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Caprinovinocultura

Estratégias para o crescimento

Caprinovinocultura

Números revelam aumento nos rebanhos de ovinos e caprinos no País nos últimos anos, mas cadeia ainda precisa evoluir em aspectos relacionados à capacitação dos sistemas e à colocação da produção no mercado

Denise Saueressig [email protected]

A trajetória de crescimento dos rebanhos nos últimos anos revela o potencial da caprinovinocultura no País. Estudo divulgado em outubro pela equipe da Embrapa Caprinos e Ovinos mostra que, em 2016, os números das duas espécies alcançaram o mais alto patamar em dez anos. Segundo o trabalho, que considera os dados da Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE de setembro, a população de ovinos chegou a 18,4 milhões de animais no ano passado, registrando incremento desde 2013. Entre os caprinos, o plantel é estimado em 9,8 milhões de cabeças, com expansão a partir de 2012.

Caprinovinocultura

Paulo Schwab, presidente da Arco: produtor precisa de extensão rural que não onere seus custos e que seja direcionada especificamente à atividade

A concentração dos rebanhos no Nordeste faz com que boa parte do que ocorre nacionalmente seja um reflexo do contexto nessa região, detalham os pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos Klinger Aragão Magalhães e Juan Diego Ferelli de Souza. Uma das percepções, de acordo com os especialistas, é de que as consecutivas secas enfrentadas pelos produtores locais provocaram decréscimo na criação de bovinos nos últimos anos. “Dessa forma, as principais razões do crescimento da atividade podem estar ligadas às oportunidades de mercado e também às condições climáticas menos favoráveis aos bovinos, tornando a criação de pequenos ruminantes mais atraente para os produtores da região”, constata Magalhães.

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O Nordeste representa 63% do plantel brasileiro de ovinos e 93% da população de caprinos. Entre os ovinos, os maiores rebanhos estão na Bahia e no Rio Grande do Sul, ambos com 19% de participação cada um. A Bahia também é líder em quantidade de caprinos, com 28% do rebanho, seguida por Pernambuco, com 25,5%.

Diversidade de perfis e de desafios

A pluralidade de perfis é uma das principais características da caprinovinocultura no Brasil. Assim como existem criatórios conduzidos com mais profissionalismo, há situações em que a atividade é apenas complementar na propriedade rural. Os produtos derivados e o mercado consumidor também são diversificados, assim como as dificuldades enfrentadas pela cadeia.

Na etapa produtiva, existe a necessidade de organização da base de fornecimento e o aumento da formalidade formalidade para atender à demanda que existe especialmente pela carne. “A qualificação da mão de obra e da assistência técnica devem ser prioridades, assim como a melhoria da gestão nas propriedades”, destaca Magalhães. Outros passos considerados importantes pela Embrapa são fortalecer a governança territorial da cadeia, garantir de forma sustentável a oferta de alimentos de qualidade e de baixo custo nos sistemas de produção e oferecer cultivares de plantas forrageiras para alimentação dos rebanhos nas diferentes regiões do País.

No caso específico da caprinocultura, os pesquisadores ainda apontam como elementar a expansão geográfica da atividade e o estímulo ao consumo da carne caprina para além do Nordeste. Outro nicho importante e que precisa ser valorizado está localizado no Sudeste, onde estão os criatórios voltados à produção de leite de cabra. Nesses mercados, é possível observar o aumento na procura por alimentos derivados de alto valor agregado, como o queijo.

A necessidade de aprimorar o gerenciamento do negócio é ressaltada pelo coordenador estadual de Pecuária de Corte e Ovinocultura do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Rio Grande do Sul, Roberto Grecellé. “É preciso enxergar a ovinocultura como atividade empresarial que tem condições de remunerar muito significativamente a família do produtor rural”, argumenta.

O presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Schwab, salienta a carência que existe no âmbito da assistência técnica voltada à atividade. “Nossa pesquisa está adiantada, os rebanhos vêm sendo qualificados, mas o produtor, que na maioria das vezes trabalha em pequenas propriedades, precisa de uma extensão rural que não onere seus custos e que seja direcionada especificamente à caprinovinocultura”, afirma. “Considerando aspectos relacionados ao mercado, é necessário ampliar o número de plantas frigoríficas aptas ao abate de ovinos”, complementa.

Também presidente da Câmara Setorial de Caprinos e Ovinos do Ministério da Agricultura, Schwab explica que as discussões em Brasília estão direcionadas a projetos de curto e longo prazos voltados a aspectos sanitários e mercadológicos da cadeia. Uma das conquistas obtidas em 2017 pelo setor foi o anúncio de diferentes linhas de crédito no Plano Agrícola e Pecuário. Os recursos de custeio e investimento com taxas de juros diferenciadas são direcionados para, por exemplo, retenção de matrizes, recuperação de pastagens e aquisição de animais.

Planejamento e esforço conjunto

A cadeia brasileira tem dificuldades para abastecer o mercado durante o ano todo de maneira competitiva, o que abre oportunidades para a importação de carne de países como o Uruguai e o Chile. A ampliação da oferta passa pelo aumento da escala e, consequentemente, da produtividade nas propriedades, analisa Roberto Grecellé, do Sebrae/RS. “De cada 100 ovelhas, precisamos produzir, no mínimo, 100 cordeiros, sendo que o ideal seria entre 120 e 150 cordeiros, o que acredito ser bastante viável com pequenos ajustes em nutrição e manejo dos rebanhos”, enumera.

Embora ainda estejam aquém do ideal, houve evolução nos números em relação à década de 1990, lembra o especialista. Naquela época, a produtividade variava em torno de 50 nascimentos a cada 100 matrizes, enquanto atualmente, os índices ficam entre 75 e 80 crias.

Caprinovinocultura

Nordeste reúne 93% do plantel de 9,8 milhões de caprinos no País. Rebanho de ovinos soma 18,4 milhões de animais com liderança do Rio Grande do Sul e da Bahia

Na opinião do dirigente, nenhum ovinocultor deveria se lançar ao mercado ou realizar investimentos na sua produção antes de ter bem claras as respostas a algumas questões, como: Que tipo de consumidor vai atender e quais as preferências desse público? Em quais épocas do ano falta produto? O mercado a ser atendido está perto ou longe da propriedade? Terá parceiros comerciais capazes de auxiliar com o encaixe da carne produzida? “O sistema precisa ser orientado para um tipo de mercado específico. Não é mais possível produzir e depois pensar a quem vai vender, o que torna o criador refém das oportunidades que aparecem ou não e resulta em preços aquém da expectativa”, conclui.

Para aprimorar os processos da cadeia e facilitar a comercialização da carne, a formação de grupos de ovinocultores é uma das estratégias propostas pelo Programa Juntos para Competir, iniciativa do Sebrae/RS, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/RS) e Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Por meio da atuação em conjunto, os produtores são motivados a realizar compras e vendas coletivas, incrementando a competitividade com melhoria dos preços. “Procuramos criar o espírito do associativismo. Não é fácil, porque requer esforço, alinhamento, visão e muito trabalho. É preciso haver consenso, renúncia, prioridades, e isso nem sempre é fácil para aqueles que até então estavam acostumados a trabalhar sozinhos”, sustenta o dirigente.

Os grupos do Juntos para Competir são formados por cerca de dez produtores que participam de planos de trabalho formulados de acordo com as especificidades de cada propriedade e de cada criador. São consultorias, palestras, viagens técnicas e eventos específicos que atualmente atendem em torno de 650 propriedades voltadas à ovinocultura no Rio Grande do Sul.

Vínculo com o consumidor

Apesar dos inúmeros desafios da cadeia, há avanços significativos que devem ser comemorados e que vão além do incremento quantitativo do rebanho. A evolução de sistemas de confinamento para a terminação de cordeiros e o melhor entendimento do produtor sobre a especialização das raças, assim como a identificação dos mais interessantes cruzamentos entre raças, são determinantes para atender o mercado, que pede carne ovina com regularidade e padronização, avalia Grecellé. “Importante também é o link direto entre ovinocultura e gastronomia. Percebemos um movimento gastronômico liderado por chefs especialistas que servem como entusiastas e promotores do negócio ovino”, observa.

O especialista acredita, no entanto, que são necessárias mais ações qualificadas de divulgação dos derivados da cadeia para estabelecer um vínculo de confiança com o consumidor.