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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Flores

Negócios murcharam

O segmento de flores foi um dos mais afetados pela pandemia da Covid-19. Com festas e eventos cancelados, segmento de corte pode ter queda de 50% em 2020

Eliza Maliszewski

A floricultura brasileira sempre foi conhecida pela sua organização e por gerar bons negócios. Em 2019, o setor de flores e plantas ornamentais cresceu acima de 8%, faturando perto de R$ 8 bilhões. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), a crescente vem desde 2012, sempre com aumento entre 8% e 16% e faturamento acima de R$ 5 bilhões, com São Paulo sendo o maior produtor e puxando essa receita.

No País, a produção é dividida em flores de corte, usadas em decoração, como rosas e alstroemérias, e as de vaso, como orquídeas e kalanchoes. A cadeia comporta cerca de 8,3 mil produtores, 60 centrais de atacado (como as cooperativas, por exemplo), 680 atacadistas e prestadores de serviço e mais de 20 mil pontos de varejo. São cerca de 15,6 mil hectares de área cultivada. Só em 2019 foram criados 209 mil postos de trabalho no segmento.

As boas projeções para 2020 barraram na Covid-19, a partir de março. Inicialmente, todos os estabelecimentos fecharam, e eventos foram cancelados. Cerca de 40 milhões de flores foram para o lixo em Holambra/SP, cidade referência na produção. A princípio, a queda nas vendas atingiu mais de 70%, e os prejuízos ficaram acima de R$ 40 milhões. Aos poucos, alguns estabelecimentos reabriram, e, em julho de 2020, já se podia ter uma melhor visão sobre o ano.

Renato Opitiz, diretor do Ibraflor, explica que, além da questão da comercialização, a pandemia afetou bastante a produção, a logística, a importação e uma série de outros aspectos. "O setor de flores, em 2020, vinha bem até o começo de março, e as expectativas eram de um crescimento da ordem de 10% a 12%, mas tudo mudou. Os produtores se readequaram, alguns mudaram os produtos (espécies e variedades de flores), fizeram outros serviços, mas, de maneira geral, podemos falar que até uns 10% foram demitidos", lamenta.

Queda de 50%

Os maiores efeitos são sentidos nas flores de corte. Para a associação global Produce Marketing Association (PMA), desde que haja alguma melhora do cenário até o final de 2020, a projeção é para queda de 40% a 50%. Acredita-se que o momento de insegurança traz uma maior permanência das pessoas em seus lares, menores despesas com viagens e outros eventos sociais, levando a uma manutenção no consumo de flores e plantas pelos consumidores. "Em se mantendo a abertura gradativa do comércio, na melhor das hipóteses, chegaremos ao final do ano com faturamento entre 90% e 100% do ano de 2019, ou seja, queda entre 0% e 10%", afirma Klass Schoenmaker, conselheiro da PMA Brasil.

Na Veiling Holambra, uma das maiores cooperativas do País, com 400 associados, e regra é um passo de cada vez. A estrutura que comportava grandes leilões foi reduzida, e o cenário passou a ser analisado semanalmente. "No ano passado (2019), faturamos R$ 850 milhões e, neste ano (2020), se fecharmos 20% abaixo está bom. Perdemos venda on-line porque não tínhamos um mercado consolidado, nem estrutura. Corremos para ajudar os clientes e não jogar produto fora", destaca Thamara D'Angieri, gerente de Marketing. Para 2021, a expectativa é boa, de retomada e bons negócios. "Nossas flores são tendência mundial, e as plantas ornamentais ganharam espaço nas casas, além da volta de eventos. O recado ao produtor é: não desanime", completa.

Momento de cautela

Na base da cadeia está o produtor, que também não sabe o que esperar. Paralelo a isso, os custos de produção estão mais caros, com preços dos insumos como mudas e fertilizantes atrelados ao dólar. A orientação do Ibraflor é que o floricultor avalie e repense seu mix de produtos, para se adequar aos sinais do mercado atual, e que tenha cautela para preservar seus investimentos.

A expectativa inicial era de que 66% dos produtores iriam falir, mas apenas 10% largaram a atividade. "A estimativa é que, no máximo, 20% deixem a cultura. Acreditamos que não mais do que isso, porque eles, simplesmente, vão adequar as suas produções. A maior parte está diminuindo a produção na esperança de que, quando forem retomados os eventos, a demanda será muito aquecida", destaca Opitiz.

Campanhas fizeram diferença

O e-commerce ficou mais presente em todos os elos: entre os produtores e seus distribuidores, dos distribuidores para as lojas e das lojas para o cliente final. Além das vendas por essa modalidade, o Ibraflor e seus associados investiram em campanhas nas redes sociais, estimulando o consumo em datas específicas e importantes para o setor, como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados. "Flor, alimento para a alma" e "Eu vivo das flores" surgiram como forma de ajudar os produtores e gerar bem-estar ao consumidor. "As campanhas nas redes sociais ajudaram muito e estão sendo fundamentais para que floriculturas e garden centers, assim como profissionais liberais, ofereçam seus produtos e os comercializem", enfatiza Opitiz.

Para Schoenmaker, a busca por novas formas de comercialização se tornou crucial. A crise mostrou que cooperativas ou associações bem estruturadas tiveram reações mais rápidas e acertadas, beneficiando seus produtores associados. "As redes de varejo enxergaram o potencial que o setor de flores e plantas tem. Aproveitaram o momento. Mas esse segmento ainda pode ser mais bem explorado", acredita.