A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

Só a resiliência salva

O isolamento social derrubou o consumo de hortaliças em restaurantes, redes de fast-food, escolas e ambientes de refeições coletivas. Coube aos horticultores se reinventarem. Houve apelo até ao patriotismo

Thais D’Ávila

O setor de hortaliças encerrou 2019 com boas perspectivas para 2020. Conforme a Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (ABCSem), em 2019, houve um aumento de 1,5% na área cultivada. No geral, o clima foi bom ao longo do período, os preços históricos valorizados para várias culturas e, ainda, a retomada da economia, com a aprovação da Reforma da Previdência, davam uma ideia de recuperação do País e da renda dos brasileiros, fundamental para o consumo de hortaliças. “O negócio das hortaliças é sensível ao crédito e ao poder de consumo. Se a gente tem uma estabilidade econômica, a tendência é de a população se alimentar melhor”, afirma Marcelo Pacotte, diretor-executivo da ABCSem.

E era essa a expectativa para 2020. O diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura, Manoel Oliveira, também reconheceu o otimismo no início de 2020. “O segundo semestre de 2019 foi positivo e estava se mantendo. Existia uma sensação de que a gente teria um 2020 muito promissor”, afirma Oliveira.

Mas, logo na virada do ano, em janeiro, foi registrada uma pressão de oferta com a safra de verão. E também o clima começou a ficar diferente para as regiões produtoras. “Tivemos muita chuva, com perdas em folhosas e também em tomate no Espírito Santo. Além da chuva, teve a estiagem que pegou em cheio Rio Grande do Sul, Santa Catarina e até algumas regiões do Paraná. O clima não ajudou muito”, destaca Oliveira. Em março, passado o Carnaval e a esperança de retomada econômica, chegou a pandemia, provocando uma desaceleração abrupta. Foi um período assustador para os envolvidos com hortaliças, especialmente para as cadeias longas, que dependem de centrais de distribuição e que vão para restaurantes, redes de fast-food, escolas e refeições coletivas.

O setor de hortaliças foi um dos mais prejudicados com as primeiras medidas de isolamento social preconizadas no País a partir de março de 2020. Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, apontou que 68% dos produtores registraram rentabilidade prejudicada pela pandemia.

Diretamente com o consumidor final

Mesmo enquanto observavam o cenário com cautela e preocupação, as lideranças do setor viram os pequenos produtores das cadeias mais curtas buscando alternativas e procurando negociar sem atravessadores com os supermercados e chegando direto até no consumidor final. “As culturas mais prejudicadas, certamente, foram a alface e as folhosas em geral, devido à baixa sobrevida em prateleira e à participação significativa em redes de fast-food, restaurantes e merenda escolar”, aponta Oliveira. “A queda foi contínua: abril, maio, junho... O produtor foi reduzindo área”, afirma. Em agosto, conforme o dirigente, começou a ser percebida uma reação positiva de preços, e ele já consegue passar do preço de custo, mas ainda não retomou.

O tomate, conforme Oliveira, também está sob pressão. “Chegamos a R$ 19,00 a caixa, e isso não paga nem o custo de produção. No ano passado, o produtor chegou a receber R$ 79,00”, compara. Ele afirma que, embora já esteja sendo registrada alguma reação (no início de agosto), com o preço chegando a R$ 29,00, os produtores já estão começando a reduzir área para os plantios. São mais de 40 mil estabelecimentos produzindo tomate no País, em 34 centros de produção.

A vez do delivery

Pacotte, da ABCSem, destaca a resiliência do homem do campo no Brasil. “Ele enfrentou crise política, econômica, hídrica, greve de caminhoneiros e, agora, a Covid-19, que pegou todo o mundo de calças curtas. Ninguém estava preparado para isso”, lamenta. Mas as lideranças apontam a vontade de sobreviver na atividade como um dos combustíveis para ultrapassar este período. “O produtor buscou o delivery, aprendeu a se comunicar direto com o consumidor. Alguns com filhos jovens passaram a utilizar ferramentas tecnológicas para atender à demanda e transpor os períodos mais difíceis”, menciona.

Alho brasileiro: patriotismo e imunidade

Um vídeo produzido pela Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) e estrelado por seu presidente, Rafael Corsino, chamou a atenção para a diferença entre o alho brasileiro e o chinês. “Viralizou, recebi milhares de mensagens de todo o país e até do exterior”, afirma Corsino. A ideia era mostrar ao consumidor a qualidade do alho nacional, especialmente por ter cinco vezes mais alicina do que o concorrente oriental.

A substância, que aumenta a imunidade, também é eficiente no combate a vírus, fungos e bactérias. Além das vantagens nutracêuticas, o objetivo do presidente da Anapa era apelar para o patriotismo do brasileiro. “Percebendo esse movimento de patriotismo, de fortalecer as empresas nacionais, de ‘vamos cuidar de casa’, quisemos mostrar que nosso alho é melhor e passa por muito mais controles do que o que chega de fora”, apostou Corsino.

O dirigente também é presidente da Câmara Setorial de Hortaliças, do Ministério da Agricultura, e destaca as muitas exigências às quais o produtor nacional é submetido, diferentemente do produtor chinês. “Todo o alho produzido no Brasil tem rastreabilidade, tem a digital do produtor. Na China são microprodutores, e, para fechar uma carga de alho, é preciso recolher produto em várias propriedades e passar por vários intermediários, não é possível rastrear.”

A lista de diferenças é longa, segundo Corsino. Além de ser uma variedade inferior nutricionalmente, existe a falta de controle sobre manejo e uso de produtos químicos, de uso de recursos hídricos, inexistência de leis trabalhistas que controlem horário de trabalho, uso de EPIs, piso salarial, entre outros. “Nossa briga é antiga, tem mais de 20 anos. E, já que não conseguimos sucesso pelas vias tradicionais – governamental e judicial –, estamos apelando para o discernimento do consumidor nacional”, argumenta o presidente da Anapa.

Os brasileiros consomem, hoje, 30 milhões de caixas de alho (10 quilos), 16 milhões produzidas no País. A Argentina fornece 50% do importado, seguida pela China, com 40%. O restante vem de Espanha, Chile e Egito. O custo de produção, atualmente, está em torno de R$ 9,50 (por quilo), e o preço médio pago ao produtor é de R$ 12,00. Mas o consumidor chega a pagar R$ 43,00 por quilo nas redes varejistas. “Essa é outra distorção que precisamos resolver. É mais do que três vezes o preço pago ao produtor. Isso trava a venda, o consumidor acaba deixando de levar o produto”, garante.