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Boi Gordo

Oferta restrita, exportações ampliadas

A demanda interna de carne bovina foi reduzida pela crise da pandemia, mas a menor oferta de bois para o abate e os embarques aquecidos têm dado suporte ao setor. Em junho de 2020, a exemplo, o valor médio da arroba já alcançava o recorde de R$ 205,78 em São Paulo, com tendência de valorização ainda maior para o segundo semestre. Já as exportações são históricas: no primeiro semestre, foram 7,8% superiores com relação ao mesmo período de 2019

Arno Baasch
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O mercado brasileiro de carne bovina vivencia um 2020 bastante desafiador. Se, por um lado, a crise provocada pela pandemia do coronavírus reduziu em parte a demanda interna, por outro, o quadro de oferta mais restrita de animais prontos para o abate e o ótimo movimento de embarques vêm garantindo um cenário de suporte ao setor.

Dados de Safras & Mercado apontam que a produção de carne bovina ao longo do primeiro semestre de 2020 atingiu pouco mais de 5,427 milhões de toneladas, levemente acima da registrada nos seis primeiros meses do ano anterior, de 5,423 milhões de toneladas. “A produção se mostrou bem equilibrada, mas houve um declínio considerável na demanda por carne bovina, diante dos efeitos econômicos gerados pela pandemia de coronavírus, com o agravamento das taxas de desemprego”, afirma o analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias.

Outras dificuldades no âmbito doméstico vieram com as medidas de distanciamento social, o que levou ao fechamento de restaurantes, escolas e outros estabelecimentos, mudando a “cara” do consumo no Brasil, que passou a ser centrado em proteínas animais mais acessíveis ao bolso do consumidor, a exemplo da carne de frango, de cortes do dianteiro bovino e de ovos.

Os efeitos das medidas de distanciamento social no Brasil foram sentidos de forma direta no mercado de carne bovina. “Mesmo que alguns estados estejam em um processo de retomada gradativa das atividades, o consumo de carne bovina não estará mais no mesmo patamar visualizado antes da pandemia”, avalia.

Iglesias salienta que os preços médios dos cortes bovinos traseiros vendidos no atacado de São Paulo vinham numa ascendente até o final de 2019, em um patamar de R$ 17,07 por quilo, mas passaram a recuar a partir de janeiro, atingindo o menor patamar em maio, de R$ 13,42, bem no auge do período de restrições. “Em junho e julho, os preços já sinalizaram uma recuperação, reflexo da retomada das atividades econômicas em parte do País”, explica.

Para os cortes de dianteiro bovino, o movimento de preços indicou que o patamar mínimo foi observado em janeiro, de R$ 10,72/quilo. “Nos meses seguintes, os preços atingiram patamares maiores e foram se mantendo acima de R$ 11,33 por quilo. Em julho, a cotação atingiu o seu pico, de R$ 12,62, o que mostra os sinais de uma demanda bem efetiva para esses tipos de corte bovino”, analisa.

Menos confinados

analista destaca que a oferta de animais confinados em 2020 tende a ser menor frente à de 2019, o que ajuda a explicar o cenário promissor para os preços da arroba do boi mesmo em um ano tão desafiador. Iglesias comenta que, no primeiro giro de 2020 (de maio a julho), foram confinadas 1,53 milhão de cabeças de gado, volume 2,66% inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior, de 1,578 milhão de cabeças. “A decisão, por parte do pecuarista, para o primeiro giro ocorreu entre fevereiro e março, período em que os preços do boi estavam menos atrativos”, explica.

Para o segundo giro de confinamento, a tendência também é de um declínio frente a 2019, em razão dos custos mais elevados do milho e do farelo de soja, insumos necessários para a nutrição animal. “Para o segundo giro, o número de animais confinados é estimado em 3,58 milhões de cabeças, volume 2,77% aquém do alcançado em 2019, de 3,682 milhões de cabeças”, pontua.

Mais exportações

Um outro fator de suporte aos preços da arroba em 2020, conforme Iglesias, está na forte demanda externa para a carne bovina. Levantamento de Safras & Mercado apontou que, no primeiro semestre, o Brasil exportou 1,328 milhão de toneladas de carne bovina, volume que supera em 11,27% as 1,194 milhão de toneladas embarcadas no período de janeiro a junho de 2019.

Iglesias ressalta que o saldo das exportações vem sendo muito positivo no ano, com a China importando volumes substanciais de carne bovina. “O objetivo dos asiáticos é preencher a lacuna de oferta decorrente da peste suína africana. Esse movimento ganhou consistência ao longo do segundo trimestre, período em que a China retomou suas compras de maneira mais efetiva, após ter enfrentado dificuldades no primeiro trimestre devido às restrições das atividades decorrentes da pandemia de coronavírus”, ressalta.

O analista lembra que a China chegou a enfrentar uma escassez de contêineres frigoríficos no primeiro trimestre, período em que as medidas de isolamento social ocorreram de forma mais dura no país. “A China respondeu por 40% dos embarques brasileiros de carne bovina em 2020, adquirindo 536,132 mil toneladas de janeiro a junho. Se acrescentarmos o volume importado indiretamente pela China por meio de Hong Kong nesse mesmo período – que somou 197,212 mil toneladas –, essa participação chega a 55%”, analisa.

Com o bom volume de carne bovina embarcado na primeira metade de 2020, a disponibilidade interna ficou em 3,322 milhões de toneladas, volume 3,9% abaixo do verificado entre janeiro e junho do ano passado. “Essa menor oferta disponível no mercado doméstico ajuda a explicar as razões pelas quais a arroba do boi em São Paulo mantém valores muito interessantes para o pecuarista. Após atingir um pico médio de R$ 205,38 em dezembro de 2019, a arroba iniciou 2020 num patamar de R$ 194,99 e, desde então, não parou mais de subir. Em junho, o valor médio da arroba já alcançava a marca recorde de R$ 205,78 no mercado paulista, com uma tendência de valorização ainda maior para o segundo semestre”, sinaliza.

Iglesias acredita que o Brasil deverá manter um cenário bastante aquecido nas exportações ao longo do segundo semestre de 2020. As estimativas de Safras & Mercado sinalizam que o Brasil deverá embarcar ao redor de 1,510 milhão de toneladas na segunda metade do ano, volume que deve superar em 5,01% as 1,438 milhão de toneladas exportadas no mesmo período de 2019. Para todo o ano, a previsão é de que os embarques alcancem 2,839 milhões de toneladas de carne bovina, com um crescimento de 7,8% frente às 2,632 milhões de 2019.

O analista destaca que o ritmo de embarques poderá ser menos expressivo em relação ao primeiro semestre diante de algumas preocupações em relação à China e ao seu posicionamento no mercado, exigindo regras mais rígidas para importação de proteínas animais. “O país passou a exigir a testagem de produtos para verificar se estão livres de contaminações por coronavírus e chegou a suspender compras de unidades frigoríficas de países que foram afetados pela enfermidade, como Brasil, Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Índia”, explica.

Apesar disso, Iglesias entende que dificilmente os chineses deixarão de comprar volumes expressivos de carne bovina e de outras proteínas animais de seus principais fornecedores, em meio ao expressivo déficit de oferta existente no rebanho de suínos daquele país por conta da peste suína africana. “Um outro fator ligado às exportações de carne bovina diz respeito ao aumento da escalada de tensões entre Estados Unidos e China, que pode resultar em uma tomada de posicionamento do Brasil nessa disputa. O ideal seria manter uma neutralidade nessas questões, uma vez que a China é o principal cliente de nosso País”, pontua.

Demanda doméstica deverá melhorar

O analista acredita que, por conta dos sinais de retomada da atividade econômica no Brasil, a demanda doméstica por carne bovina deve melhorar até o final de 2020, mantendo os preços aquecidos. “É possível que, no último trimestre do ano, a economia já esteja reaberta ou em processo de reabertura em boa parte do País, o que deve fomentar em uma melhora no consumo, embora não em patamares iguais aos verificados antes da pandemia”, afirma.

Outro ponto que tende a ser positivo aos preços da carne bovina é o clima seco observado na Região Centro-Oeste, o que leva a um quadro de piora nas pastagens e de ausência na oferta de bois a pasto aptos para o abate no último trimestre de 2020, mantendo um quadro de oferta restrita.

A expectativa de Safras & Mercado é de que a produção de carne bovina no segundo semestre de 2020 fique em 4,771 milhões de toneladas, 1,49% abaixo da registrada na segunda metade de 2019, de 4,883 milhões de toneladas. Com isso, o volume total produzido no ano deve chegar a 9,298 milhões de toneladas, 0,7% aquém das 9,366 milhões alcançadas em 2019.

Iglesias sinaliza, ainda, que a disponibilidade interna de carne bovina no segundo semestre deverá atingir 3,278 milhões de toneladas, 4,23% menor que a registrada no mesmo período do ano anterior, de 3,423 milhões. No total do ano, a oferta interna deverá ser 4,1% inferior frente à verificada em 2019, de 6,795 milhões de toneladas, atingindo 6,490 milhões de toneladas.