Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Abate de Bovinos

Frigoríficos saem das compras em 2017

Além das fêmeas, uma parcela a mais de machos que não foram confinados pelas incertezas de 2017 também deve chegar ao gancho até o final da safra, entre abril e maio de 2018

Hyberville Paulo D’Athayde Neto*

Após anos de crise, 2017 começou com a expectativa de ser um ano calmo para a pecuária, com maior oferta de bovinos para abate, e possivelmente com um consumo de carne bovina em recuperação.

Mas faltou combinar com os russos. Ou melhor, faltou combinar com todo mundo, porque a quantidade de pancadas que a pecuária recebeu em 2017 foi impressionante, mesmo para um País que sofrera com surtos de aftosa (2005) e frigoríficos quebrando (2009), entre outras mazelas.

TURBULÊNCIA

A operação Carne Fraca, deflagrada em março de 2017, desencadeou uma forte pressão de baixa pelos frigoríficos, devido às dúvidas quanto à demanda internacional, e mesmo doméstica. Obviamente, também houve oportunismo e os preços foram profundamente pressionados.

Esse fato pode ser avaliado pela margem de comercialização da indústria, que, apesar dos percalços, trabalhou em patamares historicamente interessantes. Entre março e junho de 2017, por exemplo, frigoríficos que desossam trabalharam com margem de comercialização de 29,2% (Equivalente Scot Desossa), valor 10,8 pontos percentuais acima da média histórica, cujo percentual é de 18,4%, considerando o período desde meados de 2007.

De toda forma, o mercado sentiu. Frigoríficos saíram das compras, as cotações do boi gordo cederam e muitos produtores deixaram de vender, à espera de preços melhores.

Com isso, o abate de bovinos caiu 15,4% em abril de 2017, frente ao mesmo mês de 2016. Foi a maior queda para o abate em um mês, na comparação ano a ano, desde abril de 2009. Veja a figura 1.

Abate

Em março e maio, o abate foi 8% e 6,9% maior, respectivamente, na comparação ano a ano. Com a retenção de fêmeas observada entre 2014 e 2016, realmente o esperado para 2017 era uma oferta maior. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram abatidos 14,8 milhões de bovinos no primeiro semestre de 2017, queda de 0,8%, na comparação com o mesmo intervalo de 2016.

CONFINAMENTO, CHUVAS E SAFRA

A retração da cotação da arroba do boi gordo no primeiro semestre afetou os preços do mercado futuro. Além da Carne Fraca, o Funrural voltou à cena, o que gerou um ajuste negativo nas cotações futuras, que são apresentadas livres do imposto. Em maio, a delação dos diretores da JBS chacoalhou a economia e a política, deixando especialmente tenso o mercado do boi gordo.

Em meados de março, antes da Carne Fraca, a cotação do boi gordo na B3 para o mês de outubro estava em R$ 142,00, à vista, e despencou para abaixo de R$ 118,00/@ em 21 de junho (B3).

Essa queda afetou fortemente o confinamento de bovinos. Em boa parte das simulações de resultados não havia expectativa de lucro, tendo como base os preços futuros até meados de julho. A retomada das cotações, iniciada no final de junho, continuou até meados de agosto, com os preços para outubro acima de R$ 140,00/@, à vista.

Com atratividade limitada, o volume de boiadas no cocho foi menor no primeiro ciclo e para o segundo, embora crescente, também foi modesto. Esse gado que não foi confinado deverá ser terminado em pastagens entre o final de 2017 e começo de 2018, na safra.

Aqui temos outro detalhe a ser comentado sobre 2017. A chuva atrasou em boa parte das regiões do Brasil Central, o que afetou a recuperação das pastagens e, consequentemente, a engorda do gado.

Isso deve gerar uma oferta maior ao longo dos primeiros meses de 2018, com destaque para a desova de final de safra, com a chegada da seca, o que normalmente ocorre entre abril e maio.

CICLO PECUÁRIO

Até esse ponto, abordamos os fatores novos, adicionados à conjuntura em 2017. Eles geraram e devem gerar ainda, no curto prazo, efeitos sobre a oferta de boiadas.

Em uma visão mais longa, temos de analisar os movimentos do ciclo de preço pecuário, que geram oscilações de oferta, tanto de machos como de fêmeas, influenciadas pelas fases de investimento e desinvestimento na atividade.

Entre 2014 e 2016, com o cenário atrativo para a venda de bezerros, houve redução no abate de fêmeas, com retrações anuais de 2,1%, 15,8% e 4,1%, em 2014, 2015 e 2016, respectivamente. O abate de machos caiu 1,2%, 5,1% e 2,6%, na mesma ordem.

Em fase de alta de preços, como foram os últimos anos, a rentabilidade da cria atrai o produtor para a atividade. Consequentemente, há investimento na produção, retenção de novilhas e vacas, com o objetivo de aumentar a produção, que está rentável.

Esses movimentos de diminuição da oferta de fêmeas e novilhas acaba afetando a disponibilidade de carne, colaborando com a firmeza do mercado, que já estava atraente.

Contudo, com o passar dos anos, a produção de bezerros aumentará, depreciando as cotações dos bovinos para reposição e a rentabilidade da cria, levando mais fêmeas para o gancho e gerando pressão sobre as cotações, tanto dos bovinos terminados como os de reposição.

Essa relação entre a participação de matrizes e de machos no abate e a cotação está demonstrada na figura 2.

Abate

Observe que, entre 2013 e 2015, a cotação do boi gordo esteve em alta, enquanto a participação de fêmeas no abate de bovinos caiu.

EXPECTATIVA

Para 2018, a expectativa é de oferta maior de bovinos, tanto para reposição como para abate.

É esperado um cenário de preços pouco atraentes para a venda de bezerros, o que motiva a oferta de vacas e novilhas para abate, culminando em mais disponibilidade, principalmente no primeiro semestre.

Além das fêmeas, uma parcela a mais de machos que não foram confinados por causa das incertezas vividas em 2017 também deve chegar ao gancho até o final da safra, entre abril e maio de 2018. Isso, além do volume crescente produzido devido à fase do ciclo. O que pode amenizar o impacto de uma oferta maior para abate seria o consumo.

Embora o grau de incertezas permeando o cenário político e econômico esteja elevado, no início de novembro, as expectativas de mercado (Relatório Focus de 03/11, do Banco Central) apontavam para um crescimento de 2,50% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, após um ajuste modesto de 0,73% em 2017.

É cedo para estimativas econômicas apuradas, ainda mais quando consideramos que teremos eleições presidenciais, mas a visão comum é que a tendência para a economia é positiva e o pior da crise ficou para trás.

*Hyberville é médico-veterinário, mestre em Administração de Organizações e possui MBA em Gestão Financeira