Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Ciclo Pecuário

Entenda a economia na pecuária

Ivan Wedekin*

O primeiro estudo sobre o ciclo de preços da pecuária completou 40 anos. Foi publicado na Agroanalysis em maio de 1977 e escrito por Paulo Rabello de Castro, então coordenador do Grupo de Informação Agrícola (GIA) da Fundação Getúlio Vargas/RJ. O GIA foi patrocinado pelo Banco Central para criar uma “indústria de informação e análises” sobre os mercados e a economia agrícola no Brasil.

A posição do Brasil no ranking mundial da carne bovina é destacada: segundo maior produtor; quarto mercado consumidor; primeiro exportador (em quantidade, ao lado da Índia) e 19º importador (dados do Usda para 2016).

Quatro décadas depois, as estatísticas da pecuária continuam precárias. O tamanho e a composição do rebanho ainda constituem um “buraco negro” informacional. Os indicadores de produtividade – tão comuns nas lavouras – são escassos e de difícil apuração no setor pecuário.

falta de estatísticas tempestivas sobre a oferta (rebanho, abate, peso das carcaças) e a demanda (especialmente vendas no atacado e no varejo) transforma a viagem da pecuária em um “voo no escuro”. A escuridão também ocorre na “microeconomia da firma”, na falta de controle do pecuarista tradicional sobre receitas, custos, despesas e retorno sobre o capital.

A economia da pecuária é complexa e desafiadora: o curto, o médio e o longo prazos se interrelacionam, existindo fatores internos e externos de influência direta e indireta sobre os preços, com efeitos imediatos ou defasados, permanentes ou temporários sobre o mercado.

A volatilidade (VOL) mede a variação dos preços de uma mercadoria. Quanto maior a VOL, maior é o risco de preço. Por isso, os agentes econômicos contratam seguro de preço (hedge) através de contratos futuros e de opções para se protegerem dos riscos. O mercado de boi gordo ficou menos instável nos últimos anos: a volatilidade média foi baixa, em torno de 10% ao ano no período 2010- 2017. A VOL do bezerro é de 17%, enquanto a da soja e do milho está em torno de 23%. Conclui-se que há uma maior VOL e risco de preços no mercado de reposição de bovinos e nas operações dos confinadores (devido às variações nos preços relativos dos animais e nos custos da ração).

OS FENÔMENOS DE PREÇOS DA PECUÁRIA

Na pecuária, ocorrem três fenômenos de preços, que se entrelaçam: sazonalidade, ciclo e tendência (movimento de longo prazo). A sazonalidade decorre do fato de que a pecuária é uma produção a céu aberto, influenciada pelos períodos de seca e de chuva.

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A tecnologia e a intensificação produtiva (como os confinamentos e a integração entre lavouras, pecuária e florestas) reduzem a sazonalidade dos preços, tal como ocorreu nos últimos vinte anos (Figura 1). A variação sazonal dos abates no período mais recente (2007-2016) é menor do que a de 1997-2006. Nos primeiros dez anos, o índice de sazonalidade oscilou entre o mínimo de 89 (em fevereiro) e o máximo de 109 (em dezembro), com oscilação de 25% entre os limites. No período 2007-2016, a variação ficou entre 93 (em fevereiro) e 104 (em dezembro); a oscilação (12%) foi a metade do período anterior. Com o deslocamento dos abates do primeiro para o segundo semestre, é preciso rever o velho jargão de safra (1º semestre) e entressafra (2º semestre).

Para efeitos didáticos, existem pelo menos seis tipos de condicionantes do ciclo da pecuária, que promovem efeitos sobrepostos e cumulativos: os índices zootécnicos, as condições climáticas, a dupla aptidão das fêmeas, os preços e as expectativas sobre os preços; a estrutura de mercado e as variáveis econômicas.

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Segundo Ivan Wedekin, a lição maior das crises de 2017 é que o Brasil precisa ter controles rigorosos, qualidade de produto e estabilidade na oferta décadas à frente

Os índices zootécnicos são os determinantes fundamentais da produtividade global dos fatores de produção da pecuária. Eles condicionam o tempo necessário entre o nascimento de uma fêmea e o envio de sua primeira cria para o abate. Como o período de prenhez é rígido, o encurtamento do ciclo depende de aumentar a eficiência entre o nascimento da cria e o abate. Além dos aspectos quantitativos, o mercado impõe também a necessidade de ganhos de qualidade do produto final (a carne).

O clima afeta o ciclo pecuário, dependendo da intensidade dos períodos de chuva e seca, e da estrutura do produtor. A produção de bovinos é lastreada na produção das pastagens e, em menor escala, no confinamento de animais, que é influenciado pelas safras de milho, sorgo, soja etc. e pela produção de derivados do beneficiamento e do processamento agroindustriais.

A dupla aptidão das fêmeas é elemento central no ciclo da pecuária. Quando vai para o abate, a vaca transforma-se em bem de consumo, a carne. Por outro lado, é um bem de capital quando destinada à produção de bezerros. A variação da quantidade de carne produzida a partir do abate de fêmeas (vacas e novilhas) é o grande vetor da alta ou baixa dos preços dos bovinos (Figura 2).

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Os preços e as expectativas são relevantes na pecuária, devido ao nítido processo de inter-relacionamento da matriz com suas crias futuras. O preço das vacas depende das expectativas sobre o preço do boi gordo no futuro, ou seja, quando as crias estiverem prontas para abate. No início de uma fase de baixa no ciclo de preços do boi gordo, os pecuaristas tendem a projetar essa tendência declinante, formando expectativas pessimistas para o futuro. Nessa fase, diminui o estímulo à criação, assim uma maior quantidade de vacas e novilhas é destinada para os frigoríficos, o que aumenta ainda mais a oferta de carne, reforçando a queda de preços para toda a pecuária. Essa queda de preços confirma justamente as expectativas iniciais e, dessa forma, mais fêmeas são enviadas à matança.

As expectativas estão associadas, também, a outro fenômeno de preços no âmago da pecuária. Os preços das vacas e dos animais mais jovens variam mais do que os preços do boi nas fases de alta e de baixa do ciclo pecuário. O boi gordo é o produto final, mas os preços dos bezerros, dos garrotes e dos bois magros no presente (período t) incorporam as expectativas nos períodos t + 1, t + 2, e assim por diante. Quando o ciclo é de alta, o preço desses animais jovens apresenta um ágio em relação aos preços do boi gordo. Ou seja, a alta de preços é tão mais pronunciada quanto mais jovem for o animal. Na fase de baixa do ciclo, se dá contrário: o preço do bezerro é o que mais cai em termos relativos.

A estrutura de mercado, o grau de concentração e a existência de poder de mercado pelas empresas atuantes podem influenciar o nível de preços em um setor da economia. No caso da pecuária, as análises realizadas indicam que o atacado é o elemento central na formação dos preços. O pecuarista é tomador de preços do atacado. O varejo demora, em média, três meses para absorver uma variação (de alta ou de baixa) dos preços da carne bovina no atacado. Dessa forma, a análise dos preços no ciclo da pecuária deve considerar esses aspectos ligados à transmissão de preços e que, inclusive, afetam os valores relativos entre as categorias animais.

As variáveis econômicas impactam os preços de mercado dos bovinos, através de influências nos fatores de demanda (renda, salários) e de oferta (custos, juros).

Produtores, analistas e a mídia clamaram que os impactos dos fatos extraordinários de 2017 (a “Operação Carne Fraca” da Polícia Federal em 17/03 e a “Delação da JBS” em 16/05, entre outros) equivaleriam ao “fim do mundo” na pecuária. No final das contas, a queda em torno de 9% no preço médio do boi gordo em 2017 ficou dentro da normalidade. O fato é que, desde o segundo semestre de 2015, os preços do boi entraram em uma fase de baixa. Assim, o diário de bordo da pecuária deve sempre ser analisado no contexto estrutural. Os reflexos serão sentidos em 2018, quando serão determinantes os números do abate de fêmeas.

A lição maior das crises de 2017 é que o Brasil precisa fazer a coisa certa, ter controles rigorosos, qualidade de produto e estabilidade na oferta, por décadas à frente.

ORGANIZAÇÃO INDUSTRIAL

A carne bovina vem perdendo espaço. A produção brasileira cresceu apenas 0,2% ao ano no período 2010-2016. Tal fato está relacionado à organização industrial. A menor competitividade decorre do fato de que pecuária é muito tolerante à convivência de sistemas produtivos com elevados desníveis de produtividade (Figura 3).

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Eis o grande dilema: a tolerância mantém os preços do boi gordo mais altos do que deveriam ser para enfrentar com maior poder de fogo a concorrência das carnes de aves e de suínos.

O desafio da pecuária passa pela intensificação dos sistemas produtivos para aumentar a produtividade (arrobas/ha/ano) e a maior rentabilidade do capital empregado. O problema (a baixa produtividade média) é, ao mesmo tempo, a solução. O Brasil é um dos poucos países do mundo com elevado potencial de reduzir os desníveis de produtividade ilustrados na figura. Esta é a maior credencial que habilita o Brasil a ter a maior pecuária de corte do mundo.

O futuro já começou: além da inevitável “transformação da pecuária tradicional”, a integração de atividades propicia a oportunidade de um “casamento por puro interesse” entre a pecuária e a produção vegetal.

*Ivan Wedekin é diretor da Wedekin Consultores - [email protected]