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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

Incertezas e no aguardo do Governo

A expectativa para 2020 era de mais produção e melhores preços para o leite, mas a realidade é de preocupação. Uma das novas causas é, naturalmente, a pandemia e os seus reflexos na renda da população. Assim, o auxílio do Governo às famílias de baixa renda vai se refletir no segmento

Leonardo Gottems

O mercado brasileiro do leite e dos seus derivados entrou 2020 com grandes expectativas de aumento da produção e preços justos para o pecuarista, prejudicado pela crise econômica nos anos anteriores. No entanto, a grande estiagem que atingiu a Região Sul no verão, principalmente o Rio Grande do Sul, somada ao surgimento da pandemia do novo coronavírus, acabou derrubando essas expectativas e trazendo de volta duas velhas conhecidas do produtor de lácteos: a volatilidade e a incerteza. “O setor lácteo vive um ano de muita volatilidade em função da pandemia de Covid-19, das dificuldades trazidas pela doença no setor produtivo e pelas próprias variantes de mercado e de consumo das famílias”, descreve o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat), Alexandre Guerra. “O cenário preocupa o setor, pois ficou mais caro produzir frente a todas as medidas de protocolo que devem ser adotadas, e, além disso, as famílias estão com rendimentos limitados.” Ele acrescenta que, no entanto, em junho e julho, o mercado ficou mais aquecido em virtude dos auxílios emergenciais disponibilizados pelo Governo Federal.

Em um mercado já naturalmente volátil e dinâmico, e que pode mudar de patamar de uma semana para a outra, um impacto das dimensões de um isolamento social deste porte impõe mudanças drásticas. De acordo com o assessor-executivo da Associação das Pequenas Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil/RS), Osmar Redin, o que estava encaminhado acabou, de uma hora para a outra, descarrilhando e surpreendendo a todos. No caso dos queijos, por exemplo, que são a base do portfólio da Apil/RS, foi registrada uma queda bastante considerável de preço quando a Covid-19 surgiu, mas que acabou se recuperando ao longo deste período de pandemia graças à rápida transformação de seus processos e dos canais de distribuições. Ao encontro disso, o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ronei Volpi, lembra que queijos, iogurtes e sorvetes, produtos de maior valor agregado, registraram uma queda acentuada no consumo. Em contrapartida, no início da pandemia, quando foi decretado o isolamento social, houve uma corrida aos supermercados para a aquisição de leite UHT, produto com período de validade maior, e assim o preço desse produto disparou. No entanto, lembra Volpi, o produtor parece não ter visto retorno financeiro mesmo com a reabertura gradual dos food services (como bares, restaurantes e hotéis), a importação de leite em pó reduzida pela taxa de câmbio desfavorável e, principalmente, com o auxílio emergencial do Governo, que injetou dinheiro no consumo. Isso porque existe um desequilíbrio entre o faturamento e os gastos no setor, fato que torna a situação preocupante, define.

“Esse bom momento vivido na comercialização ainda não refletiu no campo”, avalia Volpi. Segundo ele, os produtores estão recebendo 8,5% a menos que no mesmo período do ano passado (2019). Já os custos de produção aumentaram 4,25% no acumulado do ano (até julho de 2020), sendo o concentrado o principal gasto, com aumento de 8,30% no período, segundo dados do Campo Futuro/Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). “Isso significa que, em junho de 2019, o produtor precisava de 34 litros de leite para comprar um saco de ração de 40 quilos, e, em julho de 2020, eram necessários 42 litros, um aumento de 23,5%”, compara.

Com isso, inicialmente obtevese um aumento de preço dos leites em pó e longa vida por uma procura maior e uma queda nos queijos e em produtos elaborados. Depois, quando as famílias refizeram suas dietas e começaram a procurar outros produtos, foi vista uma recuperação. “Hoje, existe uma normalidade tanto em fornecimento quanto em preço. E muito disso se deve à ajuda governamental para as famílias de baixa renda, que, assim, puderam manter ou intensificar a sua alimentação, movimentando o setor alimentício, no qual os lácteos estão inseridos”, completa Redin, da Apil/RS.

Mesmo com incerteza, futuro mais estável

A incerteza no mercado acompanhará, certamente, a oscilação econômica causada pela crise, mas a tendência é de que o mercado continue se mantendo mais estável do que outros setores da economia, principalmente em relação aos produtos lácteos com menor valor agregado. Isso porque, explica Volpi, com o fim do auxílio emergencial, possivelmente, haverá redução no consumo de lácteos, o que está diretamente ligado ao poder aquisitivo do consumidor, que, sem renda, busca produtos mais baratos.

Entretanto, mesmo com uma possível recessão na economia – já que poderão ocorrer cortes –, a alimentação deverá ser pouco atingida, lembra Redin. Ele argumenta que a população precisa continuar se alimentando, e o leite é um alimento básico na dieta da população, fonte de proteína, vitaminas e item essencial para crianças, adultos e idosos. No entanto, Guerra afirma que tudo isso depende da recuperação da economia, da variação cambial e da demanda interna, “já que necessitamos do mercado interno”.

“Essa conta todos pagarão. Enfrentaremos tempos difíceis, principalmente em função da falta de renda por parte das famílias. O consumidor demandará produtos mais baratos, buscará ofertas, e a indústria precisará ser ainda mais competitiva”, esclarece. “No campo, o produtor também terá que se alinhar aos novos tempos, investindo em capacitação e gestão de processos para que possa produzir melhorando a eficiência”, ressalta.

Custo ainda é um problema

O setor lácteo opera com custos elevados, muitos deles resultantes da falta de uma maior profissionalização, já que todo o setor produtivo precisa ser mais competitivo, e isso não depende somente das indústrias e dos produtores. Nesse sentido, Guerra acredita que uma participação essencial precisa vir do Governo, por meio de políticas que estimulem ainda mais quem produz, de ações de fomento à produção e ao desenvolvimento, e que, sem isso, a produção de lácteos e a economia do Brasil ficarão “paradas no tempo”. Além desse fator do custo, Redin pede para que as empresas discutam com os governos as reformas tributárias estadual e federal, com comprometimento tributário, parecido com o que as pequenas indústrias de laticínios têm atualmente. Como solução para essa questão tributária, ele aponta o que chamou de associativismo, uma cooperação entre as empresas do setor – principalmente as pequenas – para que os interesses do produtor e dos empresários sejam garantidos perante o Governo, impedindo que sejam prejudicados. Para que essa cooperação funcione, segundo Volpi, o setor deve trabalhar para acessar novos mercados, promovendo estudos e prospectando países e produtos para novos acordos, conseguindo destaque dentro da produção alimentícia do País, já que a pecuária de leite está presente em quase todos os municípios, empregando, aproximadamente, 4 milhões de pessoas. O que torna justificável, de acordo com ele, a criação de políticas públicas para assegurar o desenvolvimento da cadeia, a criação de linhas de crédito específicas para cada perfil de produtor e a criação de modelos de seguros apropriados, além de estimular o consumo de produtos lácteos e garantir a manutenção de programas como o Incentivo à Produção e ao Consumo de Leite (PAA-Leite) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Reflexos do “novo normal”

Por fim, a situação do coronavírus continua sendo um dos principais entraves do setor para o ano de 2021, visto que ainda não se tem certeza de quando a sociedade voltará ao normal, ou a que ponto o que se está vivendo já é uma preparação para o que os especialistas chamam de “novo normal”. No entanto, um bom caminho para conquistar a estabilidade dos preços de lácteos internamente é seguir confiante e turbinar as exportações – pelo menos é isso que confia Guerra. “Em 2020, com o dólar em patamares elevados, as importações de lácteos foram freadas e, consequentemente, o mercado interno ficou mais resguardado. Há algumas empresas que têm exportado seus produtos com sucesso, mas esse ainda é um mercado a ser desenvolvido”, sugere.