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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

Iluminada

A rentabilidade histórica impulsiona o plantio e a produção de soja na agricultura brasileira em 2020/21. Bem capitalizado, o produtor vai semear a mais extensa área até hoje e, com o clima ajudando, deverá colher a maior safra de todos os tempos. Os bons preços aceleraram a comercialização antecipada, enquanto as exportações também são históricas. Há produtores vendendo a safra a ser plantada em setembro de 2021

Dylan Della Pasqua
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Números recordes. Nos últimos anos, o sojicultor brasileiro aprendeu a lidar com quebra de patamares. Mas, para 2020/21, a combinação não poderia ser melhor: demanda crescente e vendas antecipadas de duas temporadas a preços nunca atingidos. Diante desse cenário, a pandemia do coronavírus, que atingiu a economia global, passou despercebida no campo. Os produtores brasileiros de soja deverão cultivar 37,804 milhões de hectares em 2020/21, a maior área da história, crescendo 1,8% sobre o total semeado na safra anterior, de 37,152 milhões. A projeção faz parte do levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado.

Com uma possível elevação de produtividade, de 3.379 quilos para 3.501 quilos por hectare, a produção deve ficar acima da obtida nesta temporada. A previsão inicial é de 131,691 milhões de toneladas, 5,4% maior que o recorde de 124,913 milhões obtido em 2019/20. “Mais uma vez, a ótima rentabilidade anotada na cultura surge como o grande fator de incentivo para a elevação da área brasileira. Com um consumo interno crescente e exportações cada vez mais fortes, a oferta de soja na nova temporada deverá alcançar um novo recorde”, destaca o analista de Safras & Mercado Luiz Fernando Roque.

Apesar disso, na nova temporada, o aumento da área de soja poderá não ser tão expressivo como em temporadas anteriores. Isso deve ocorrer porque outras culturas também registraram boas rentabilidades em 2020, devido, principalmente, à forte valorização do dólar frente à moeda brasileira. “Além disso, a ótima rentabilidade da pecuária brasileira, também com exportações crescentes em 2020, surge como fator limitante para transferências maiores de áreas de pastagem para lavouras na nova temporada”, complementa Roque.

No Sul, as fortes perdas registradas no Rio Grande do Sul na safra 2019/20 naturalmente diminuíram a capitalização dos produtores. Frente a isso, a área gaúcha deverá crescer em um ritmo mais lento, com os produtores atentos também à possibilidade da chegada de um novo La Niña. No Centro-Oeste e no Sudeste, permanece a tendência de centralização da produção da safra de verão sobre a soja, com os produtores reservando mais áreas destinadas ao milho para a safrinha.

No Norte e no Nordeste, aberturas de áreas deverão ocorrer principalmente sobre pastagens degradadas, com destaque para o Pará. A consolidação das exportações pelos portos do Arco Norte também surge como incentivo para os produtores da região. “Se o clima permitir, o Brasil irá colher uma nova produção recorde de soja na safra 2020/21, consolidando- se como o maior produtor e exportador mundial da oleaginosa”, conclui o analista.

Embarques aquecidos

As exportações deverão totalizar 83 milhões de toneladas em 2021, subindo 2% sobre o volume de 2020, projetado em 81 milhões. “Com o Brasil provavelmente colhendo nova safra recorde em 2021, as exportações devem continuar crescendo, diante de uma demanda chinesa firme”, avalia o analista Roque. Segundo ele, a demanda por biodiesel e por exportação de carnes deverão levar a um maior esmagamento. “Com isso, os estoques tendem a continuar apertados”, completa. Safras indica esmagamento de 45 milhões de toneladas em 2021 e de 44 milhões em 2020, representando um aumento de 2% entre uma temporada e outra. Em relação à temporada 2021, a oferta total de soja deverá subir 3%, passando para 134,026 milhões de toneladas. A demanda total está projetada por Safras em 131,6 milhões de toneladas, crescendo 2% sobre o ano anterior. Dessa forma, os estoques finais deverão subir 11%, passando de 2,185 milhões para 2,426 milhões de toneladas. Safras trabalha com uma produção de farelo de soja de 34,6 milhões de toneladas, com aumento de 2%. As exportações deverão cair 1%, para 16,7 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno está projetado em 17,2 milhões, aumento de 4%. Os estoques deverão subir 38%, para 2,529 milhões de toneladas. A produção de óleo de soja deverá subir 2%, para 9,1 milhões de toneladas. O Brasil deverá exportar 760 mil toneladas, com queda de 20% sobre o ano anterior. O consumo interno deve subir de 8,23 milhões para 8,4 milhões de toneladas. O uso para biodiesel deve subir 6%, para 4,55 milhões de toneladas. A previsão é de recuo de 6% nos estoques, para 167 mil toneladas.

Importações

Com o aperto na oferta e o forte ritmo da comercialização registrado até agosto de 2020 no Brasil, as indústrias processadoras de soja e tradings, principalmente no Sul, estão procurando soja no Paraguai. “Está se confirmando um sentimento que já vínhamos trabalhando em nossas análises”, avalia Roque, que acredita que o volume importado – não só do Paraguai – poderá chegar a 1 milhão de toneladas.

“Seria um total de compras inédito. Mas é possível que esse número seja alcançado”, projeta Roque. Ele lembra que quase toda a safra 2019/20 já havia sido negociada no início de agosto, bem acima da média para o período, que é de 75%. “Claro que as indústrias ainda têm um certo estoque. O País não esmagou tudo isso, não exportou tudo isso, mas o grande fator para ter pouca soja disponível foi a exportação”, complementa.

O ritmo dos embarques no primeiro semestre de 2020 foi muito forte, superando todas as expectativas. O Brasil exportou 60,35 milhões de toneladas de janeiro a junho, 38% acima dos 43,728 milhões de toneladas exportados no mesmo período de 2019. O analista ressalva que a compra de produto no Paraguai é procedente em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul. “Nesses estados que fazem fronteira com o país vizinho, o custo logístico faz sentido”, explica, destacando a situação dos compradores gaúchos, que enfrentaram uma quebra na safra e têm necessidade de trazer soja de outros estados e de outros países.

Roque lembra que esse movimento de compra nos países vizinhos ocorre sempre, mas não nos volumes de 2020. “Este ano terá esse crescimento por causa da pouca oferta disponível para o resto do ano. O preço do Brasil vai continuar sustentado, e a indústria vai correr para garantir o abastecimento no mercado interno, porque exportou demais no primeiro semestre.”

O analista destaca, ainda, as movimentações washout, recompra de volumes que eram de exportação por parte da indústria para abastecer o mercado interno no final do ano. “Há consultas de indústrias e traders para garantir o abastecimento interno.” Roque lembra, também, que o esmagamento continua firme no Brasil, principalmente em função das exportações de carnes. “Os embarques de proteína crescem cada vez mais, tanto para a China como para outros países. Esse fator traz força para o esmagamento e explica também a maior importação neste ano”, acrescenta. Outro ponto que precisa ser levado em conta é a necessidade de insumo para produção de biodiesel, para cumprir as metas de B12. O Rio Grande do Sul é um dos principais produtores de biodiesel. Como houve uma boa demanda nos leilões, esse é um fator que ajuda a elevar o esmagamento doméstico, aumentando o interesse dos compradores brasileiros na oleaginosa do Paraguai.

Pandemia

No auge das preocupações com o coronavírus, o ritmo dos embarques brasileiros seguiu dentro da normalidade, em meio à pandemia e todas as suas consequências para a economia com o isolamento social e também em meio às restrições determinadas por uma série de países. “As exportações permaneceram normais. Tivemos aquelas ameaças de paralisação no Porto de Santos/SP em março, mas nada se confirmou.” Na avaliação de Roque, o Governo fez o possível e evitou as paralisações das operações em portos. “Os embarques estão normais, o que aconteceu foi um pouco de atraso. Uma parte dessas operações previstas para março foi deslocada para abril e assim por diante, mas nada que comprometesse o volume que o Brasil vai exportar na temporada. Foram poucos cancelamentos, uma que outra carga foi cancelada”, resume o analista .

Comercialização

A comercialização da safra 2019/20 de soja do Brasil envolve 95,7% da produção projetada, conforme relatório de Safras & Mercado, com dados recolhidos até 7 de agosto de 2020. No relatório anterior, com dados de 3 de julho, o número era de 92,9%. Em igual período do ano anterior, a negociação envolvia 78%, e a média para o período é de 81%. Levando-se em conta uma safra estimada em 124,913 milhões de toneladas, o total de soja então negociado é de 119,578 milhões de toneladas.

A venda antecipada para 2020/21 pulou de 39,8%, no início de julho, para 43,3% no início de agosto. A comercialização da safra futura estava bem acelerada na comparação com o ano anterior, quando o índice era de 15,7%, e também supera a média normal para o período, de 16%. Com a próxima safra projetada em 131,691 milhões de toneladas, o total então comprometido por parte dos produtores chegava a 57,049 milhões de toneladas antes mesmo do início do plantio.

“A comercialização está naturalmente evoluindo de forma mais lenta frente aos meses anteriores, devido ao pouco volume disponível para o restante dessa temporada e ao grande volume já antecipado da nova safra”, explica o analista de Safras, Luiz Fernando Roque. Segundo ele, os produtores começam a focar nos preparativos do plantio da temporada 2020/21, que se inicia em setembro.

Preços a níveis históricos

A explicação para esse ritmo intenso na comercialização da soja, envolvendo vendas antecipadas até para 2021/22 – que tem o plantio marcado apenas para setembro de 2021 –, é a rentabilidade. O comportamento dos preços atingiu níveis históricos. No Porto de Paranaguá/ PR, por exemplo, a saca chegou a trocar de mão acima de R$ 125,00 no mercado disponível. Acompanhando a evolução do preço médio na região fica mais nítido esse desempenho altamente remunerador.

Em janeiro, a saca teve preço médio de R$ 87,70 em Paranaguá, segundo levantamento de Safras & Mercado. De lá até agosto de 2020, a média subiu mês a mês, com um pequeno recuo registrado apenas de maio a junho. Em julho, o preço médio bateu em R$ 116,20. A valorização no ano atingiu 32,5%.

O comportamento apresentado nos portos foi semelhante no mercado físico. Em Rondonópolis/MT, a saca teve média de R$ 78,90 em janeiro. Em julho, a cotação pulou para a casa de R$ 110,15, acumulando uma valorização de 39,6%. A elevação nos preços internos foi determinada, principalmente, pela questão cambial. A média do dólar comercial era de R$ 4,15 em janeiro. Em julho, a moeda americana teve média de R$ 5,28. Em maio, o dólar encostou na casa de R$ 6,00. Entre a média de janeiro e a de julho houve uma valorização de 27,2%.

USDA

O relatório de agosto de 2020 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicou que a safra norte-americana de soja deverá ficar em 4,425 bilhões de bushels em 2020/21, o equivalente a 120,43 milhões de toneladas, acima da estimativa anterior, de 4,135 bilhões ou 112,54 milhões. O mercado apostava em safra de 4,278 bilhões de bushels, ou 116,43 milhões de toneladas.

Os estoques finais estavam estimados em 610 milhões de bushels, ou 16,6 milhões de toneladas. O mercado apostava em carryover de 527 milhões, ou 14,34 milhões de toneladas. No relatório anterior, os estoques estavam projetados em 425 milhões de bushels – 11,57 milhões de toneladas.

O USDA indicou esmagamento em 2,180 bilhões de bushels e exportação de 2,125 bilhões. Em julho, as projeções eram de 2,160 bilhões e 2,05 bilhões, respectivamente. A produção 2019/20 está estimada em 3,552 bilhões de bushels. Os estoques finais em 2019/20 estão projetados em 615 milhões de bushels, dentro do esperado. No relatório anterior, o número era de 620 milhões. O esmagamento está estimado em 2,16 bilhões, e as exportações, em 1,65 bilhão de bushels.

Mais importações chinesas

O relatório projetou safra mundial de soja em 2020/21 de 370,4 milhões de toneladas. Em julho, o número era de 362,52 milhões de toneladas. Os estoques finais estavam estimados em 95,36 milhões de toneladas. O mercado esperava por estoques finais de 98,2 milhões de toneladas. Em julho, a previsão era de 95,08 milhões. A projeção do USDA aposta em safra americana de 120,4 milhões de toneladas. Para o Brasil, a previsão era de uma produção de 131 milhões de toneladas, e a Argentina deverá produzir 53,5 milhões de toneladas. A estimativa para as importações chinesas em 2020/21 é de 99 milhões de toneladas, contra 96 milhões no ano anterior.

Para 2019/20, o USDA indicou safra de 337,28 milhões de toneladas. Os estoques finais estavam projetados em 95,85 milhões de toneladas, enquanto o mercado apostava em 98,6 milhões. A safra brasileira teve sua estimativa mantida em 126 milhões de toneladas, enquanto o mercado previa número de 125,4 milhões. A safra argentina foi reduzida de 50 milhões para 49,7 milhões de toneladas, enquanto o mercado trabalhava com 49,9 milhões. As importações chinesas foram elevadas de 96 milhões para 98 milhões de toneladas