A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Florestas

A versatilidade em alta

O Brasil investe em eucalipto e pinus, que resultam em inúmeros produtos e subprodutos, desde celulose até resina, além de fomentar a sustentabilidade ambiental. Mas as florestas plantadas geram muito mais, como 10% de todas as exportações do agronegócio

Eliza Maliszewski

O Brasil tem 7,8 milhões de hectares somente de eucaliptos e pinus. O cultivo comercial de árvores resulta em 5 mil produtos, como madeira serrada, papel, celulose, pisos e painéis e carvão vegetal. Devido à evolução no campo, à tecnologia florestal e ao clima, que favorecem a atividade, o setor tem os melhores índices de produtividade do mundo. São 36 metros cúbicos/hectare/ano em eucalipto e 30,1 m³/ha/ano em pinus. Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), em 2019, a exportação de base florestal alcançou US$ 9,7 bilhões, sendo a celulose a mais significativa, com US$ 7,5 bilhões. A China seguiu como principal destino e comprou US$ 3,2 bilhões somente de celulose. A América Latina, por sua vez, é o destino com maior negociação para painéis de madeira (US$ 164 milhões) e papel (US$ 1,2 bilhão).

O saldo da balança comercial do setor atingiu US$ 8,7 bilhões, queda de 10,2%. A representatividade da balança do setor permaneceu estável, somando 4,3% do total das exportações brasileiras e 10% das exportações do agronegócio. Em volume de exportações de papel houve aumento de 7,2%, com total de 2,2 milhões de toneladas comercializadas. “Investir no setor de árvores cultivadas tem se mostrado um bom negócio. Mesmo em período de retração, entre 2015 e 2018, houve inauguração de uma fábrica por ano e mais de R$ 20 bilhões investidos”, destaca o diretor- executivo da Ibá, José Carlos da Fonseca Jr.

Revolução verde

Nos últimos anos, a sustentabilidade também virou tendência no setor de florestas plantadas. Isso passa por novos produtos e também por usos inéditos, como celulose solúvel, nanocelulose, resinas, bio -óleos, nanofibra e nanocristais, que podem ser utilizados nas indústrias de alimentos, de automóveis, de cosméticos e de medicamentos. Cerca de 90% de toda a madeira brasileira para fins industriais se origina em florestas plantadas, o que mostra o elo de preservação. Aliado a isso, o setor capta C02 por meio das árvores plantadas para uso na indústria e fabrica produtos que estocam carbono, são recicláveis, reutilizáveis e, muitos deles, biodegradáveis. “Os novos consumidores, cada vez mais exigentes, terão, nessa indústria, a possibilidade de satisfazer seus anseios por itens de origem correta, menor impacto ambiental e produção sustentável”, defende o dirigente da Ibá. Nesse contexto “verde”, a celulose é um dos produtos que mais cumpre o papel, sem trocadilhos. Hoje, no Brasil, ela já representa o principal produto exportado pela indústria de base florestal. No primeiro trimestre de 2020, foram 3,8 milhões de toneladas, ou US$ 2 bilhões em receita. As árvores capturam gás carbônico em áreas antes degradadas pela ação humana e conseguem gerar produtos cada vez mais cobiçados com vistas a atender a acordos internacionais e a consumidores que exigem produtos ambientalmente corretos. Para a indústria, a celulose será fundamental para subsidiar uma economia de baixo carbono e prover produtos que sejam alternativas àqueles de base fóssil. “O caminho da bioeconomia é uma estrada sem fim para o setor de árvores cultivadas. Há profissionais capacitados, tecnologia, investimentos em ciência e muita visão”, aponta Fonseca Jr.

Fonte de energia e nanocelulose

Para o chefe-geral da Embrapa Florestas, Erich Schaitza, “florestas sempre foram sinônimo de qualidade ambiental que geraram negócios”. Na era da bioeconomia, a origem do negócio ou do produto é biológica. E as florestas têm, cada vez mais, assumido esse protagonismo para além do seu potencial econômico, já conhecido. O pesquisador destaca que, segundo o Ministério de Minas e Energia, em 2019, lenha e carvão geraram 8,8% de toda a energia brasileira, mais do que o agregado de energia solar e eólica. Quando se olha apenas energia elétrica, nesse mesmo ano, a biomassa (basicamente bagaço de cana, madeira e lixivia) é também responsável por 8,4% da produção, aproximadamente o mesmo que energia eólica e oito vezes mais do que a energia solar. “Nós mesmos, membros da cadeia produtiva do agro – e, no nosso caso, da floresta –, costumamos menosprezar a importância da madeira como geradora de energia”, adverte. “Temos um potencial grande para aumentar a participação da biomassa nessa matriz. Há muitos lugares com plantios disponíveis para geração distribuída de energia elétrica e há disponibilidade de resíduos florestais que poderiam também entrar no negócio.”

Outro potencial está na nanocelulose. Em 2019, o jornal britânico The Guardian a incluiu como uma das mais importantes para a conservação da biodiversidade no século XXI. “Vai substituir plásticos derivados de petróleo, diminuindo nossa pegada de gases de efeito estufa, e seus filmes e materiais derivados, substitutos do plástico, podem gerar muito menos poluição física, pois é possível programar sua vida, evitando a disposição de lixos plásticos no ambiente natural”, acredita Schaitza.

A nanocelulose tem diversos usos: cápsulas de nanocelulose com degradação programada e que podem ser o veículo para adubos, entregando-os a plantas em quantidades exatas. O mesmo pode ser pensado para entrega de formicidas para formigas cortadeiras.

Na Embrapa Florestas, dois experimentos com nanocelulose tiveram bons resultados. O primeiro é uma pele artificial na qual se embute antissépticos, para uso em queimados. Tem um custo muito inferior a todos os produtos de mercado e, em nossos testes, mostrou ter a mesma efetividade. O segundo foi o uso da nanocelulose como espessante para etanol na produção de álcool gel. A técnica permitiu substituir um tradicional espessante, derivado do petróleo, que ficou escasso na pandemia. “Estamos testando também a produção de adubos de liberação lenta. Vale dizer que a indústria brasileira tem capacidade de suprir o mundo com nanocelulose e já viu isso. Havendo demanda, vamos competir globalmente e liderar”, afirma com otimismo o pesquisador.

Resina, o ouro verde

Na área de pinus, a resina vem sendo considerada o “ouro verde”. A goma extraída é usada nas indústrias química e alimentícia, na fabricação de desinfetantes, detergentes, tintas, adesivos, aromatizantes e saborizantes. De acordo com dados da Associação dos Resinadores do Brasil (Aresb), a produção brasileira de resina gira em torno de 185,7 mil toneladas. Uma árvore de pinus pode produzir resina por 15 anos e render cerca de três quilos/ano, dependendo do manejo. O faturamento bruto anual pode ser de, aproximadamente, R$ 10 mil por hectare. A resina entra como fonte de renda enquanto a árvore não atinge ponto de corte, e o Brasil é o segundo maior produtor.

O que vem para o futuro

Em 2020, a pandemia de Covid- 19 impactou diversos segmentos, mas nos negócios florestais foi ao contrário. Os números do primeiro trimestre, quando o vírus chegou ao Brasil, mostram aumento da produção de embalagens de papel – que fazem alimentos e medicamentos chegarem a mercados e lares – e de papéis para fins sanitários.

No entanto, com o avanço da safra, algumas indústrias tiveram que implantar férias coletivas, e 200 mil empregos podem ser perdidos em 2020, segundo o Fórum Nacional das Atividades de Base Florestal (FNBF). “Com a pandemia, algumas obras foram paralisadas, mas, gradativamente, dentro de todos os protocolos de segurança, estão retornando. Um dos elementos que poderão nos dar tração nesta retomada é a bioeconomia. Podemos ser exemplo para outros setores”, acredita o dirigente da Ibá.

Paralelo a isso, um estudo realizado pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) projeta que, até 2029, 3 milhões de hectares de eucalipto para a produção de celulose serão plantados, o que representa um crescimento de 11%. Espera-se um aumento de 30% no consumo interno e de 40% na exportação de celulose. Atualmente, há investimentos de R$ 33,5 bilhões anunciados até o fim de 2023, entre expansões e novas fábricas.