A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

Momento abençoado

No primeiro trimestre de 2020, a alta no preço médio do trigo com relação ao mesmo período do ano anterior foi superior a 35%. Um combo de circunstâncias elevou as cotações: a colheita ficou menor pela quebra da safra paranaense, a Argentina vendeu seus excedentes exportáveis bem antes e a desvalorização do real dificultou a importação. A estimativa é que a safra 2020 seja 31% maior

Gabriel Nascimento
[email protected]

O clima é o principal ponto de atenção do mercado brasileiro de trigo. Conforme o analista e consultor de Safras & Mercado Jonathan Pinheiro, as condições meteorológicas no Brasil e na Argentina são essenciais para a formação de preços do grão no cenário interno. A safra brasileira 2020 estava, no início de agosto, em fase de desenvolvimento, com a colheita prevista para se iniciar no final do mês no Paraná e, em outubro, no Rio Grande do Sul. Assim, a expectativa era de que a entrada da oferta no mercado começasse a pressionar uma queda nos preços de referência a partir de setembro. Os produtores argentinos enfrentavam o clima seco preocupante, mas a expectativa seguia de uma safra cheia naquele país.

O mercado brasileiro de trigo vem de uma quebra de 7% na safra nacional. Em 2019, foram colhidas 5,08 milhões de toneladas, contra 5,45 milhões um ano antes. O número negativo foi puxado pelo Paraná, tradicionalmente o principal produtor do cereal, que teve queda de 24% ano a ano. O quadro nacional só não foi pior graças à alta de 17% na safra do Rio Grande do Sul, que assumiu a primeira posição em 2019. O estado já vinha de uma alta de 48% de 2017/18 para 2018/19.

Em 2020, porém, Safras & Mercado estima a produção nacional em 6,664 milhões de toneladas, alta de, aproximadamente, 31% ano a ano. A área plantada é estimada em 2,172 milhões de hectares, cerca de 6% acima dos 2,048 milhões semeados em 2019. O analista observa que alguns agentes do mercado esperam uma safra ainda maior. Portanto, qualquer número abaixo dessa estimativa pode ter impactos significativos aos preços internos.

Disparada dos preços

A partir do final de 2019, uma combinação de fatores elevou significativamente as cotações de referência no mercado brasileiro. Além de uma colheita menor do que a esperada, devido à quebra da safra paranaense, a Argentina, que é o principal país fornecedor de trigo ao Brasil, vendeu seus excedentes exportáveis muito cedo, gerando um aperto da oferta.

Para completar o quadro, a desvalorização do real em relação ao dólar encareceu os custos de importação. Assim, com a maior necessidade de buscar o produto de fora do País, e com a restrição das opções de origem, os preços voltaram aos patamares anteriores à colheita. Em janeiro de 2020, os preços já subiam 4% na comparação com dezembro. No primeiro trimestre de 2020, a alta em relação ao mesmo período de 2019 era de mais de 35%, sendo 22% a partir de março.

Com o início da pandemia de Covid-19 na América do Sul, a maior preocupação do mercado de trigo foi a logística, levando em conta as medidas de restrição adotadas para evitar a propagação do vírus. Além de problemas no transporte interno, o trigo em áreas da Argentina não teve como ser escoado. Em seguida, o mercado se adaptou, e essas questões passaram a ter menos influência. Não houve risco de desabastecimento. Pelo contrário, o cenário global é de maior oferta e menor demanda.

Câmbio sustenta cotações

A nova safra começa com expectativas positivas em relação à produção. Segundo o analista Pinheiro, a confirmação de safras cheias no Brasil e na Argentina poderiam baixar os preços de referência a R$ 1 mil por tonelada já em setembro. Ele ressalta, porém, que o câmbio pode interferir na aproximação desse patamar. “Mesmo com uma oferta mais expressiva, uma forte desvalorização do real voltará a elevar os custos de aquisição do trigo no mercado internacional, abrindo espaços, se não para recuperações, ao menos para sustentação de patamares próximos aos atuais”, disse. Até o início de agosto, as projeções eram positivas para Paraná, Rio Grande do Sul e Argentina. Problemas com clima foram pontuais e não ameaçaram o quadro geral de produtividade.

O Paraná deve produzir 3,5 milhões de toneladas em 2020, contra 2,1 milhões anteriormente. A safra do Rio Grande do Sul deve totalizar 2,4 milhões de toneladas, alta de 9%. Na Argentina, a produção é projetada em 21 milhões de toneladas, contra 19,5 milhões em 2019. “Devido ao incremento representativo da safra no país vizinho, somente uma quebra proporcional traria impactos mais representativos aos preços brasileiros, já que isso provocaria impactos mais expressivos aos excedentes exportáveis argentinos. Quebras de menor representatividade podem ser atenuadas justamente pela maior produção”, pontua o analista.

A liquidez no mercado interno deveria seguir bastante reduzida até setembro de 2020, com a indústria gerenciando seus estoques até a entrada da oferta. A menor oferta elevou os preços de referência no mercado interno brasileiro em 2% em julho, mesmo com a menor demanda. Pinheiro acredita que o ano de 2021 pode começar com preços abaixo de R$ 900,00 por tonelada.

Mercado internacional

No mercado internacional, a Bolsa de Mercadorias de Chicago – referência para a formação de preços da soja, do milho e do trigo – teve queda de 12,3% no primeiro semestre de 2020. A desvalorização foi puxada, principalmente, pelos efeitos da pandemia do coronavírus, a partir de março. A demanda global pelo trigo é menor do que o esperado. Enquanto isso, países produtores registram produtividades maiores do que as previstas. Nos últimos meses, o principal fator de sustentação dos preços foi a incerteza em relação à safra da Rússia. Agora, com a confirmação de ampla produção, a tendência é de que o trigo caia ainda mais.

O relatório de oferta e demanda de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) trouxe novos números para as safras mundiais 2019/20 e 2020/21 de trigo global. A 2020/21 é estimada em 769,31 milhões de toneladas, contra 773,43 milhões de toneladas em junho; para 2019/20, o número ficou em 764,83 milhões de toneladas.

Os estoques finais globais em 2020/21 foram estimados em 314,84 milhões de toneladas. O mercado esperava 315,5 milhões. Para 2019/20, as reservas finais são previstas em 297,12 milhões de toneladas, em linha com as expectativas do mercado. O consumo global em 2020/21 está estimado em 751,59 milhões de toneladas, ante 747,51 milhões de toneladas em 2019/20.

Para 2020/21, a produção de trigo no Brasil está projetada em 5,7 milhões de toneladas. As importações em 2019/20 estão apontadas em 7,1 milhões de toneladas. Os estoques finais são projetados em 1,04 milhão de toneladas. A safra 2020/21 do cereal na Argentina foi projetada em 21 milhões de toneladas, e a estimativa das exportações do país é de 14,5 milhões de toneladas. No Canadá, essa estimativa ficou em 34 milhões de toneladas; na Austrália, em 26 milhões de toneladas; enquanto na União Europeia está projetada em 139,5 milhões de toneladas. Já a China tem projeção de safra 2020/21 em 136 milhões de toneladas, com estoques finais em 162,16 milhões. Os Estados Unidos deverão colher 49,63 milhões de toneladas e exportar 25,86 milhões. E o Conselho Internacional de Grãos (CIG) indicou, em julho de 2020, uma produção de trigo de 762 milhões de toneladas