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Arroz

Preços fervendo

Visto o isolamento social, houve intensa corrida aos supermercados para estocar arroz. Assim, a exemplo, o preço ao produtor no Rio Grande do Sul – principal produtor – saltou de R$ 48,00 por saca, no início do ano, para R$ 56,00 em abril. E o dólar alto ainda beneficia a exportação e atrapalha a importação do cereal. A safra 2020/21 deverá ter incremento de 5,2%, com 3,7% a mais de produção

Rodrigo Ramos
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O mercado brasileiro de arroz vive um ano totalmente atípico, em virtude da pandemia do novo coronavírus. Historicamente, os preços do cereal iniciam os anos aquecidos, devido ao período de entressafra. Porém começam a perder força entre fevereiro e abril, com a colheita do maior produtor nacional, o Rio Grande do Sul. Em 2020, a conjuntura mundial alterou toda essa lógica. Em meados de março, quando a Covid-19 foi classificada como pandemia, a população correu aos supermercados para garantir o abastecimento desse alimento considerado básico. Esse movimento de demanda fez o preço disparar, em virtude da grande procura pelo arroz, já que a população queria estocar o produto. E, com a oferta reduzida neste ano (2020), em função da safra menor, os preços dispararam.

O décimo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra brasileira 2019/20 indica produção de 11,168 milhões de toneladas, o que representa um acréscimo de 6,5% sobre os 10,483 milhões de toneladas de 2018/19. No nono levantamento, eram esperados 11,126 milhões de toneladas. A área plantada em 2019/20 foi estimada em 1,665 milhão de hectares, ante 1,702 milhão de 2018/19. A produtividade foi estimada em 6.706 quilos/hectare, superior em 8,9% aos 6.158 quilos da temporada passada.

O Rio Grande do Sul deverá ter uma safra de 7,866 milhões de toneladas, avanço de 6,5%. A área prevista é de 946 mil hectares, perda de 5,5% ante o 1,001 milhão de hectares de 2018/19, com rendimento esperado de 8.316 quilos por hectare, ante 7.381 quilos da anterior. Em Santa Catarina, segundo produtor, a produção deverá totalizar 1,211 milhão de toneladas, ante 1,129 milhão na safra 2018/19. E para o Mato Grosso, a Conab estima 404,8 mil toneladas, ante 387,7 mil toneladas para 2018/19.

Preço sobe forte

No início de 2020, a saca de 50 quilos de arroz em casca no Rio Grande do Sul valia em torno de R$ 48,00, e, ao final de abril, já ultrapassava R$ 56,00. “Nem mesmo a proximidade da finalização da colheita foi suficiente para segurar as reações positivas de preços”, lembra o analista de Safras & Mercado Gabriel Viana. “O fato é que, diante dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil, desde março, consumidores do produto beneficiado passaram a adquirir volumes maiores, forçando o varejo a se abastecer do atacado e, por sua vez, dos engenhos beneficiadores”, explica.

Conforme Viana, em alguns casos, agentes apontaram vendas sendo triplicadas no período, com o atacado e o varejo visando formar estoques. “A restrição de exportações em países asiáticos, para garantir a demanda local, também trouxe suporte às cotações internacionais, com elevações na Bolsa de Mercadorias de Chicago, que respingaram nos preços domésticos”, acrescenta Viana.

O início de junho foi um dos raros momentos em que o cereal perdeu força, acompanhando a queda do dólar, que chegou a operar abaixo de R$ 5,00, abrindo espaço para as importações de arroz. A indicação ficou em R$ 62,07 por saca de 50 quilos no dia 4 de junho, ante R$ 63,17 no dia 28 de maio.

Conforme o analista de Safras & Mercado, a queda interna da cotação do arroz só não foi maior pela firmeza das cotações na Bolsa de Mercadorias de Chicago. “Os preços internacionais subiam forte com um movimento de fundos especuladores, de olho na demanda global do produto considerado chave para a segurança alimentar naquele momento de incertezas com o coronavírus”, explica. Porém, na metade de junho, o dólar voltou a subir forte frente ao real, trazendo novo suporte ao grão e incentivo às exportações – além de encarecer as compras no exterior. “O Brasil vem aproveitando o momento positivo de preços para escoar grandes volumes da safra cheia colhida no primeiro semestre de 2020”, destaca Viana.

Exportações também no suporte

A exportação brasileira de arroz no acumulado da temporada 2020/21, entre março e junho, já atingiu o volume de 799 mil toneladas, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Já a importação foi de 326 mil toneladas no período. No acumulado da temporada, o saldo comercial é positivo em 472,2 mil toneladas em base casca. “Volume muito superior ao mesmo período do ano passado, quando o saldo era de positivo em 100 mil toneladas”, exemplifica Viana. Conforme o analista, esses grandes volumes estão mantendo os preços domésticos firmes. “E, sem que ocorra grande desvalorização do dólar frente ao real nas próximas semanas, a exportação deve seguir firme e obrigar compradores domésticos a importarem grandes volumes dos países vizinhos, como Paraguai, Argentina e Uruguai, pelo resto da temporada”, prevê.

Com esses fatores citados, o segundo semestre de 2020 se mostra muito positivo para os preços do cereal. “Mesmo com a demanda voltando a um ritmo normal (pré -pandemia), os grandes volumes já exportados enxugaram a oferta doméstica e devem manter os preços elevados até a colheita da próxima safra”, frisa. “Além disso, o atual patamar da moeda norte-americana – em torno de R$ 5,30 – encarece as importações de arroz, ao mesmo tempo que deixa o Brasil competitivo no mercado exportador”, finaliza.

Com cenário positivo, área é elevada em 5,2%

De acordo com o levantamento de intenção de plantio do dia 17 de julho de 2020 de Safras & Mercado, a área a ser plantada com arroz no Brasil na temporada 2020/21 estava estimada em 1,783 milhão de hectares, o que representa um acréscimo de 5,2% em relação à da safra anterior, quando somou 1,696 milhão de hectares. O potencial produtivo é de 11,639 milhões de toneladas, 3,7% superior aos 11,228 milhões de toneladas da safra 2019/20.

Conforme o analista de Gabriel Viana, com o preço favorável, os produtores devem elevar a área de plantio em praticamente todos os estados, com dois deles devendo receber atenção especial: o Rio Grande do Sul e o Tocantins. No Rio Grande do Sul, muitos rizicultores elevarão significativamente a área de plantio, principalmente na região da Fronteira-Oeste. A expectativa é de que a área fique em torno de 1,010 milhão de hectares no estado gaúcho, elevação de 6% frente à safra passada. A produtividade deverá ser um pouco menor que a da safra atual, que foi muito positiva. A produção é estimada em 8,3 milhões de toneladas. “A elevação da área gaúcha só não será maior porque muitos produtores vão também tentar plantar soja em algumas áreas onde o arroz poderia ocupar a lavoura”, pondera o analista. Segundo ele, os preços recordes da soja levam produtores a se arriscar até mesmo a plantar a oleaginosa na várzea em busca dos altos rendimentos. Para ele, Tocantins é o terceiro maior produtor de arroz e se encaminha para ser o segundo nos próximos anos. “A região da Lagoa da Confusão vem atraindo produtores, que seguem elevando suas áreas nas últimas temporadas”, explica. A produtividade da região é muito alta, e os ótimos preços praticados nas últimas duas temporadas devem manter o incentivo para que rizicultores sigam elevando área e investindo em tecnologias para produção de um arroz mais resistente ao clima e às pragas comuns da região. A estimativa é de que a área do Tocantins passe de 115 mil para 125 mil hectares. “A produção deve ter um crescimento significativo com diversos estabelecimentos novos se situando na região, passando de 680 mil toneladas, na safra 2019/20, para 750 mil toneladas na próxima temporada”, completa o analista.

Demanda aquecida

O relatório de julho de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estimou a produção mundial de arroz beneficiado em 502,63 milhões de toneladas para 2020/21, ante 502,09 milhões no mês anterior. Para 2019/20, foi estimada safra de 495,23 milhões de toneladas. As exportações mundiais do beneficiado foram estimadas em 44,89 milhões de toneladas para 2020/21, ante 44,90 milhões no mês anterior. A estimativa para o consumo é de 498,47 milhões de toneladas de beneficiado para 2020/21, ante 497,99 milhões de toneladas indicadas anteriormente. Na temporada 2019/20, o consumo foi projetado em 490,36 milhões de toneladas beneficiadas.

Baseado nas estimativas de produção, exportação e consumo, os estoques finais mundiais de arroz beneficiado na temporada 2020/21 foram previstos em 185,83 milhões de toneladas, ante 185,35 milhões de toneladas no relatório passado. Para 2019/20, foram estimados estoques de 181,67 milhões de toneladas. A Índia deverá produzir 118 milhões de toneladas beneficiadas em 2020/21; a Tailândia, 20,4 milhões; e o Vietnã, 27,20 milhões. A safra brasileira está estimada em 7,21 milhões de toneladas de beneficiado; a da Indonésia, projetada em 34,9 milhões de toneladas; e a produção chinesa, em 149 milhões de toneladas.