Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Bezerro

Reposição: desafio para uns, oportunidade para outros

Com demanda enfraquecida e oferta acumulada, o cenário foi de cotações pressionadas negativamente. Já para o recriador, a relação de troca foi melhor

Breno de Lima*

O período entre 2014 e 2015 registrou os maiores preços para o bezerro desde o início do Plano Real. Em função disso, cresceu a retenção de fêmeas para a produção de bezerros, movimento que durou até 2016, quando então a cotação desandou.

Considerando o período de gestação e de amamentação, os bezerros produzidos pelas vacas e novilhas nesse período chegaram ao mercado a partir de 2016. O aumento da oferta fez com que a cotação caísse e assistimos o início do ciclo de baixa nos preços. A cotação dos bovinos para reposição caiu.

Desse modo, em 2017, embora se esperasse um ano desafiador para o criador, a situação ficou pior por causa dos escândalos ligados à denúncia dos irmãos Batistas, donos da JBS.

Correlação com boi gordo

O mercado de reposição é altamente correlacionado com o mercado do boi gordo. Quando os preços da arroba estão em alta, recriadores investem na compra de bovinos para a reposição do rebanho. Com maior demanda, o volume de negócios aumenta e as cotações ganham firmeza. E o contrário também é verdadeiro.

Em 2017, a cobrança do Funrural, a operação Carne Fraca e as delações dos executivos da JBS, provocaram desvalorizações da arroba do boi gordo e instauraram um cenário de incertezas sobre o futuro do mercado pecuário no curto prazo. Com o mercado do boi gordo incerto, recriadores ficaram na defensiva e não se lançaram às compras, derrubando a liquidez do mercado.

Bezerro

E, como se não bastasse a desvalorização natural que o bezerro carregava desde 2016, devido ao ciclo de baixa vigente, a demanda enfraquecida colaborou com o acumulo de oferta, contribuindo ainda mais para a pressão negativa sobre as cotações. Acompanhe na figura 1 que, entre janeiro e julho, meses nos quais foram registrados os menores patamares de preços para o bezerro, no ano, as cotações acumularam desvalorização de 18,6%.

Note que a partir de julho a curva de preços mostra uma reversão da tendência de queda para as cotações, voltando a ganhar firmeza. A janela entre o primeiro giro o segundo giro de confinamento fez a oferta de boiadas diminuir entre julho e outubro.

Com isso, a arroba do boi gordo ganhou sustentação e subiu, “embalando” novamente a cotação do bezerro. Entretanto, vale destacar que, apesar das altas, o volume de negócios não evoluiu no mesmo ritmo.

As pastagens com menor capacidade de suporte, devido ao período seco do ano, foram fatores limitantes para os negócios. Ou seja, a injeção de ânimo para a compra de bezerros veio somente através dos preços. O aumento do volume de negócios ocorreu somente nas categorias mais eradas, para giro rápido.

Relação de troca

O invernista que terminou sua boiada este ano carregou um estoque de gado caro em sua fazenda, dado que esses animais foram comprados entre 2014 e 2015, período em que o preço do bezerro estava historicamente elevado.

Contudo, a queda da cotação da arroba do boi durante grande parte de 2017, tornou a liquidação do estoque “caro” a melhor alternativa. Produto caro no pasto, perdendo valor e sem perspectiva de melhora no mercado, não deixa outra opção a não ser acelerar a venda. Ainda mais quando se tem oportunidade de repor com a cotação do bezerro mais baixa dos últimos três anos.

Bezerro

Veja na figura 2 a relação de troca entre a arroba do boi gordo e a cotação do bezerro desmamado ([email protected]) em 2017.

Quem renovou estoque em 2017, viu seu poder de compra aumentar em relação a 2016. Isso porque a cotação da arroba do boi gordo cedeu menos que a do bezerro de desmama. Em São Paulo, considerando os valores deflacionados pelo IGP-DI, de janeiro de 2016 a meados de novembro de 2017, a cotação da arroba do boi gordo caiu 10,3% e a do bezerro de desmama ([email protected]), 18,8%.

O pecuarista que investiu na recria, em janeiro de 2016, precisou vender 9,03 arrobas de boi gordo para comprar um bezerro de desmama. Em 2017, mais precisamente em outubro, com 1,45 arroba a menos, comprou a mesma quantidade em bezerro.

Expectativa

O momento é de baixa, depois de o criador vivenciar em dois anos os melhores patamares de preços para o bezerro, nos últimos 20 anos. Para 2018, a expectativa é de que a oferta de bezerros continue crescente, pois em 2016 foram abatidas menos fêmeas que em 2015.

Com isso, na estação de monta daquele ano, mais vacas e novilhas estiveram disponíveis para reprodução do que em de 2015. Os bezerros gerados com essa retenção de matrizes serão desmamados e chegarão ao mercado em 2018, o que tende a pressionar, as cotações.

A quantidade de fêmeas abatidas no primeiro semestre de 2017 foi maior que no primeiro semestre do ano passado, o que mostra a tendência de menor oferta de bezerros a partir de 2019, movimentação que molda o ciclo pecuário de preços.

O bezerro é o principal item de custo dentro do sistema de recria/engorda. Com preços decrescentes para a reposição, está possível iniciar a operação “menos pressionado”, o que certamente facilitará a apuração de resultados.

Produzir menos quando se paga menos pela produção é a pior coisa a fazer pensando na saúde financeira do sistema, seja ele de cria, recria ou engorda. A sugestão para lidar com o mercado em anos de baixa é manter o nível de investimento para aproveitar o mercado quando ele se recuperar.

*Breno de Lima é zootecnista e analista na Scot Consultoria