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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frango

Voo alto e longo

A produção de carne de frango deverá ser 3% a 4% superior em 2020, com aumento do consumo doméstico per capita em 2%, assim como o crescimento das exportações em 4,7%. O problema são os custos dos insumos

Leonardo Gottems

O mercado brasileiro de carne de frango parece não ter sido intimidado com a pandemia do novo coronavírus e segue, no mínimo, mantendo bons números. Há quem diga que é um bom momento para o segmento se recuperar de entraves passados e consolidar como proteína essencial na mesa do brasileiro. De acordo com Fernando Henrique Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado, o mercado está visivelmente em franca recuperação, sendo que os preços reagiram de maneira consistente entre os meses de junho e julho de 2020. É importante destacar, no entanto, que os custos de nutrição animal permanecem elevados, com destaque para o descolamento dos preços do farelo de soja no mercado interno. “O momento está favorável para o mercado da carne de frango no Brasil, principalmente devido às exportações, que estão muito aquecidas. O Brasil, terceiro maior produtor mundial e maior exportador de carne de aves, tem apresentado excepcional crescimento da produção”, complementa Dirceu Talamini, pesquisador Embrapa Suínos e Aves.

Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a expectativa de produção de carne de frango para 2020 deve chegar em 13,8 milhões de toneladas, contra 13,2 milhões no ano anterior, aumento de 3% a 4%. Ganho este que deve ser obtido também nas exportações, que devem subir de 4,2 milhões, em 2019, para 4,45 milhões de toneladas em 2020, expansão de 4,70%. O consumo per capita do Brasil deve ser de 43,9 quilos por habitante em 2020, crescimento de 2% em relação aos 42,8 quilos de 2019. “Não temos uma estimativa de perda no semestre. Na verdade, o que teve foi uma diminuição na expectativa que havia. Em relação ao ano passado (2019), produzimos mais no primeiro semestre, algumas empresas precisaram tirar 10% das pessoas em afastamento preventivo, mas conseguimos, em questão de mix e contratações novas, manter a produção”, explica Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA.

Voos internacionais

Entre os principais parceiros comerciais do Brasil no mercado avícola, a Ásia se destaca, representando mais de 40% das compras brasileiras, seguida do Oriente Médio, com 32%; e da África, com 14,2%. Os asiáticos elevaram as suas compras da carne de frango brasileira em, aproximadamente, 5% em relação a 2019, enquanto o Oriente Médio recuou, comprando quase 4% a menos.

Em volume, o Brasil vendeu 346 milhões de toneladas para a China, 208 milhões para o Japão, 204 milhões para a Arábia Saudita e 154 milhões para os Emirados Árabes. “A China, dependendo da retomada do crescimento da sua economia, tem enorme potencial como importador de carnes. Já é grande parceiro comercial do Brasil, com forte presença nas importações brasileiras dos produtos da agricultura. A perspectiva de comércio com esse país é favorável no curto prazo, mas preocupante no longo prazo, pois depende de como será a saída do país da crise econômica causada pela Covid-19 e dos atritos com os Estados Unidos”, afirma Talamini.

O “predador” tem nome: custos

Os custos de nutrição animal são um grande problema em 2020. Segundo Iglesias, os preços do milho estiveram em patamar bastante acentuado no decorrer do primeiro semestre. Em agosto, o grande problema é o farelo de soja, com preços bastante acentuados, com o descolamento do produto em relação ao mercado internacional. Esse movimento ampliou a busca por produtos substitutos, a exemplo da farinha de sangue, farinha de vísceras e os resíduos secos de destilaria com solúveis (DDGS). “A solução passa pela necessidade de fazer um bom planejamento ao longo do ano, mantendo um bom controle sobre sua estrutura de custos. É importante adiantar que a tendência para o primeiro semestre de 2020 é de novo descolamento dos preços do milho, em função do aumento da área plantada de soja. Ou seja, começar a planejar os custos de 2021 agora, para não haver surpresas em um período de oferta escassa”, sugere Talamini.

Além disso, o pesquisador da Embrapa também cita como ponto negativo significativo os impactos causados pela pandemia. Por mais que a ABPA garanta a produção por meio de alternativas seguras para o controle nos frigoríficos, o setor deve ser impactado, mesmo que minimamente. Isso porque, segundo ele, a maioria dos indicadores de intenção de consumo e de gastos das pessoas revelam uma expectativa de redução em geral. “Pensando nas cadeias produtivas da proteína animal, uma possível queda da demanda interna deve ser compensada pelas compras chinesas. Assim, dependemos da robustez da economia da China, comentada anteriormente, país que deverá reconstruir sua cadeia produtiva de suínos e ainda superará a crise do coronavírus”, argumenta. E Iglesias, de Safras & Mercado, acredita que a avicultura de corte irá se deparar com uma estimativa positiva para o restante do semestre de 2020. Além disso, a expectativa é que as exportações sigam positivas, com a China muito atuante no mercado internacional.