A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Suínos

Decolagem nos portos

A previsão é que as vendas externas de carne suína cresçam 33% em 2020. E, assim, a produção doméstica deverá ser 6,5% superior à do ano anterior, chegando a 4,2 milhões de toneladas

Leonardo Gottems

As exportações estão fazendo com que o mercado de carne suína do Brasil cresça cada vez mais, independentemente da situação econômica do País ou até das questões de saúde relacionadas à pandemia do novo coronavírus. De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), essas vendas podem melhorar ainda mais neste ano, com crescimento de cerca de 33% até o final de 2020, ou 1 milhão de toneladas, contra as 750 mil toneladas exportadas em 2019.

Somente até junho de 2020, as exportações totalizaram cerca de 479 mil toneladas, ante 350 mil do período de 2019, o que representa um acréscimo de 37% nas vendas. Na questão das receitas obtidas com esses embarques, a comercialização no primeiro trimestre do ano rendeu o equivalente a mais de R$ 1 bilhão, contra pouco mais de R$ 700 mil, aumento de mais de 52%.

Entre os principais destinos, a China se destaca com 49% das compras, ou 231 mil toneladas, seguida por Hong Kong, que adquiriu 20%, ou 93 mil toneladas; e Singapura, que comprou 6%, ou 28 mil toneladas. A China movimentou, em 2019, 44% do mercado mundial de suínos. Além das aquisições do Brasil, comprou 47% da produção do Canadá, 56% da produção da União Europeia e 36% da produção dos Estados Unidos, de acordo com informações da ABPA, citando dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), do Eurostat e do Statistics Canada.

“A Ásia é o grande drive das exportações internacionais, não apenas do Brasil. A lacuna deixada pela peste suína africana na produção dos países asiáticos e no trade global continuará a ditar o comportamento das exportações brasileiras e dos demais exportadores internacionais de aves e de suínos”, ressalta Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA. “O bom desempenho das exportações reduz os impactos decorrentes da alta dos insumos e da elevação dos custos decorrentes da situação de pandemia.”

Produção sobe, mas não tanto

Sendo assim, a produção brasileira de carne suína também deve aumentar, mas com menos intensidade. A ABPA estima que serão produzidos 4,2 milhões de toneladas, contra 3,9 milhões de 2019, um aumento de cerca de 6,5%. Mesmo com as exportações ganhando muito mais força do que a produção, o consumo per capita deve manter os 15,3 quilos por habitante, mesmo número do ano anterior. “No curto e no médio prazos, a carne suína brasileira será a mais beneficiada, passará por uma excelente fase, batendo recordes nos preços e também nos volumes exportados, principalmente direcionados para o mercado chinês”, comenta Dirceu Talamini, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves. O presidente da ABPA, Francisco Turra, também se mostra otimista sobre o futuro imediato do segmento e elogia os esforços dos envolvidos na cadeia. “O empenho setorial para a manutenção do abastecimento permitiu manter a produção e as exportações em bons níveis de crescimento. Apesar dos impactos da pandemia, que restringiu esse potencial, os indicadores apontam um horizonte positivo para a suinocultura do Brasil”, avalia.

Suprimento animal é principal empecilho

Um importante entrave que pode comprometer a expansão da produção de suínos, além de frango e leite, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, é o déficit de produção de milho nesses estados, já que ambos são grandes produtores de carnes e leite. Santa Catarina é o maior comprador de milho do Brasil, visto o déficit anual superior a 4 milhões de toneladas do grão, enquanto que o Rio Grande do Sul também necessita comprar fora do estado mais de 1,5 milhão de toneladas.

Devido às grandes distâncias das regiões com superávit de milho, dos altos custos de transporte e de logística, esse déficit compromete a competitividade da produção desses estados. Para resolver esse problema, a Embrapa Suínos e Aves e a Embrapa Trigo estão sugerindo a implementação de “Planos de Incentivo ao Plantio de Cereais de Inverno para Rações”.

Como exemplo dessa iniciativa, Talamini cita o governo de Santa Catarina, que, por meio da Secretaria Estadual da Agricultura, em parceria com a iniciativa privada, lançou, em fevereiro de 2020, um plano visando estimular os agricultores a cultivarem cereais de inverno com potencial para uso nas rações. Além de possibilitar mais renda aos agricultores e, assim, diminuir o déficit de grãos. Como primeiro resultado, o estado colheu 156 mil toneladas de trigo, em 53.920 hectares. E a intenção do programa é ampliar para 120 mil hectares a área com grãos de inverno nos próximos três anos, sendo 100 mil com trigo, 10 mil com cevada e 10 mil com triticale. A área catarinense com potencial para cultivo de inverno é superior a 600 mil hectares.

Conforme o pesquisador da Embrapa, o Rio Grande do Sul dispõe de mais de 5 milhões de hectares com potencial de uso no inverno, mas a chegada da Covid-19 interrompeu a discussão e a preparação de um plano semelhante. “O cultivo de parte dessa área disponível no inverno melhoraria o uso da estrutura de máquinas, mão de obra e armazenagem, gerando renda aos produtores e ao estado, que ainda poderia atender ao enorme déficit de Santa Catarina”, sugere Talamini.