A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Ovinos e Caprinos

Em busca de consolidação

Os segmentos de ovinos e caprinos avançam na diversificação de produtos e podem ser oportunidade para demanda interna e externa

Eliza Maliszewski

Segundo o Centro de Inteligência e Mercado de Caprinos e Ovinos (CIM), o Brasil tem um rebanho de 18,9 milhões de ovinos e 10,6 milhões de caprinos. O Nordeste é a única região onde os dois rebanhos cresceram ao mesmo tempo, entre 2006 e 2017: caprinos, 18,38%; e ovinos, 15,94%, concentrando 90% e 65% do total do País, respectivamente. Entre os motivos está o fato de a caprinocultura ter ganhado maior destaque como atividade socioeconômica e pelos animais se adaptarem bem à seca. Na ovinocultura, a crise da lã no Sul e a aptidão para a produção de carne fez o número de cabeças subir. O chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Caprinos e Ovinos, Cícero Lucena, explica que as condições climáticas do Semiárido, vegetação caatinga, clima seco, altas temperaturas e baixa disponibilidade de alimentos na maior parte do ano fizeram os animais se adaptarem e adquirirem rusticidade, tornando a produção viável. Aliado a isso, o consumidor foi descobrindo os sabores das carnes, do leite e dos queijos. “A produção sai do autoconsumo e está bastante difundida na gastronomia regional e, por que não dizer, na nacional, sendo item presente nas principais receitas de chefs renomados”, aponta.

Carne ovina para gringo ver

Além do mercado interno, as carnes ovinas dispõem de um mercado externo ávido pela proteína. “É recorrente a sondagem de compradores internacionais interessados na carne ovina brasileira, mas, infelizmente, o setor ainda não está organizado para atender a essa demanda, que inclui regularidade na oferta e padrão de qualidade, que podem ser obtidos integrando a produção e a agroindústria”, enfatiza Lucena. Entre os principais compradores de carne ovina está a União Europeia (345 mil toneladas), a China (273 mil) e alguns países árabes (somando 145 mil).

O pesquisador também acredita que uma forma de incentivar a carne ovina está em estabelecer a cultura do consumo interno. A Austrália, grande exportador, tem consumo per capita de 7,20 quilos/habitante/ ano. No Brasil, a taxa é variável, mas fica em torno de 0,55 quilo/ habitante/ano. “Esses dados nos indicam que ainda há muito espaço para crescimento. Vale destacar que o País importa, mensalmente, cerca de 50 toneladas de carne ovina, grande parte com procedência do Uruguai”, analisa.

Queijo de cabra: bom para a saúde e o bolso

Na família do produtor de queijo de cabra Frederico Guimarães, de Florestal/MG, a caprinocultura é tradição. A mãe dele cria, há quase 30 anos, as raças Alpina e Saanen, e o laticínio foi inaugurado em 2011. São utilizados de 7 mil a 12 mil litros de leite de cabra por mês na fabricação de 11 tipos de queijos diferentes. Entre eles, Boursin, Chevrottin, Feta, Minas Frescal e Ricota.

O produtor aponta que percebe aumento da demanda por produtos mais saudáveis. Nesse aspecto, o queijo de cabra se destaca, pois tem menos colesterol, é menos alérgico do que o de vaca, mais digestivo e tem até 20% de cálcio. “Acredito que o mercado da caprinocultura tem crescido e criado a sua identidade entre os outros derivados de leite. Os queijos de leite de cabra estão mais acessíveis e podem fazer parte do dia a dia das pessoas cada vez mais, principalmente daquelas que procuram sabor e qualidade na sua mesa”, ressalta Guimarães.

O pesquisador Olivardo Facó explica que a cadeia leiteira de caprinos é nova e ainda em consolidação. Ele destaca o Programa de Melhoramento Genético de Caprinos Leiteiros (Capragene), uma parceria entre as unidas da Embrapa Caprinos, Gado de Leite, Recursos Genéticos e Biotecnologia, e a Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos de Minas Gerais (Caprileite). São adotados métodos de Controle Leiteiro Oficial e de Teste de Progênie para a identificação de bodes reprodutores de maior mérito genético. “São disponibilizadas informações de avaliação genética de reprodutores e matrizes, com foco em aumentar a produção leiteira”, completa.

Como fica o pós-Covid-19

Em 2019, o ovino esteve bem, com valorização da lã e da carne. “Tivemos uma certa euforia porque, dentro da atividade, a carne foi o ápice e a lã, por ser commodity, teve um pequeno decréscimo no valor por quilo, mas foi contornada”, diz o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Gressler. O bom desempenho em feiras e exposições freou na pandemia. O dirigente acredita que o criador deve se manter atento, cuidar do rebanho e buscar se reinventar com tecnologias que melhorem o negócio. “As incertezas não podem ser confundidas com pessimismo. Precisamos nos manter, sobretudo, trabalhando, porque a nossa produção está no campo e, tão logo seja possível, estaremos novamente em feiras, leilões, remates e exposições”, acredita Gressler.

Lucena destaca que há muitas incertezas, mas que a cadeia espera atingir maior mercado com regulamentação do Selo Arte (para produtores artesanais) e se recompor no pós-Covid-19. “Podemos projetar, para 2021, uma tendência de profissionalização da caprinocultura e da ovinocultura, que vêm, ano após ano, buscando consolidação no agronegócio nacional”, prevê.