passaram a oferecer o produto que o mercado procura com um retorno muitas vezes mais rápido. “Existe um déficit alto de touros e os reprodutores avaliados são sempre uma garantia de melhores negócios”, diz Carmo.

O leiloeiro destaca ainda que o uso correto das Diferenças Esperadas na Progênie (DEP) vai levar o pecuarista a tomar decisões que terão impacto direto na lucratividade, mas também aconselha que ele não ignore os aspectos morfológicos na hora de adquirir um touro. “No geral, eu penso que um bom reprodutor deve reunir características como avaliação genética, ser oriundo de um programa de seleção adequado aos objetivos do comprador, que leve em consideração tanto características de peso e carcaça, quanto de reprodução. Na hora da escolha, o pecuarista também precisa conhecer mercado e definir que tipo de animal oferecerá à sua região”, destaca.

Expectativa 2018 Se 2017 não foi um ano favorável para a pecuária, com diversos escândalos políticos e econômicos e, mesmo assim, o setor conseguiu manter-se de pé, 2018 chega com desconfiança, mas com a esperança de prosperidade.

Todos sabem que o desafio não será fácil. Teremos eleições presidenciais, que podem afetar financiamentos e o poder de compra dos produtores, e ainda a Copa do Mundo de futebol na Rússia, que prejudica o calendário. “Ano de Copa do Mundo e eleição sempre interferem no calendário, mas não nos resultados, se levarmos em conta as últimas edições. A expectativa para 2018 é a melhor possível. Creio que esse rearranjo entre os grandes frigoríficos vai se estabilizar, até porque a demanda por carne de qualidade só aumenta e passa necessariamente pela aquisição e criação de touros de qualidade”, diz Carmo.

Paulo Horto compartilha da mesma opinião. Para o proprietário da Programa Leilões, as expectativas para 2018 são positivas. “Esperamos que Brasília deixe o produtor brasileiro trabalhar para que o País possa galopar. Temos condições climáticas e territoriais para ser o grande celeiro do mundo”, diz.

Maurício Tonhá também acredita que 2018 será mais ativo e produtivo com a retomada do crescimento, consumo e aumento nas exportações. “Vejo que o setor já absorveu o impacto da operação Carne Fraca e o Brasil está galgando novos mercados de forma mais profissional. Espero que 2017 sirva de experiência e de alicerce para a retomada de crescimento sustentável”, diz.

O leiloeiro Fábio Crespo acredita que o pior momento já passou e que o Brasil e o setor ganhem novo fôlego em 2018. “Somos sempre otimistas com o futuro. No meu entendimento, já passamos o momento mais difícil. Agora, é olhar para frente e continuar trabalhando”, afirma.

Já Marcelo Silva, da Trajano, é um pouco mais cauteloso. Segundo ele, se não houver nenhuma outra hecatombe, possivelmente o setor manterá as médias no mesmo patamar de 2017. “O problema é a inflação, todos os insumos e medicamentos sobem e o preço do boi continua o mesmo”, finaliza.