Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Caindo na Braquiária

Querido diário!

Caindo

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]

Dia 18 de janeiro – O dia amanheceu chuvoso, o que nos deixa felizes por vermos o pasto crescer, a lavoura de milho embonecar e todas as amigas fortes com muito leite para amamentar bem os bezerros, os quais estão grandinhos e têm um apetite voraz, não largando o peito para nada. Esses pequenos “parasitas” (apenas brincadeira) só param de mamar para reclamar da chuvarada. Certamente, esses amados bezerros entenderão no futuro que cair água do céu faz parte de um ciclo natural do clima aqui do Centro-Oeste.

Dia 10 de fevereiro – Que sol magnífico fez hoje, pudemos esquentar nossas entranhas e ver as colhedeiras de forragem começarem o trabalho de ensilagem da roça de milho, que deve produzir muito neste ano. Meu pequeno filho cresceu bastante e começa a me dar um pouco de sossego, pastando em boa parte do tempo as pontas desse Mombaça delicioso. Já não era sem tempo, pois meus peitos não enchem como há alguns meses atrás. Outra coisa, estão jogando ureia nos pastos de toda a fazenda, dizem que faz bem para o capim, aumentando muito a produção.

Dia 25 de abril – O veterinário chegou cedinho e já estávamos no curral para que nos palpasse. As novilhas que não estão acostumadas ficaram bravas com todo esse movimento, achando que iriam machucá-las, mas, no decorrer do dia, viram que, com o novo manejo racional adotado pelos peões para nos conduzir, tudo foi tranquilo, liberando o grupo delas logo após nosso lote. Ah, inclusive, confirmaram que estou prenhe desde a inseminação ocorrida em novembro. Aliás, já sabia disso há muito tempo, pois meu leite diminuiu e engordei bem nessas últimas semanas. Algumas colegas foram embarcadas em um caminhão grande, e não faço ideia para onde foram levadas. As más línguas dizem que, por estarem vazias, foram engordadas para serem abatidas. Não acredito!

Dia 15 de maio – Voltamos hoje ao curral para a vacinação de aftosa. Nunca tive essa doença, ou melhor, na verdade nunca vimos alguém do grupo com ela. Dizem que a boca fica toda machucada e não se consegue comer direito. Fomos vacinadas e vermifugadas a fim de enfrentar melhor a época da seca.

Ao final de tudo, estávamos sem nossos bezerros, que beiram seus 200 kg e se viram sozinhos. Foi uma choradeira daquelas. Fiquei um pouco triste, mas faz parte do jogo, pois estou com prenhez avançada e não aguentava mais amamentar, precisando secar para guardar energias para a próxima cria que se aproxima. Nossos filhos que nasceram ano passado já são uns marmanjos. Estão com 18 meses e foram tirados do pasto e levados para o confinamento. Isso que é vida, não precisam ficar andando atrás de comida, tem um garçom que traz a comida prontinha para eles em um vagão forrageiro. Vida boa!

Dia 17 de junho – Começaram a picar a cana, e agradecemos muito, pois passar a seca somente com pasto seco (chamam de bucha, pois aquilo parece uma de tão seca) e sal proteinado é difícil. Estou com a barriga grande e o bezerro, lá dentro, cresce muito agora e preciso comer bem, portanto, essa cana vem a calhar.

Vi meu filho que foi desmamado há pouco mais de um mês, ele nem se deu conta de mim, virou um bonito bezerro.

Dia 20 de agosto – Pari meu 5º bezerro, pretinho e com um pouco de pelo, como de costume. Dizem que é de uma raça que todos gostam. Depois que ele levantou e mamou meu colostro, fomos conduzidos calmamente ao curral, onde meu bezerro teve seu umbigo curado e foi vermifugado. As novilhas que também estão parindo estranham um bocado por serem brancas e suas crias nascerem pretas, todavia, com muito amor e boas lambidas elas se tornam muito amáveis, sendo ótimas mães no final.

Dia 22 de outubro – Até que enfim o capim começou a crescer rápido, pois minha cria está com dois meses e mama o dia todo sem parar, estou ficando fraca, precisando de capim de qualidade para suprir minhas necessidades. Iniciou-se o processo de inseminação, e já estou com um implante hormonal dentro de mim. Em oito dias voltarei ao curral para retirada desse dispositivo intravaginal (que incomoda bastante!) para receber outra injeção de hormônios e, por fim, ser inseminada. Os marmanjos do confinamento ficaram gigantes, nem parecem aqueles que entraram em maio. Foram também vendidos e embarcados não sei para onde.

Dia 17 de novembro – A turma mais nova foi levada ao curral para ser vacinada e vermifugada e nossa turma de vacas também foi vermifugada. Na hora, a picada dói um pouco. Sei de sua importância para poder se aproveitar melhor essa belezura de pastagens.

Dia 24 de dezembro – Enfim, os touros se juntaram a nosso grupo para que possam confirmar nossas prenhezes. São namoradores esses caras. O que não gosto é de vê-los brigar por nós. Faz parte da época de acasalamento. Como já sei que emprenhei por inseminação, eles não me atazanarão nos próximos meses.

Esse diário é uma breve homenagem que expressa minha gratidão pelas vacas, às quais devo minha vida profissional.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]