Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Para a pecuária ser competitiva com a agricultura tecnificada, é preciso atingir uma produtividade mínima de 50 @/ha/ano

Carlos Eduardo*

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil ultrapassou a marca de 218 milhões de bovinos no último ano, representando um aumento de 1,4%, quando comparado com o ano de 2015. Apesar de a grande maioria ser criada a pasto, produzindo um animal de baixo custo de produção comparado a países como Estados Unidos e Austrália, os indicadores de taxa de lotação e produtividade brasileiros são considerados pífios, não ultrapassando 1,5 UA/ha e 5 @/ha/ano, respectivamente. O entendimento que se tem por aqueles que utilizam pastos em seus sistemas produtivos é, de maneira geral, de que trabalham de forma extensiva, e que sistemas intensivos são somente utilizados por quem confina o rebanho. Esse conceito foi difundido simplesmente pelo fato da não exploração correta da fertilidade do solo e do manejo das pastagens nas fazendas, refletindo em seu potencial produtivo e obtendo, dessa forma, conclusões errôneas sobre os resultados fornecidos com sistemas desse tipo de exploração. Quando se utilizam conceitos de produtividade em propriedades pelo Brasil afora, é possível observar como é elevado o potencial de sistemas de produção que utilizam as pastagens de maneira adequada. Facilmente são obtidas taxas de lotação que variam de 8 a 12 UA/ha, dependendo da fertilidade do solo, da região do País e se é ou não irrigada, e para incrementar o fato, colhendo um alimento altamente qualitativo, variando de 15 a 18% de proteína bruta e 60 a 65% de NDT (energia). Vivenciando essa situação e levando em consideração a carência que produtores de corte têm na transferência de tecnologia para alavancarem na atividade, não é difícil ouvir em eventos de difusão, a exemplo de dias de campo e palestras, questionamentos de pessoas que atuam no setor como: Por que não utilizar essa técnica, tão difundida na atividade leiteira, para trabalhar intensivamente em sistemas de produção de carne para recria e engorda a pasto? E ao mesmo tempo outra pergunta: Se é tão bom e mais econômico, por que poucos utilizam? Assim nasceu o Programa Arrobaideal, formatado e conduzido com o objetivo de apresentar uma alternativa para a produção de carnes, agindo nos pontos de estrangulamento da maioria das fazendas que trabalham com pecuária no Brasil, podendo ser resumido na gestão da fazenda e no manejo correto dos pastos.

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Gestores do Grupo Cooperideal descobriram uma forma de rentabilizar a pecuária tanto quanto a agricultura. Na foto, Carlos Eduardo, Fernando Baratta, Gustavo Fonseca, Mario Rosa, Fábio Cagnin e Marcelo de Rezende

Quando se atua de maneira adequada na interação “homem x planta x animal”, conseguimos fazer com que a pecuária ganhe competitividade com outras atividades agropecuárias existentes. Tais resultados são provenientes da excelente margem entre o custo de produção da arroba e o preço praticado no momento do abate, mesmo considerando um possível ágio advindo da compra de bezerros caros como ocorreu neste último ciclo no País. Essa margem, que pode ultrapassar mais de R$ 40,00/@, é possível de ser conquistada em função da não utilização de volumosos de cocho na metodologia do programa, tendo como seu alicerce a irrigação como forma de zerar (em parte das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País) a estacionalidade de forragem, mantendo, assim, sua oferta e com um alimento de excelente qualidade, capaz de suprir as necessidades para um GMD de 1 kg/dia, caso haja potencial genético do rebanho. Quando conciliamos um ganho de peso satisfatório, juntamente com uma alta taxa de lotação, temos como consequência uma elevada produtividade do sistema, podendo atingir até 100 @/ha/ano, conforme tabela a seguir:

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Como podemos verificar na tabela, somente o ganho de peso elevado não é capaz de atingir níveis considerados bons de produtividade, sendo, portanto, necessário se trabalhar em conjunto com a capacidade de suporte, atingindo assim uma quantidade maior de arrobas produzidas na mesma área. Entretanto, somente é possível atingirmos níveis elevados nesse índice, o ano todo, em regiões onde a influência do frio e do fotoperíodo é mínima ou nenhuma, o que gera condições plenas para que a forragem irrigada exerça todo seu potencial produtivo. Dessa forma, as regiões aptas para esta situação se encontram em parte do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País, onde as temperaturas mínimas não caem a 15 graus e a quantidade de luz fica próxima de 3.000 horas por ano. Ou seja, quanto mais ao Sul, menores são as condições de trabalharmos com altas taxas de lotação (média ano), mesmo em sistemas irrigados, contudo, há a possibilidade de se trabalhar com animais com melhor potencial genético e com suplementação concentrada, minimizando o problema para obtenção de elevadas produtividades.

Para sermos competitivos com a agricultura tecnificada, na qual se encontram propriedades que trabalham com safra e safrinha e alcançam uma margem bruta (receitas menos as despesas operacionais) de R$ 2.000,00/ha/ano, temos a necessidade de atingir uma produtividade de, pelo menos, [email protected]/ha/ano que, multiplicado pelo valor que colocamos de margem (R$ 40,00/@), atingimos os mesmos R$ 2.000,00/ha de margem bruta. Quando trabalhamos com sistemas confinados e uma recria intensiva na época das águas, atingir [email protected]/ ha/ano, com lavouras de milho bem conduzidas, nem é tanto o problema. A situação se complica quando viramos os olhos para o restante que, em função de um sistema mais oneroso, dificilmente atingirá R$ 40,00 por arroba produzida, a não ser por um ganho diferenciado na venda do animal. Esse fato tem sido, aliás, uma alternativa em busca de melhoria da eficiência na geração de receita das fazendas, focando em ações de certificação de raças em conjunto com a rastreabilidade, bem como parcerias com boutiques de carne, novidade no País. Todavia, quantas propriedades são capazes de introduzir esse sistema de negócio? Quantos pecuaristas estão inseridos próximos a frigoríficos que pagam a mais por carnes certificadas e rastreadas? Fica claro que este é um segmento para uma pequena parcela dos produtores brasileiros, tendo a maioria, portanto, que se tornar eficientes da porteira para dentro e, assim, atingir resultados satisfatórios em suas propriedades.

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Case da Agropecuária Arrobaideal

Com a oportunidade de compra de uma propriedade nos chamados Tabuleiros Litorâneos, em Parnaíba/PI, o Grupo Cooperideal iniciou um processo de busca de crédito para montar a estrutura de seu primeiro pivô central em uma área de 40 ha, dos 142 ha disponíveis da fazenda. A escolha da localidade deu-se, além do preço da terra na época, pela condição climática que é favorável à produção de capim 365 dias do ano. À primeira vista, a análise física do solo assustou os gestores em função da quantidade de areia presente (mais de 86%), bem como seu baixo teor de matéria orgânica (apenas 1,7%). Sem alternativas de resíduos orgânicos na região, os responsáveis não titubearam em plantar uma leguminosa antes para elevar, mesmo que de forma baixa, a quantidade de material orgânico no solo, resultando assim em uma melhoria da fertilidade para então receber o capim mombaça, escolhido para ser ofertado aos animais. Após o plantio, foi decidido dividir a área em dois sistemas de pastejo, contendo, cada um, 12 piquetes, que foram planejados para suprir a necessidade dos animais para algo em torno de 48 horas, utilizando o critério de oferta de forragem e altura de pastejo, sendo mensuradas a cada entrada e saída dos animais. A decisão de dividir o círculo do pivô em dois módulos foi baseada na necessidade de separarmos os animais em lotes, diminuindo assim o atrito entre os bois em função de um maior reconhecimento entre eles, além de facilitar a própria divisão de piquetes, dando a possibilidade para que, com corredores centrais, tivessem um formato mais regular, facilitando assim a uniformidade de pastejo do lote.

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O custo de produção para o lote de 2016 foi de R$ 102,00/@, sendo que 1/3 do valor foi gasto em insumos que são aplicados via fertirrigação, 1/3 com mão de obra e taxas locais (manutenção do perímetro irrigado) e outro 1/3 com as demais despesas (energia elétrica, sal mineral, medicamentos, combustível e impostos). Como podemos verificar, o custo de produção operacional significou apenas 68% do preço praticado, gerando um indicador de despesas sobre receitas confortável. Já o preço da arroba praticada em 2017 foi de apenas R$ 135,00, resultando em um valor 9% menor que o ano de 2016. Contudo, como houve aumento da taxa de lotação, conseguimos diminuir o custo operacional em função da diluição de gastos como mão de obra e taxas, fazendo com que a margem mantivesse um valor de 30% do negócio, dando condições para que o produtor se proteja de oscilações do mercado, como houve, bem como sobras para pagamento de depreciação e remuneração do capital investido. E é este o intuito do Programa Arrobaideal, fornecer condições de produzir, mesmo em épocas de instabilidade de preços praticados, situação que fornece ao produtor condições de se manter na atividade, sustentado por uma boa gestão e custos operacionais enxutos, capazes de suprir as exigências do mercado em momentos delicados como os atuais.

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*Carlos Eduardo é engenheiroagrônomo da Cooperativa para Inovação e Desenvolvimento da Atividade Leiteira (Cooperideal)