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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Algodão

Nas mãos dos portos

A produção brasileira de algodão é três vezes superior ao consumo interno. O imbróglio entre os Estados Unidos – grande player na produção – e a China – principal importadora – tem relação direta com as cotações no Brasil. E foi fator decisivo para o recorde brasileiro de exportações em 2018/19, de 1,22 milhão de toneladas de pluma. Mas as cotações nas alturas já são passado

Rodrigo Ramos, [email protected]

O mercado brasileiro de algodão chegou a agosto de 2019 com a fibra negociada a R$ 2,45 por libra-peso, o menor nível desde 4 de dezembro de 2017. No acumulado de 2019, o recuo é de 19,8%. Conforme o analista de Safras & Mercado Élcio Bento, a queda acentuada que se verifica no ano é uma resposta ao comportamento dos preços internacionais – retração de 13,3% entre janeiro e julho de 2019 – e ao forte incremento da produção nacional. O último fator, segundo o analista, resultará em um excedente de produção em relação ao consumo superior a 2 milhões de toneladas. “Para escoar o montante que não é utilizado pelas indústrias nacionais, os preços domésticos precisam ser competitivos em relação aos verificados nos Estados Unidos (maior exportador global)”, pondera. A retração verificada na Ice Futures de Nova York é uma resposta ao bom volume de produção estimado para os Estados Unidos (maior safra desde a temporada 2005/06) e às incertezas trazidas pela guerra comercial travada com o maior importador mundial – a China. No último capítulo desse embate, o governo norte-americano decidiu taxar adicionalmente em 10% cerca de US$ 300 bilhões em produtos chineses, levando o algodão a buscar o menor patamar de 2019. “Isso porque a posição dos Estados Unidos poderá levar a retaliações por parte dos chineses, abrindo a possibilidade de elevação da taxa de 25% cobradas sobre o algodão importado dos Estados Unidos. Além disso, deixa o sentimento de que essa disputa ainda está longe de cessar.

Excedente dos EUA é o maior em dez anos — É importante ressaltar que esse problema do lado da demanda ocorre exatamente no ano em que os Estados Unidos produzirão o maior excedente de produção em relação ao consumo. “Em se confirmando a safra de 4,8 milhões de toneladas em pluma, o saldo exportável será 4,1 milhões de toneladas”, lembra Bento. Na média dos últimos dez anos comerciais, esse saldo foi de 2,7 milhões. Em condições normais, esse já seria um fator de baixa para as cotações em Nova York. “Com as vendas para o maior comprador global dificultadas por uma taxação atual de 25%, o movimento é potencializado”, frisa. Os reflexos da disputa entre o maior vendedor e o maior comprador global são sentidos diretamente no Brasil (segundo maior exportador do produto).

A taxação do algodão dos Estados Unidos, porém, gera um prêmio positivo para a pluma brasileira. Aproveitando- se dessa situação, o Brasil colocou 1,22 milhão de toneladas no mercado externo na temporada 2018/19 (recorde). O excedente de produção em relação ao consumo no ciclo comercial era de 1,345 milhão de toneladas. “O sucesso da cadeia produtiva utilizando a válvula de escape das exportações para aliviar a pressão de oferta interna permitiu que os estoques se elevassem apenas em 126 mil toneladas”, destaca Bento. De qualquer forma, o Brasil precisa reduzir os preços para conseguir se manter presente em outros compradores globais. Na temporada 2018/19, os chineses compraram 34% do total vendido pelo Brasil. “Ou seja, 805 mil toneladas foram colocadas em destinos em que o Brasil não tem a vantagem da taxação sobre o produto dos Estados Unidos”, ressalta o analista.

Brasil precisa se manter competitivo — No ciclo comercial 2019/20, o excedente de produção em relação ao consumo deve atingir mais de 2 milhões de toneladas. “Esse será o novo desafio da cadeia produtiva e só será possível mantendo preços atrativos em relação aos demais players da ponta de venda do mercado internacional, pela paridade de exportação”, explica Bento. No início de 2019, a indicação do algodão brasileiro era de US$ 81,13 centavos por libra-peso, superando o contrato de maior liquidez na Ice Futures de Nova York em 12,3%. No início de agosto de 2019, havia recuado para US$ 65,32 centavos por libra-peso (-19,5%), valor 2,7% superior ao verificado nos Estados Unidos. “A redução do spread em frente ao produto norte-americano mostra que o mercado já se ajusta ao ingresso da maior safra da história”, salienta. Nos últimos meses de 2019, a tendência segue sendo de baixa. “Além da produção recorde, essa projeção leva em conta uma situação de preços internacionais em baixa e câmbio sem grandes elevações”, comenta. De acordo com o analista, essa queda dos preços deve encolher a margem de rentabilidade auferida pelos produtores nas duas últimas temporadas, desencadeando eu uma menor área plantada no Brasil na temporada 2019/20.

Plantio em 2019/20 deve recuar 7% — A área plantada com algodão no Brasil em 2019/20 deverá ser de 1,509 milhão de hectares, recuando 7% sobre 2018/19, de 1,622 mil hectares. A previsão é de Safras & Mercado, que divulgou, em julho de 2019, a sua intenção de plantio. A indicação inicial é de um recuo de 1,34% na produtividade, que passaria de 1.747 quilos para 1.724 quilos por hectare. Com isso, a produção poderá atingir 2,602 milhões de toneladas – que seria uma retração de 8,2% na comparação com o ano anterior, de 2,835 milhões. Para o analista, entre os principais motivos apontados para esse recuo frente à área recorde da safra anterior, destacam- se a recente queda das cotações do produto e as incertezas sobre a capacidade da cadeia produtiva escoar via exportação o excedente de produção em relação ao consumo interno. “Os preços domésticos operam em patamares mais de 20% inferiores aos verificados no ano passado e já não garantem margens de rentabilidade tão atrativas quanto às verificadas nos dois últimos anos de plantio”, explica Bento.

Como já foi dito, o saldo exportável na atual temporada supera 2 milhões de toneladas (em pluma), sendo que o maior volume já absorvido pelos compradores internacionais em uma temporada é de 1,2 milhão de toneladas. Os produtores também pontuam como fator de cautela as incertezas sobre a continuação (ou não) da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. O país asiático tem sido o principal comprador da pluma brasileira. “Uma eventual retirada da taxação faria com que os Estados Unidos voltassem a ser competitivos para aquele destino”, lembra.

Importante ressaltar que, mesmo com essa redução de ímpeto dos produtores, o montante produzido seria o segundo maior da história e mais de três vezes superior ao consumo nacional, o que sugere que o mercado internacional seguirá sendo o fator determinante para a viabilização de montantes produzidos acima de 2,5 milhões de toneladas nas safras vindouras. “Também é importante ressaltar que o plantio ocorre entre o final de 2019 e início de 2020”, pondera. “Até lá, a decisão dos produtores poderá alterar, dependendo do comportamento das variáveis supracitadas como determinantes para a decisão de plantar ou não algodão”, lembra.

O relatório de julho de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estimou a produção de algodão do país na temporada 2019/20 em 22 milhões de fardos, mesmo patamar do mês anterior. Para a safra 2018/19, são esperados 18,37 milhões de fardos. As exportações deverão ficar em 17 milhões de fardos em 2019/20, mesmo patamar do mês de junho. O consumo interno foi previsto em 3,1 milhões de fardos para 2019/20, mesmo volume apontado no relatório anterior. Baseado nas estimativas de produção, exportação e consumo, os estoques finais norte-americanos foram previstos em 6,7 milhões de fardos para a temporada 2019/20, ante 6,4 milhões no mês anterior. Para a safra 2018/19, são esperados 5 milhões de fardos.

Produção mundial — No âmbito global, o USDA estimou a produção de algodão em 125,79 milhões de fardos, ante 125,32 milhões no mês de junho. Para 2018/19, são esperados 119,32 milhões de fardos. As exportações mundiais foram estimadas em 44,15 milhões de fardos para 2019/20, ante 44,75 milhões projetados em junho. A estimativa para o consumo mundial é de 124,27 milhões de fardos, ante 125,27 milhões de fardos esperados no relatório passado. Os estoques finais foram projetados em 80,42 milhões de fardos, ante 77,26 milhões projetados no mês anterior. A expectativa é que a China colha 27,75 milhões de fardos na temporada 2019/20, mantendo o volume do mês de junho. A produção do Paquistão para 2019/20 foi prevista em 8 milhões de fardos, mesmo nível do mês anterior. O Brasil tem a safra 2019/20 estimada em 12 milhões de fardos, mesmo patamar do mês de junho. A produção indiana deve chegar a 29 milhões de fardos em 2019/20, ante 28,5 milhões no mês anterior.