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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Uva/Vinho

O sabor das vendas on-line

Setor vitivinícola já havia se adaptado à realidade de comércio pela internet antes da pandemia impor essa tendência. E agora incrementou as vendas por esse canal

Luís Henrique Vieira

Um dos setores pouco ou nada afetados negativamente pela pandemia foi o da vitivinicultura. Os dados informados pela Associação Gaúcha de Vitivinicultura (Agavi) indicam que, pelo contrário, a atividade teve crescimento nos primeiros seis meses de 2020. Uma série de fatores importantes contribui para que o setor viva um momento positivo durante as limitações de consumo.

No caso do vinho rosado fino, por exemplo, o crescimento nos primeiros cinco meses do ano (2020) foi de 135%, e já tinha sido de 87% em 2019 ante 2018. O total de vendas de vinhos de mesa cresceu 5% até maio de 2020, após estabilidade em 2019. Já a comercialização de vinhos finos subiu 47% entre janeiro e maio. Já o suco de uva teve crescimento de 18% em 2019 contra 2018, mas, nos primeiros cinco meses de 2020, a queda foi de 14%.

Para Dirceu Dani, diretor-executivo da Agavi, a adaptação do setor aos canais de vendas que a pandemia acabou por impor já vinha acontecendo antes, visto as leis que limitam o consumo de álcool por motoristas. As vendas maiores via internet já eram significativas em anos anteriores, e o consumo em restaurantes vinha baixando. “Além do benefício de fazer vendas por internet, não se perderem as vendas em um momento como este. Também temos o benefício de que a rentabilidade aumenta, porque se faz uma venda direta ao consumidor”, esclarece Dani. “No caso do suco de uva, o consumo também cresceu porque ele aumenta a imunidade e é relacionado a mais saúde. A realidade é que, neste ano, não temos do que nos queixar. Não temos problemas”, acrescenta. E uma safra de uva recorde e de boa qualidade, segundo a Agavi, levou à disponibilidade de um bom produto.

Espumantes em baixa

Entre os efeitos negativos de consequência da pandemia na vitivinicultura está a queda de comercialização de espumantes, com encolhimento de 35% de janeiro a maio, assim como redução de consumo de vinhos finos de maior valor. “Aí, nesse caso, infelizmente, existem menos reuniões, e também são os produtos mais caros. Mas, ainda assim, esse efeito foi limitado”, comenta o dirigente da Agavi.

Uma preocupação que incomoda o segmento no Rio Grande do Sul é sobre o possível aumento de ICMS. “Estamos apreensivos com isso. Sempre quando se discute a tributação, se discutem apenas ideias para aumentar a arrecadação”, lamenta Dani. E no que se refere às exportações, Dani considera pouco relevantes os embarques em volume, mas que provocam um efeito positivo de imagem. “As companhias que exportam ganham com o marketing interno quando os consumidores sabem que tal vinícola exporta”, conclui o diretor-executivo.

Já o presidente da Associação Vinhos da Campanha Gaúcha, Valter José Potter, avalia que, no início da pandemia, o efeito negativo foi forte sobre o faturamento das vinícolas da região, sobretudo com queda acentuada no enoturismo, além de provocar o fechamento de lojas de vinhos em grandes cidades e capitais do País. “Os eventos que se desenvolviam, como almoços, tours técnicos, degustações e piqueniques, foram todos cancelados no final de fevereiro até o final de abril. Mas foi aí que algumas vinícolas buscaram alternativas”, revela. “Algumas vinícolas já tinha e-commerce ou lojas virtuais, mas todas tiveram que trabalhar com isso. A partir de junho e julho, começou-se a superar em muito as vendas médias comparadas com 2019, no mesmo período. No caso da nossa região, foram 30% maiores”, acrescenta.

Além disso, Potter destaca que tem uma perspectiva muito positiva com a indicação geográfica chancelada pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), ocorrida em maio, com grande repercussão nacional e o aprimoramento das ferramentas de e-commerce. “Esperemos completar com a volta das visitas e do enoturismo. Estamos bem confiantes com o futuro em termos de comercialização”, aposta.

Apoio de 45 anos

A Embrapa Uva e Vinho é reconhecida pelo apoio técnico ao vitivinicultor por meio da pesquisa e da orientação aos pequenos produtores. Em 26 de agosto de 2020, a unidade sediada em Bento Gonçalves/RS completou 45 anos. Após essa unidade, foram inaugurados os núcleos Estação de Viticultura Tropical, em Jales/SP, e Estação Experimental de Fruticultura, em Vacaria/RS, locais que ainda atendewm à produção de pêssego e maçã.

José Fernando da Silva Protas, um dos pesquisadores pioneiros na unidade, afirma que a missão sempre foi modernizar a agricultura local e fortalecer uma cadeia como um todo. Segundo ele, os resultados com maior rentabilidade na cadeia e maior produção foram notáveis durante o período e devem continuar com o trabalho da Embrapa. “A indústria tem agregado valor. A minha previsão é que, nos próximos anos, depois da pandemia, siga o fortalecimento da cadeia. A grande inovação com a qual temos trabalhado e vamos disponibilizar nos próximos anos é a uva sem semente”, ressalta Protas.