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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

E o coronavírus ajudou

No isolamento social, os consumidores buscaram estocar feijão, uma proteína mais barata que as de origem animal e, portanto, alternativa de alimentação em tempos de queda de renda das famílias

Leonardo Gottems

Mesmo sem números oficiais até julho de 2020, estava clara a tendência do isolamento social e do temor de um prolongado lockdown, causados pela pandemia de Covid-19, ter trazido um sentimento de alívio para o produtor brasileiro de feijão. Isso porque essa tendência de paralisação do comércio acabou acendendo um sinal de alerta no consumidor, que passou a estocar alimentos considerados essenciais para a sobrevivência – e, nesse ponto, o feijão tem vantagem sobre proteínas mais caras, por exemplo.

"As pessoas dentro de casa com a família tendem a consumir mais. É difícil para quem cozinha em casa, muitas vezes com orçamento afetado, todos os dias pensar em refeições tão flexíveis e versáteis nos acompanhamentos como o arroz e o feijão", afirma Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe). "Alimentar adolescentes, então, se não for feijão no almoço, em menos de duas horas estarão às voltas com o lanche. A saciedade que o feijão proporciona só é comparável com grão-de-bico ou lentilhas, que são mais caros."

De acordo com Fábio Aurélio Martins, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), antes da pandemia, os preços já vinham com viés de alta, com as condições adversas de logística com potencial para afetar o mercado. Sendo assim, torna-se possível presumir que as pessoas em casa tenham pressionado os estoques com maior consumo. Além disso, a perda de renda de boa parte da população brasileira favorece o feijão na competição com proteínas animais caras, acrescenta.

Antes da pandemia, era esperada uma redução considerável na produção de feijão-carioca, o que estava causando um certo receio nos produtores. No entanto, com o passar dos meses, percebeu-se que a diminuição da safra do carioca não se concretizou na magnitude como estava sendo prognosticada, o que, somado com o aumento da demanda causado pelo isolamento social, acabou elevando as margens de preço do produto. Para Alcido Elenor Wander, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, o aumento de preço, tanto em nível de produtor como no atacado e varejo, ocorreu muito mais em função do incremento momentâneo da demanda associado à pandemia do que por qualquer outro motivo.

12 meses sem surpresas

As expectativas indicam que o mercado brasileiro de feijão não deve passar por muitas surpresas no futuro próximo, visto que a produção encontrou boas condições na safra da seca no Cerrado e no Paraná. Até porque a próxima safra é a menor em área, porém a mais produtiva, em alta tecnologia e com grande parte da plantação sendo feita em áreas irrigadas, lembra Martins, da Epamig. Além disso, Lüders, do Ibrafe, destaca que tudo o que for colhido até dezembro de 2020 terá um excelente mercado consumidor. O único risco é a possibilidade de enfrentar desgaste com a população pelos preços que poderão ser praticados junto ao consumidor.

"Estamos buscando, junto ao Conselho Brasileiro do Feijão, dar o start em discussões para o novo momento que vivemos pós-pandemia, com oportunidades, desafios e demandas internas e externas", revela Lüders. "O feijão colhido sob irrigação permite estocagem e não perde a cor do fruto, o que mostra a evolução da pesquisa que vem sendo feita. Preços atraentes em soja e milho fazem com que os produtores deixem para plantar feijões somente na segunda safra, durante o primeiro trimestre do ano que vem (2021)."

Crédito e organização de produtores

Segundo Wander, um dos principais entraves está relacionado com as políticas de incentivo à produção, que não têm sido efetivas no estímulo à produção nas formas e nas quantidades desejáveis. Enquanto a taxa de juros Selic caiu para patamares nunca vistos, o crédito aos produtores continua caro. Para resolver isso, o pesquisador da Embrapa recomenda que os produtores estejam mais atentos aos sinais de mercado na hora de decidir o que e como plantar.

Somado a isso, alguns aspectos fitossanitários também têm preocupado técnicos e produtores de feijão, pois a prática eleva significativamente os custos de produção em algumas regiões. A fim de evitar essas complicações, o especialista afirma que os produtores precisam acompanhar de perto o desenvolvimento de suas lavouras, implementando o manejo integrado de pragas, para não onerar demasiadamente seu custo de produção nem colocar em risco a sua atividade.

"Além disso, é preciso uma maior organização dos produtores, uma diversificação de cultivares e tipos de feijão, buscando favorecer aqueles que tenham mercado no exterior, mercado firme", acrescenta Martins. "Passa por uma grande quebra de paradigma, inclusive por estratégia de marketing efetiva, visando à alteração na cultura alimentar, já que existe uma elevada concentração da produção em apenas um grupo que não possui características de commodity e com produtores que não têm ajuda para traçar estratégias que favoreçam sua lucratividade."