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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Café

Esquentado pelo câmbio

Dólar garante preços atrativos para produtor em 2020 e boas exportações. Afinal, a moeda americana se valorizou 30% frente ao real entre o final de 2019 e julho de 2020

Lessandro Carvalho [email protected]

O ano de 2020 estava sendo, até agosto, de preços mais altos em reais ao produtor brasileiro de café. Em meio à extrema volatilidade nos mercados diante da pandemia do novo coronavírus, a Bolsa de Nova York (ICE Futures US) – que baliza as negociações no mundo – teve períodos de quedas e também de avanços nas cotações. O dólar em forte alta é o que fez a maior diferença para as cotações do grão no Brasil, garantindo bom ritmo de vendas por parte do cafeicultor e amplas exportações no fechamento da temporada 2019/2020 (julho/junho).

A colheita de uma safra recorde no Brasil em 2020 foi fator baixista na Bolsa de NY, resultando em quedas nas cotações no primeiro semestre, além da crise econômica global com a pandemia, que derrubou os mercados e também afetou o café. A perspectiva de um menor crescimento (ou até queda) no consumo global da bebida exerceu pressão sobre as cotações. O dólar subiu contra o real e outras moedas, também pressionando para baixo os preços do grão nas bolsas. O superávit na oferta em relação à demanda pesou sobre os valores do café.

Mas, em julho, o mercado teve uma boa reação em NY, mudando para cima o patamar das cotações e mostrando que os agentes começam a olhar para a safra de 2021 do Brasil, que deve ser menor dentro do ciclo bienal da cultura. Além disso, há um maior otimismo com a recuperação econômica a partir da reabertura do comércio nos países e com a vacina para a Covid-19 em evolução. Acredita- se numa melhora na atividade e no aumento do consumo do café, sobretudo fora dos lares.

A Bolsa de Nova York fechou o pregão de 31 de julho de 2020 com a primeira posição do café arábica em 118,95 centavos de dólar por libra -peso. Como o mercado fechou 2019 a 129,70 centavos, acumula uma perda de 8,3%. Porém, na mínima do ano, alcançada em 15 de junho, NY chegou a cair a 92,70 centavos. O mercado trabalhou em importante parte do tempo abaixo ou testando a importante linha técnica e psicológica de US$ 1,00 por libra-peso, mas finalizou julho tendendo romper US$ 1,20.

Vendas adiantadas

No mercado físico brasileiro de café, os produtores aproveitaram sobremaneira a valorização do dólar vista ao longo de 2020. No comercial, o dólar fechou 2019 em R$ 4,014 e, em julho de 2020, alcançou R$ 5,216, acumulando uma alta de 30% em sete meses. Porém vale lembra que a moeda americana chegou a superar R$ 6,00. O reflexo disso foram preços do café sustentados em reais pelo câmbio. Aproveitando os momentos, os cafeicultores adiantaram as vendas da safra nova de 2020 e, inclusive, fizeram importantes antecipações de negócios com safras futuras de 2021 e 2022. No início de agosto, a comercialização estava adiantada em relação a anos anteriores.

Em linhas gerais, o câmbio foi bastante favorável. Assim, quando NY não se mostrava favorável, o dólar contribuiu. Dessa forma, o produtor conseguiu negociar a preços remuneradores. O café arábica bebida dura com 15% de catação no Sul de Minas Gerais fechou julho de 2020 em R$ 580,00 por saca de 60 quilos na base de compra, acumulando alta de 11,5% no ano, já que fechou 2019 em R$ 520,00. Mas, ao longo de 2020, o preço chegou a superar os R$ 600,00. O conilon tipo 7, em Vitória/ES, subiu de R$ 300,00 para R$ 360,00 por saca no mesmo comparativo, acumulando valorização de 20%.

Para o consultor de Safras & Mercado Gil Barabach, o segundo semestre reserva uma boa possibilidade de preços firmes, mais altos, para o café na Bolsa de NY. No curto prazo, o mercado poderia ter alguma correção, mas, no médio prazo, a tendência era de cotações mais bem sustentadas. O consultor diz que haveria sustentação diante do olhar para a menor safra brasileira do próximo ano.

A expectativa de queda na produção do Vietnã de robusta e as perspectivas de reação do consumo também são fatores altistas para o café. Porém Barabach diz que as incertezas financeiras ainda são grandes e que resta saber quanto tempo levará para a pandemia do coronavírus passar, com uma vacina, e os efeitos sobre os mercados. O consultor destaca que o mundo depende muito da economia americana, que interfere no dólar, e o café depende muito dessa moeda.

Segundo Safras & Mercado, a produção brasileira 2020/21 deve atingir o recorde de 68,1 milhões de sacas de 60 quilos, com aumento de 19% sobre a safra de 2019/20, indicada em 57,05 milhões de sacas. A produção de arábica é projetada em 48,2 milhões de sacas, o que corresponde a uma elevação de 23% em relação à temporada passada (39,05 milhões de sacas). A safra de conillon deve crescer 11% neste ano e alcançar 19,9 milhões de sacas.

Exportações

O Brasil encerrou a temporada 2019/20 (julho/junho) com o segundo melhor desempenho da história. As exportações somaram, no total (café em grão e industrializado), 39,9 milhões de sacas de 60 quilos. Houve declínio de 3,6% nas exportações no comparativo com 2018/19, quando o País embarcou um total recorde de 41,4 milhões sacas. Os números partem do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

O destaque foi para o crescimento de 22,7% nas exportações de café robusta, na comparação com o anosafra 2018/19. A receita cambial com os embarques totais na safra 2019/20 foi de US$ 5,1 bilhões, o que representa uma queda de 5,9% em relação ao período anterior. Já o preço médio foi de US$ 128,04.