Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

Setor cresce

Confinamento

Em 2017, confinamento fechou com crescimento de 5%, considerando os dados de associados da Assocon

Bruno Andrade*

A pecuária de corte é uma atividade realmente impressionante. Para começar, está presente em todos os mais de 5 mil municípios brasileiros, gera 7 milhões de empregos e coloca 9,5 milhões de toneladas de carne no mercado interno e internacional. Segundo estimativas, há mais de 1,3 milhão de produtores que vivem da atividade, entre pequenos, médios e grandes. Trata-se de uma das mais importantes cadeias de produção de alimentos do Brasil, que movimenta cerca de R$ 70 bilhões dentro das fazendas e mais de R$ 500 bilhões envolvendo todos os segmentos.

Por conta desses números, o sobe e desce do mercado impacta diretamente muita gente, incluindo produtores, indústria frigorífica, fornecedores de insumos (genética, nutrição, sanidade) e de equipamentos.

Se os preços do boi gordo estão elevados ao pecuarista, ele aumenta o abate – inclusive de fêmeas. Se as cotações do boi gordo recuam, ele desacelera o crescimento do seu projeto. Mais do que nunca, a relação de oferta e procura age com rapidez e pode levar os envolvidos a ganhos elevados ou a prejuízos igualmente sensíveis.

Ser profissional na pecuária deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade. É preciso estar atento ao mercado, analisar com atenção a oferta de insumos, a demanda interna e a evolução das vendas internacionais.

Todos os fatores importam. A correta, rápida e eficaz interpretação dos sinais do mercado e ações efetivas – como participação na bolsa de mercadorias – podem salvar o ano.

Como toda atividade mercadológica, a pecuária também sofre os impactos positivos e negativos conjunturais. E, convenhamos, 2017 não ficará na memória dos pecuaristas como um período muito positivo. Afinal, foi um ano de altos e baixos.

No seu início, o cenário econômico era o que mais preocupava, pois o Brasil vinha de dois anos de desaceleração econômica, com recuo de cerca de 8% do PIB. É uma queda e tanto. Economia encolhida é sinal de redução das compras (e a carne bovina é uma das proteínas mais caras), assim como provoca desemprego, redução de poder aquisitivo e perda de competitividade.

Porém, o ano também trazia fatores positivos, como a expectativa de boa safra de grãos – o que se confirmou. Preços baixos para milho e soja soam como música para os pecuaristas que investem em terminação intensiva. De fato, podemos dizer que os insumos se comportaram bem durante o período, não sendo o centro das preocupações dos produtores. Pelo contrário, acabaram contribuindo positivamente para superar as adversidades, em que pese a redução da demanda interna por carne.

Além de economia fraca, que sempre segura o consumo doméstico, o primeiro semestre de 2017 foi marcado pela operação Carne Fraca (março), polêmica do Funrural, bloqueio das exportações aos Estados Unidos e delações envolvendo o maior frigorífico do País.

Injustamente, a Carne Fraca jogou lama sobre toda a atividade. Na sequência, ficou claro que os problemas destacados eram apenas pontuais, mas o estrago fora feito, com redução das vendas internas e reflexos negativos nas exportações.

O Funrural ainda preocupa, uma vez que o passivo interfere diretamente no caixa dos produtores e também da indústria frigorífica. Esperamos que essa questão tenha final feliz.

Já as delações dos irmãos Batista realmente deixaram o mercado sem guia. Em um primeiro momento, os negócios recuaram, depois voltaram à normalidade, mas a oscilação de preços impactou negativamente a atividade.

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Bruno Andrade aponta que é preciso estar atento ao mercado, analisar a oferta de insumos, a demanda interna e a evolução das vendas internacionais

Para um mercado tão sensível quando o do boi gordo, esses tipos de ocorrências representam uma tragédia. E isso se confirmou com a queda dos preços no final do 1º semestre.

Felizmente, as cotações foram aos poucos se recuperando, porém, ainda não nos níveis pré-Carne Fraca. O fato é que, como houve redução dos abates – e, portanto, da compra de gado – em algumas regiões, fazendo com que a indústria tivesse mais vantagem na negociação com os produtores. Redução de abates e aumento de oferta são a combinação perfeita para a queda dos preços, especialmente num mercado em que o consumo interno não evoluiu como o esperado.

redução das cotações de um lado e o poder de negociação das indústrias de outro levaram a um inesperado e bem-vindo aumento das exportações de carne bovina. A partir de junho, os volumes e a receita, que estavam baixos, começaram a subir, motivados pelos preços competitivos da nossa carne no mercado internacional. O faturamento do ano atingiu US$ 6 bilhões, o que é uma notícia excelente para toda a cadeia produtiva. É U$ 1 bilhão a mais do que em 2016.

tenha sido plenamente satisfatório ao pecuarista, o segundo semestre de 2017 reservou algumas surpresas, além do aumento das vendas externas. Obviamente que o Brasil possui inúmeros tipos de pecuária. Os números da Assocon mostram isso. Considerando por exemplo os números do confinamento, houve casos de produtores que auferiram retorno por animal de -R$ 175,00 a até +R$ 245,00. Quanto mais próximo dos insumos ou dos melhores preços pagos ao boi gordo, melhor foi o resultado desse pecuarista.

Dessa forma, o confinamento em 2017 fechou com crescimento de 5% em volume em relação ao total produzido em 2016, considerando os dados de associados da Assocon. É um aumento modesto, dentro da média histórica, mas ainda assim um incentivo à produção intensificada.

O maior número de animais confinados mais uma vez ficou concentrado no segundo semestre de 2017. Muitos produtores atrasaram a decisão em colocar o gado no cocho. Entretanto, conforme o mês de julho de 2017 foi chegando ao fim, observou- se reação no mercado físico e futuro. Poderíamos ter produzido mais animais no confinamento, entretanto, a “janela” técnica para que isso ocorresse já estava se fechando.

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O aumento de produtividade é essencial para a sobrevivência dos pecuaristas

É sabido que a maior parte dos confinamentos não possui estruturas para operar no período das águas e, assim, deixar para colocar animais no confinamento em meados de setembro e outubro pode ser arriscado. Também, deve-se considerar a ligeira elevação de alguns insumos, que diminuíram essa atratividade da engorda em determinado momento.

Nesse ambiente, 2018 é muito bem-vindo. E estou otimista. A julgar pelos dados disponíveis, não deverá haver redução significativa de oferta de grãos, especialmente o milho. Entretanto, se considerarmos o levantamento da Conab, é possível que a primeira safra de milho venha com 15% de redução. Essa queda poderá dificultar um pouco a vida do confinador, especialmente no 1º semestre do ano. Assim, uma vez que seja observado aumento desse insumo, ainda que pontual, vale a pena garantir sua compra, caso seja necessária, já no começo de 2018 – além, é claro, de observar as oportunidades que se apresentarem no mercado futuro para milho e boi gordo.

As exportações também devem manter o ritmo de crescimento, contribuindo decisivamente para escoar a carne produzida pela indústria. Mesmo o mercado interno tem boa expectativa de recuperação. Tratase de um processo que ocorre mais lentamente, mas é gradativo e muito bem-vindo. O brasileiro é apaixonado por carne bovina, teve de reduzir o consumo momentaneamente, mas voltará a comprar como sempre fez. Com a recuperação dos empregos e equilíbrio da economia, há mais recursos nas mãos dos consumidores e isso contribui positivamente para a retomada.

Esse cenário não quer dizer, necessariamente, preços elevados e firmes para o boi gordo durante todo o ano. A combinação de fatores é positiva, mas também temos de analisar que a oferta de gado deve crescer, inclusive motivada pelo maior abate de fêmeas. Na verdade, tudo dependerá da velocidade de recuperação da demanda interna. Se esse processo for mais rápido, os preços do boi devem favorecer mais os pecuaristas.

Fica claro que o aumento de produtividade é essencial para a sobrevivência dos pecuaristas. Se a fazenda não der lucro, o custo da terra pressiona as despesas totais, o que pode levar ao arrendamento para outras atividades, como grãos, ou até a venda. Os produtores precisam ter isso muito claro. Não dá mais para trabalhar no vermelho. É preciso ter lucro.

Para isso, é preciso investir em novas tecnologias para ganhar escala, reduzir o tempo de abate e terminar o gado melhor. A genética, a nutrição, a sanidade e a gestão progrediram e progridem muito. Há muita inovação à disposição dos pecuaristas. Em genética, há vários programas de melhoramento sérios e com resultados para mostrar. Em nutrição e sanidade, a indústria desenvolve novas soluções para contribuir para o bom desenvolvimento dos bovinos. Em gestão também evoluímos muito, porém, ainda há espaço para crescimento.

Todos esses avanços estão conectados à profissionalização da atividade. Não dá mais para correr riscos desnecessários. É preciso estar sintonizado com o mercado, ser rápido nas decisões e controlar a emoção, característica que sempre marcou a pecuária.

cadeia produtiva da carne bovina também pode contar com a Assocon. A entidade atua em várias frentes para proporcionar melhores condições de trabalho não apenas para os pecuaristas, mas para todos os demais agentes. Temos um programa de qualidade de carcaças, participamos de grupos de trabalho com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para definição da classificação, tipificação de carcaças e rotulagem de produtos cárneos e estamos atentos à questão da pesagem do gado nos frigoríficos para tornar a relação produtor/indústria mais transparente. Afinal, é necessário retirar da frente esses pequenos problemas que impactam o relacionamento comercial transparente entre indústria e produtor. Temos um projeto de treinamento de mão de obra das propriedades, necessário para instruir corretamente como utilizar todas as tecnologias disponíveis. Também trabalhamos para trazer ao País novas tecnologias em termos de pastagens, saúde e melhoria de desempenho.

*Bruno Andrade é gerente executivo da Associação Nacional da Pecuária Intensiva – Assocon.