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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Algodão

Muito estoque, poucas certezas

A pandemia afetou em cheio o consumo doméstico e global de algodão nesta temporada. Apesar de as vendas antecipadas salvarem os produtores e o dólar ajudar nas exportações, a área da safra 2020/21 vai encolher em 4,4%. Os produtores alegam dúvidas sobre o mercado internacional, o consumo em queda e a elevação dos estoques de passagem

Rodrigo Ramos
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O algodão é uma das commodities mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus. Como o vestuário não é um bem de primeira necessidade, é o que mais sofre com a crise econômica gerada pela doença. “Ao contrário da comida, uma pessoa pode ficar um ano sem comprar uma roupa”, exemplifica o analista de Safras & Mercado Élcio Bento. Internamente, os danos à indústria têxtil brasileira são bastante sentidos. “Para a temporada 2020/21, o consumo interno deve cair para os níveis de 1984/85, ficando em 640 mil toneladas, ante 680 mil toneladas em 2019/20”, lamenta Bento. Nesse contexto, os estoques de passagem da temporada 2019/20 devem ser de 700 mil toneladas, ante 414 mil em 2018/19. “Com o consumo doméstico em baixa, vamos precisar exportar muito”, pondera o analista. Com uma produção de 2,88 milhões de toneladas de pluma na safra 2019/20, a oferta total deve chegar a 3,6 milhões de toneladas. Na temporada 2019/20, as exportações atingiram 1,9 milhão de toneladas. “Nossa capacidade logística foi testada, mas pode estar no limite”, adverte. “Devemos exportar novamente um volume recorde na temporada 2020/21, mas não há dúvidas que a logística é um dos principais gargalos”, frisa. Conforme Bento, o Brasil perde competitividade frente a outros países exportadores devido à distância dos portos. “Ainda que o custo do frete não seja tão significativo no caso do algodão.”

Produção americana inferior

O relatório de julho de 2020 de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estimou a produção de algodão daquele país na temporada 2020/21 em 17,5 milhões de fardos, ante 19,5 milhões no relatório anterior. Para a safra 2019/20, são esperados 19,91 milhões de fardos. As exportações deverão ficar em 15 milhões de fardos em 2020/21, ante 16 milhões no mês de junho. O consumo interno foi previsto em 2,8 milhões de fardos para 2020/21, mesmo nível do relatório anterior. Baseado nas estimativas de produção, exportação e consumo, os estoques finais norte-americanos foram previstos em 6,8 milhões de fardos para a temporada 2020/21, contra 8 milhões estimados no mês anterior. Para a safra 2019/20, são esperados 7,1 milhões de fardos. O relatório não chegou a ser uma surpresa ao mercado, ao reduzir a safra e os estoques norte- americanos para a temporada 2020/21. Mas foi bastante positivo aos preços. “Com a queda na área no último relatório de plantio dos EUA, já era esperado um ajuste”, destaca o analista Bento. “Se o clima continuar complicado no Texas, podemos ter uma redução maior na safra, o que traria suporte aos preços”, pondera. Outro ponto positivo apontado por Bento é que a China deve retomar um bom ritmo de compras na próxima temporada. Como o Brasil vai precisar exportar como nunca, pois vai gerar um excedente de 2,3 milhões de toneladas de algodão em pluma, qualquer retomada chinesa é vista com bons olhos. “Vale ressaltar que, apesar da dependência chinesa, o Brasil também tem conseguido exportar bons volumes para países periféricos”, lembra. Ao todo, o país exportou para 51 destinos na temporada. “Mas é claro que os principais seguem sendo a China, o Vietnã, a Indonésia e a Turquia”, exemplifica.

Se o País seguir competitivo no mercado internacional, o analista acredita que as exportações para a Ásia devem ganhar fôlego a partir de agosto. “A situação do coronavírus está mais tranquila por lá, o que facilita as aquisições deles”, lembra.

O câmbio elevado tem mantido a competitividade brasileira no cenário internacional, com a cotação do dólar acima de R$ 5,00. “Se estivéssemos com a moeda norte-americana a R$ 4,00, o preço doméstico teria que cair muito para seguir competitivo. Tudo isso é importante para não elevarmos ainda mais nossos estoques, que já subiram de 300/400 mil para 700 mil toneladas”, salienta. Mas não é só o Brasil que precisa exportar muito. “Os Estados Unidos necessitam negociar mais de 3 milhões de toneladas no mercado externo”, ressalta, já que o consumo interno é de apenas 600 mil toneladas, inferior, inclusive, ao brasileiro.

Área brasileira menor

A área plantada com algodão no Brasil em 2020/21 deverá ser de 1,573 milhão de hectares, recuando 4,4% com relação à de 2019/20, de 1,645 milhão de hectares. A previsão é de Safras & Mercado, que divulgou sua intenção de plantio dia 17 de julho de 2020. A indicação inicial é de um avanço de 3,28% na produtividade, que passaria de 1.763 quilos para 1.821 quilos por hectare. Com isso, a produção poderá atingir 2,865 milhões de toneladas – que seria uma retração de 1,2% na comparação com o ano anterior, de 2,9 milhões de toneladas. Para o analista Élcio Bento, entre os motivos apontados pelos produtores como inibidores de uma maior aposta em algodão estão as incertezas relacionadas ao mercado internacional, o consumo interno em queda e a recente elevação dos estoques de passagem. “Além disso, reportam que, atualmente, a soja e o milho têm preços que garantem uma maior margem em relação aos custos de produção”, explica. Nesse contexto, aqueles produtores que não têm uma estrutura direcionada ao cultivo de algodão, e que, nos últimos anos, vinham migrando para a cultura de olho na rentabilidade atrativa, podem retornar para os grãos.

Salvo pelas vendas antecipadas

“Até o momento, o setor produtivo de algodão não tem sentido os efeitos da pandemia da Covid-19 na rentabilidade, pois já havia negociado boa parte da safra antes do agravamento da expansão do novo coronavírus e vem se beneficiando pela forte desvalorização do real em relação ao dólar”, pondera Bento.

Contudo, com o comércio internacional ainda precisando se recuperar do tombo causado pela Covid-19, existem preocupações com uma possível elevação substancial dos estoques de algodão no Brasil, que traria reflexos baixistas sobre as cotações. “Como o investimento nas produções de soja e milho é bastante inferior ao do algodão, esses produtores preferem reduzir a aposta na pluma”, destaca o analista. “É importante ressaltar que a queda é pequena e manterá a área plantada no País entre as maiores da história”, finaliza.

Safra recorde

Quanto à safra atual, sendo colhida em agosto de 2020, a situação é muito boa. “Deu tudo certo, e devemos colher uma safra recorde, de 2,9 milhões de toneladas de algodão em pluma”, destaca Bento. “O ano é positivo ao produtor brasileiro, pois grande parte dos negócios foi travada antecipadamente, antes da pandemia do novo coronavírus.” Agora, o analista ressalta que o produtor deve seguir atento ao câmbio e à Bolsa de Nova York, sempre travando o preço quando as oportunidades forem boas. A indicação no Cif de São Paulo fechou 5 de agosto de 2020 em R$ 2,85 por libra-peso. Quando comparado ao mesmo período de julho, alta de 5,56%. Em relação aos níveis em que era negociado em igual momento do ano anterior, a elevação era de 16,80%. No dia 1º de janeiro, a pluma valia R$ 2,69 por libra-peso.

Aumento no consumo mundial em 2021

O Comitê Internacional do Algodão (Icac) estimou, em seu relatório de agosto de 2020, o consumo global em 23,9 milhões de toneladas para 2020/21, o que representa uma elevação de 5% em comparação com a temporada anterior. Mas, para a temporada 2019/20, o consumo deve recuar 12%, para 23 milhões de toneladas, reflexo da pandemia do novo coronavírus. Já a produção global deve ir em sentido contrário, recuando 5%, para 24,8 milhões de toneladas – já que a área deve ter um recuo de 2 milhões de hectares.

No relatório de julho, o Icac havia destacado que o Brasil foi o principal beneficiário com a disputa comercial entre os Estados Unidos e a China. Com isso, a participação brasileira no mercado importador chinês cresceu 170% na temporada 2018/19. Para os Estados Unidos, nem todas as notícias do relatório são ruins. As exportações do país devem somar 3 milhões de toneladas na temporada 2019/20. Para a China, as vendas norte-americanas somaram 277 mil toneladas de agosto de 2019 a abril de 2020, incremento de 29% em relação a igual período do ano anterior.

Na temporada 2019/20, a maioria dos países deve reduzir suas exportações à China, com quedas que variam de 7% a 73%. As exportações da África Ocidental aos chineses, por exemplo, devem recuar 48%.

O USDA, em seu relatório de julho de 2020, estimou a produção global de algodão em 116,25 milhões de fardos. Para 2019/20, são esperados 122,96 milhões de fardos. As exportações mundiais foram estimadas em 41,81 milhões de fardos para 2020/21. Já a estimativa para o consumo mundial é de 114,29 milhões de fardos. E os estoques finais foram projetados em 102,77 milhões de fardos.

A expectativa é que a China colha 26,50 milhões de fardos na temporada 2020/21. A produção do Paquistão para 2020/21 foi prevista em 6,5 milhões de fardos. O Brasil tem a safra 2020/21 estimada em 12 milhões de fardos. A produção indiana deve chegar a 28,5 milhões de fardos em 2020/21. Já os Estados Unidos deverão colher 17,5 milhões de fardos em 2020/21.