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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

E o melão partiu rumo à China

A pandemia despertou temores do segmento de frutas, mas, na corrida generalizada das pessoas aos supermercados para estocar alimentos, chegou a ocorrer aumento de 25% a 30% no consumo. A abertura do mercado chinês ao melão brasileiro traz perspectivas promissoras

Thais D’Avila

A pandemia trouxe temor e perdas em diversos setores da economia. Mas, na fruticultura, apesar de tudo, o segmento atravessou o primeiro semestre de 2020 de forma positiva, considerando as conjunturas brasileira e mundial. O setor encerrou 2019 com sentimento de otimismo, sob o ponto de vista de questões climáticas, exportações e preços. Já em 2020, mesmo com as limitações no comércio, o mercado interno chegou a registrar um crescimento nos primeiros meses. O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Eduardo Brandão, explica que o fenômeno foi uma surpresa. “Lá no início da pandemia, a gente começou a estudar o assunto com preocupação. Mas, em fevereiro e março, chegou a ocorrer um aumento de 25% a 30% de consumo no mercado interno, e o mercado externo ficou estabilizado”, conta. Ele credita a elevação por conta da correria do consumidor aos mercados para estocar alimentos, e as frutas acabavam indo junto para o carrinho. “Passada a euforia, o consumo estabilizou nos patamares anteriores, registrando oscilações semanais, mas sem impacto importante”, explica Brandão. O presidente da Comissão de Fruticultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Luiz Roberto Barcellos, acredita que boa parte desse aumento no consumo dos brasileiros tenha se dado pela busca das pessoas por alimentos mais saudáveis e que aumentam a imunidade. “Outro fator é que as pessoas passaram a tomar mais café da manhã em casa, refeição na qual geralmente se come mais frutas. Os cafés da manhã no home office tenderam a ser mais demorados e generosos, o que favoreceu o consumo de frutas”, explica Barcellos. Conforme Brandão, da Abrafrutas, o setor se adaptou aos protocolos exigidos por prefeituras, governos estaduais, Ministério da Agricultura e Organização Mundial da Saúde, sem prejuízo ao abastecimento no mercado interno.

Perspectivas do mercado externo

Mesmo que 2019 tenha sido um ano estável para as exportações, as entidades ligadas à fruticultura consideram esse aspecto positivo. Um esforço entre o Governo brasileiro e o setor produtivo foi focado na abertura de novos mercados, para reduzir a concentração das vendas para a União Europeia, que, junto com o Reino Unido e os Estados Unidos, representa 85% das compras de frutas brasileiras. Brandão explica que o Brasil é o terceiro maior produtor mundial e apenas o 23º exportador. A principal conquista foi a aprovação, no final de 2019, da venda do melão brasileiro para a China. “É um destino extremamente importante, que desejávamos há muito tempo, foi um marco”, destaca Brandão. O melão é a primeira fruta brasileira a melão brasileiro para a China. “É um destino extremamente importante, que desejávamos há muito tempo, foi um marco”, destaca Brandão. O melão é a primeira fruta brasileira a ser autorizada para a China, e o Brasil é o primeiro país a exportar melão para aquele país. As negociações, que duraram sete anos, já abrem portas para novos produtos. “Com essa força-tarefa, temos a finalização do lado chinês para a exportação de outras frutas, como a uva. Quando eles pedem, fica muito mais fácil o trâmite”, ressalta o dirigente da Abrafrutas. A expectativa é de que, ainda em 2020, seja autorizada a exportação de uvas. Há, também, interesse chinês em abacate e limão.

O acordo de livre comércio, acertado entre Brasil e União Europeia, que animou os fruticultores brasileiros em 2019, ainda depende de alguns fatores para prosperar. A fruta brasileira paga um imposto de 10% para entrar no bloco e, apesar de ter sido feito um acordo, os países integrantes precisam homologar o documento. “Na prática, não está valendo, pois precisam passar para a redação jurídica e a tradução – o que está acontecendo –, e só depois passar pela votação nos países”, relata Barcellos, da CNA. “Outros exportadores não pagam esse imposto, é concorrência desleal”, diz. “Demos um passo importante e não queremos voltar atrás, mas, lamentavelmente, está sendo divulgada uma imagem negativa do agro lá fora por conta do desmatamento da Amazônia.”

Barcellos acredita que um dos problemas causados pela pandemia para o setor é a desaceleração das negociações com outros países para a abertura de mercados e produtos novos para a exportação. “Temos tratativas com Japão, para abacate; e Estados Unidos, para limão e abacate. Mas está muito devagar, pois os técnicos não puderam vir para conhecer a produção. Está andando, mas a passos mais lentos”, afirma.

Pesquisa

O otimismo relatado pelas entidades do setor produtivo se estende também para a pesquisa em fruticultura. Na Embrapa Mandioca e Fruticultura, alguns avanços importantes foram obtidos ao longo de 2019. O chefe adjunto da unidade, Francisco Laranjeira, acredita que a integração com as cadeias, intensificada em 2019, é um fator positivo que se estendeu para 2020. “Sou otimista, acho que as coisas vão passar, e 2019 terminou com esse toque positivo. Assinamos vários contatos de pesquisa e desenvolvimento com agentes do setor privado e temos contratos engatilhados com instituições de pesquisa e financiadores do setor privado”, relata.

Além disso, para Laranjeira, a pandemia trouxe um legado definitivo: o uso da tecnologia que aproxima as pessoas. “Os webinários que estamos promovendo desde março trouxeram a participação de muito mais pessoas. Já tivemos eventos virtuais com a presença de representantes de 15 estados brasileiros e até de outros países. Isso, em um evento presencial, não seria tão fácil assim”, destaca. O otimismo de Laranjeira tem outro motivo: o lançamento do Edital de Inovação Aberta, que prevê parcerias para pesquisar ideias que venham do setor produtivo. “Não queremos ver o setor produtivo como cliente. Queremos que ele seja parceiro das pesquisas. Não são mais as pesquisas da Embrapa, são as nossas pesquisas”, comemora.

No Sul, apesar de alguns problemas registrados em produtividade nas frutíferas de clima temperado por conta do clima, a Embrapa Clima Temperado vem apontando o crescimento de duas culturas: a oliveira e a noz-pecã. O Núcleo Temático de Nichos de Mercado da unidade registra o incremento de produtores e produção, e, na safra passada, a nogueira- pecã atingiu recorde brasileiro de produção, com 3,5 mil toneladas. “Foi considerada uma projeção internacional, e ficamos entre os quatro principais players de noz-pecã no mundo”, explica Carlos Roberto Martins, coordenador do projeto de noz-pecã na unidade. A cultura também sofreu queda na produtividade por fatores climáticos, com redução superior a 30%.

Essa queda, justifica Martins, tem a ver com o fato de a cultura ainda não ter tanta atenção da pesquisa e produtores de maquinário e insumos. “Mas essa realidade vem mudando, e os setores estão olhando para essas culturas emergentes. Hoje, já temos secadores, separadoras e shakers”, afirma. A vantagem da nogueira-pecã está na facilidade com que pequenos produtores conseguem fazer cultivo consorciado. “É possível produzir noz -pecã com culturas anuais, como milho soja e feijão, e até com pecuária. Os primeiros frutos são colhidos em cinco anos, e a produção plena chega em oito.” O pesquisador explica que, como é uma árvore de grande porte, a nogueira exige espaçamento de 10 metros entrelinhas e 10 metros entre plantas, o que facilita o consórcio.