Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Na Varanda

Quem manda na família
Uma reflexão natalina!

Em sua sétima edição, a PCAD é a porta de entrada para o Programa de Avaliação de Touros Jovens

Na

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

Ultimamente o assunto da sucessão tem ocupado espaço crescente nas conversas familiares. Como dizem os especialistas, a comunicação é a chave-mestra para desvendar o labirinto de conflitos, tanto os legítimos quanto os malignos. Aproveitando a época especial do ano, quero compartilhar com o amigo leitor o resultado de uma longa conversa com um produtor sobre a nova forma de convivência. Resumindo o assunto: quem manda em “quem” e “no quê” hoje em dia?

No passado, quem mandou foram os pais, nomeadamente, o pai, pois mandava porque pagava as contas, e pronto. Em outra oportunidade, avaliaremos se foi só o pai-patriarca mesmo ou se não foi também a “dona” da casa, que, com seu jeito sutil, mas eficaz, tinha um impacto fundamental naquilo que se fazia na família e no negócio.

Hoje, com uma percepção mais democrática da vida e das pessoas e talvez também por uma maior influência maternal na gestão do dia a dia, muitas vezes ocorre o contrário. Quem manda são os filhos (ou um deles). Manda, porém, não paga. Tudo bem, tempos novos, regras novas. Como isso aconteceu? Talvez por uma combinação de 3 fatores. Os pais trabalhavam duro e queriam que os filhos tivessem uma vida melhor. Na escola, a moda da educação antiautoritária desmontou o velho modelo da ordem das coisas. No entanto, entre não castigar fisicamente e chamar a atenção para a responsabilidade de seus atos existe um longo caminho e muitas opções de orientação. A psicologia evidencia que jovens testam constantemente limites para definir espaço. Se hoje (quase) tudo é permitido ou perdoado, o último teste dos limites da vida para os jovens não seria o uso de drogas? A crescente onda de suicídios pode servir como indicador para essa dificuldade do jovem de encontrar uma posição saudável e de equilíbrio na sociedade. Vejam que se relata na imprensa internacional sobre o “burnout”, um fenômeno de depressão autodesenvolvido.

Nas últimas décadas, os filhos foram idealizados e mimados. No entanto, quando eles entram na faculdade, ou seja, eles se chocam com a realidade de serem apenas “pessoas normais”, sem privilégios fantásticos que acreditavam possuir. A vida real deles começa com uma bela frustração.

Quando o número de filhos oscilava entre 5 e 10 jovens em casa, a vida já começava com a necessidade de cada um afirmar seu lugar. Com 1 a 2 filhos, o tratamento passa a ser de privilégio. Até os chineses tiveram de rever essa política que era necessária, mas destrutiva para os jovens. O fato é que quem manda hoje na família são os filhos. Eles decidem o que e quando se come, quais os aparelhos da TV e dos smartphones se compram.

A mudança de comportamento foi a seguinte: antigamente os filhos aprenderam a obedecer, e com a crescente integração na vida produtiva, assumiam o papel de comando. Um processo natural e saudável. Pois, quem nunca obedeceu dificilmente será eficiente quando tiver de comandar.

Mas a geração Y já nasceu e cresceu mandando. Como será quando eles, após a conclusão da formação profissional e saindo do lar, tiverem de enfrentar os ventos gélidos da concorrência na vida profissional? Ninguém inicia carreira como chefe. Durante um bom período precisará obedecer a ordens. Engolir frustrações não esteve no cardápio da educação familiar nem na realidade da escola.

Mas existe ainda outro problema. Um dia, esses jovens, se forem bem sucedidos como técnicos ou empreendedores, deverão comandar. No entanto, na economia do conhecimento com total mobilidade, o funcionário assumiu um papel quase de sócio. Ele precisa ser convencido, orientado e motivado. Porém, esses jovens, que sempre mandaram de forma autocrática e ameaçando, como irão mudar o estilo do hard para o soft? Como eles irão aprender a olhar primeiro para as necessidades e habilidades das pessoas para só depois desenhar como essas expectativas das pessoas poderão ser alinhadas às necessidades de um negócio em constante transformação e crescente competitividade?

Infelizmente, não preparamos nossos filhos para esses novos desafios. Assim, eles vão aprender sozinhos. Isso às vezes pode se tornar caro e frustrante para todos, inclusive aos empregados e parceiros do negócio em geral.

E somente para arrematar. O problema de educação falha não está apenas limitado à excessiva liberdade no lar, nem ao novo sistema confuso nas escolas; a própria Constituição de 1988 pavimenta o caminho para uma sociedade de facilidades. Especialistas indicam um conjunto de 106 direitos na Magna Carta brasileira enquanto só constam menos de meia dúzia de responsabilidades. Temos um País com todas as riquezas para aproveitar as demandas globais, mas precisamos repensar o nosso modelo de gestão, na família, na empresa e na esfera pública.