A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Açucar e Etanol

Excesso fazendo mal

O superávit de açúcar na temporada é estimado em 10 milhões de toneladas, ante déficit de 5 milhões na anterior. Há excesso de oferta global, sobretudo do Brasil, da Índia e da Tailândia. As perdas de preço em Nova York eram de 13% no primeiro semestre de 2020. Já o etanol no Brasil se apresenta com perspectivas de longo prazo muito otimistas, inclusive com curvas de preços ascendentes até o primeiro trimestre de 2021

Fábio Rübenich
[email protected]

Os preços internacionais do açúcar iniciaram uma recuperação a partir de junho de 2020, após a crise deflagrada pelo choque do petróleo e a pandemia do novo coronavírus. No entanto, até o final de julho, as cotações futuras em Nova York – balizador do mercado internacional – ainda acumulavam uma perda de cerca de 13% em relação aos patamares do início do ano, de 14 centavos para cerca de 12 centavos de dólar. Efetivamente, o mercado segue pressionado pelo quadro de excesso de oferta global, com os principais países produtores (notadamente, Brasil, Índia e Tailândia) sinalizando recuperação nos níveis de produção em 2020/21 e levando o mercado internacional a voltar a uma situação de excesso de oferta após um breve alívio em 2019/20. O analista da consultoria Safras & Mercado Maurício Muruci aponta que as cotações tiveram sustentação no fato de os principais importadores estarem buscando oferta na Ásia, depois que o Brasil já fechou contratos para exportação de toda a safra 2020, apesar do volume recorde, e antecipa vendas de 2021. “Apesar da forte reação no final de julho, quando o preço chegou a subir mais de 5% numa única sessão, os operadores não podem se iludir, porque, na verdade, as cotações internacionais estão no que chamamos de um canal lateral, presas entre a mínima de 11,40 centavos e a máxima de 12,40 centavos. Então, quando elas batem nas mínimas, pipocam diversas ordens de compras automáticas de fundos e especuladores, mas, quando se aproximam da máxima, acabam voltando.” Esse padrão de lateralidade vem desde maio, diz Muruci. Por um lado, as cotações não caem com força porque, no Brasil, paradoxalmente, está acontecendo uma queda na oferta de açúcar, apesar da safra recorde, já que diversas usinas fecharam muitos contratos de fornecimento para o mercado externo ainda em janeiro e fevereiro, e depois entre maio e junho. “Nesses dois períodos, ou o mercado futuro – via Bolsa de Nova York – e o câmbio estavam favoráveis, ou a motivação era o prêmio elevado no porto e o fator câmbio. Assim, ainda em junho, toda a safra de açúcar 2020 já estava precificada, e mais 4 milhões de toneladas para a próxima temporada já haviam sido fixadas”, assinalou.

A grande quantidade de cana que as usinas do Centro-Sul estão moendo em 2020/21 gera sobras, mas esse excedente será direcionado para a produção de etanol hidratado, porque o biocombustível está com uma perspectiva de preços futuros muito altos, para o quarto trimestre de 2020 e para o primeiro trimestre de 2021, na faixa de R$ 2,30 o litro. “Então quem quer comprar açúcar agora, quem deixou para comprar agora simplesmente não encontra mais, mesmo com a curva de produção do Centro-Sul chegando ao ápice no início de julho”, disse Muruci.

Estoques asiáticos recordes

É por conta do fato de a safra brasileira já estar toda comprometida que as cotações futuras do açúcar em Nova York se sustentam acima da linha de 11,50 centavos. “Mas, ao mesmo tempo, não sobem além da atual resistência por conta de outro elemento: a Ásia.” Os principais países produtores de açúcar da Ásia estão na entressafra, mas tendo que lidar com estoques recordes. Na Índia, os estoques somam 16 milhões de toneladas; na Tailândia, 3,5 milhões; mais cerca de 4 milhões da China.

“Temos, aí, estoques de 23,5 milhões de toneladas, e isso em plena entressafra... Então quem quer comprar açúcar agora não vem para o Brasil, mas vai para a Ásia. E isso é um movimento estranho, porque o Brasil está chegando no auge da temporada, e a Ásia está na entressafra”, lembra o analista. “Mas por que o comprador vai para a Ásia? Porque lá tem o estoque de 23,5 milhões de toneladas, e o Brasil já não tem mais isso aí. O Brasil vendeu toda a safra e já comprometeu 4 milhões da próxima safra. E a cana que vai sobrar a usina vai produzir etanol hidratado, porque a curva futura de preços vai estourar, possivelmente, entre agosto e setembro.”

É por conta da grande oferta asiática que as cotações futuras do açúcar não conseguem romper e se consolidar acima da resistência gráfica. Na Índia, as estimativas mais otimistas apontam que a produção vai crescer de 29 milhões de toneladas, em 2019, para 33 milhões em 2020. A Tailândia, após a safra quebrar para 8 milhões de toneladas em 2019, deve produzir 12 milhões, quase voltando ao recorde de 2018.

Conforme Muruci, praticamente todos os grandes países produtores da Ásia estão se recuperando. Enquanto isso, a China sobe gradualmente a produção, e ainda há os periféricos, como as Filipinas e o Paquistão. “Logo, temos uma entressafra volumosa em termos de estoques na Ásia. E haverá recuperação em seguida na produção, ainda mais com os reportes de chuvas de monção, que tendem a acelerar o desenvolvimento e aumentar a produtividade dos canaviais”, acrescenta. “Assim, não podemos mais dizer que há quebra de safra na Ásia.” De acordo com o analista, estoques altos precedendo recuperação quase que total significam que acabou a crise do açúcar, pelo menos em termos de falta de oferta. E tudo isso em um contexto da pandemia de Covid-19, que impacta a demanda. “Então é por isso que não há tendência de elevação nos preços, não só para o curto prazo, mas também para o ano inteiro de 2020. A curva futura de Nova York mal encosta em 13 centavos, conforme os indicativos.”

USDA: excedente de 10 milhões de toneladas

A produção mundial de açúcar em 2020/21 deverá totalizar 188,077 milhões de toneladas, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Para a temporada 2019/20, a produção estimada é de 166,178 milhões de toneladas. O consumo total deverá atingir 177,795 milhões de toneladas em 2020/21, contra os 171,582 milhões estimados para 2019/20. Haverá, segundo o USDA, um superávit de oferta de 10,282 milhões de toneladas na temporada 2020/21, contra um déficit de 5,404 milhões de toneladas na temporada anterior.

O USDA destacou que a elevação de 22 milhões de toneladas na produção global em 2020/21 (ou 13%) se deve ao crescimento nas safras do Brasil, da Índia e da Tailândia. Já o consumo global deve alcançar um novo recorde diante do crescimento em mercados como a Índia, ao mesmo tempo em que o país deve continuar diminuindo seus estoques mesmo com a elevação na produção.

Segundo o USDA, a produção do Brasil deve aumentar acentuadamente em 2020/21, para 39,480 milhões de toneladas, ante 29,925 milhões (32%), por conta dos bons índices de chuvas no primeiro trimestre e do maior direcionamento de cana para o açúcar com a queda na rentabilidade do etanol. Já a produção da Índia deve crescer de 28,900 milhões para 33,705 milhões de toneladas (17%), resultado de melhora nos índices de produtividade com os reservatórios de água acima da média incentivando também ampliação de área cultivada de cana.

Etanol e as excelentes perspectivas

O etanol está com perspectivas de longo prazo muito otimistas, com curvas de preços ascendentes para o quarto trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021. Após maximizarem a produção de açúcar para cumprirem contratos de exportação e ainda aproveitarem os prêmios que as exportações estavam pagando sobre as cotações futuras em Nova York, daqui em diante, as usinas irão se concentrar no etanol hidratado, o que deverá manter o mix equilibrado até o final da safra. “A tendência é que o preço do litro do etanol hidratado passe dos atuais R$ 2,04 para uma faixa de R$ 2,20 a R$ 2,25 no final do ano, e encoste em R$ 2,30 o litro no início de 2021. A partir de setembro, os preços terão uma inflexão de alta”, diz Muruci.

As perspectivas de preços para o etanol hidratado são “excelentes”, o que conduzirá as usinas a direcionar a cana que vai começar a sobrar após os compromissos de exportação de açúcar terem sido cumpridos. “Hoje, o etanol não está no melhor dos momentos, mas também não está no pior. As usinas começaram a formar estoques para a entressafra, o que vai manter o mix majoritariamente mais voltado à produção de etanol hidratado. Temos 28 milhões de toneladas de açúcar já exportadas em 2020. Não fosse por isso, o mix do etanol estaria ainda mais elevado”, apontou

Muruci destaca que o impacto inicial da pandemia de Covid-19 foi muito grande. O preço do etanol hidratado na usina, que estava encostando em R$ 2,60 o litro, despencou para R$ 1,55. “Naturalmente, bateu o desespero nas usinas, ainda mais com o preço desmoronando de uma semana para a outra. O padrão de demanda mensal no Brasil, que girava entre 1,8 bilhão a 1,9 bilhão de litros, batendo em 2 bilhões, caiu para menos de 1,5 bilhão. Então o cenário de pânico foi totalmente compreensível. Mas, já em maio, começou a aumentar a circulação de veículos, e isso se refletiu na demanda. Entre maio e abril, os preços se recuperam com força”, disse.

Apesar da reação, Muruci alerta que o Brasil ainda está “no olho do furacão”, sendo difícil imaginar que a média mensal de consumo de etanol volte ao patamar de 2 bilhões de litros antes de dezembro. “Até lá, talvez o consumo volte a 1,8 bilhão a 1,9 bilhão de litros mensais, e chegue a 1,95 bilhão em janeiro. Há uma grande circulação de veículos ocorrendo, apesar das medidas de isolamento social”, projetou.