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Milho

O clima é dos melhores

Todas as variáveis e números têm sido fantásticas ao milho: bons preços no embalo do alto consumo interno e das exportações aquecidas levaram o Brasil a obter uma produção recorde (mais de 107 milhões de toneladas em 2018/19) na maior área cultivada até hoje, sobretudo com uma segunda safra histórica. Até o etanol do cereal colaborou

Arno Baasch, [email protected]

Após registrar uma safra recorde na temporada 2018/19, com volumes acima de 107,492 milhões de toneladas, bem superior às 80,064 milhões na safra anterior, o que esperar de 2019/20? Analisando os números obtidos na safra de verão de 2019, o analista de Safras & Mercado Paulo Molinari ressalta que a produção ficou dentro do esperado, atingindo 24,846 milhões de toneladas, um pouco acima das 24,557 milhões de 2017/18. Esse crescimento ocorreu mesmo com uma área 3% menor ante a cultivada na safra anterior, de 4,056 milhões de hectares. “O clima, de modo geral, foi favorável em toda a primeira metade do ano, contribuindo para que a produtividade média superasse os 6.125 quilos por hectare. Tivemos um tempo mais quente em dezembro de 2018 e em janeiro de 2019, mas não houve grandes efeitos para o cultivo do cereal”, explica.

Na visão de Molinari, foi o clima favorável que possibilitou um cultivo antecipado da segunda safra de milho, entre os meses de janeiro e fevereiro, em uma ótima janela, o que ocasionou menores riscos climáticos e um excelente potencial de produtividade para a safrinha, uma vez que as chuvas registradas no outono foram bastante regulares nas regiões produtoras. “O maior exemplo foi a geada ocorrida em junho, que poderia ser muito danosa às lavouras, mas que praticamente não trouxe efeitos para o milho diante do plantio mais precoce”, pontua. Os bons patamares de preços do cereal também contribuíram para uma elevação da área cultivada na segunda safra em todas as regiões produtoras, que foi recorde, alcançando 12,258 milhões de hectares, 17,2% à frente dos 10,457 milhões de hectares registrados na safrinha 2018. O clima positivo contribuiu para que a produtividade média chegasse a 6.081 quilos por hectare, bem à frente dos 4.653 quilos obtidos na temporada anterior, possibilitando uma colheita recorde de 74,541 milhões de toneladas, superando as 48,656 milhões de toneladas colhidas em 2017/18. “O grande destaque foi novamente o Mato Grosso, que respondeu por uma safra de 30,291 milhões de toneladas, o que representa mais de 40% de todo o volume produzido pelo País na safrinha”, sinaliza.

Exportação superou expectativas — O analista ressalta que as exportações no primeiro semestre de 2019 ficaram acima da expectativa, atingindo 9,707 milhões de toneladas, à frente das 5,195 milhões de toneladas registradas entre janeiro e junho de 2018. “Houve uma demanda bastante efetiva para o cereal brasileiro por parte do Irã na primeira metade do ano, e os valores praticados nos portos foram bons, oscilando entre R$ 38,00 e R$ 42,00 para a saca de 60 quilos”, disse. Os patamares de preços mais elevados no primeiro trimestre do ano, cuja média variou entre R$ 35,17 e R$ 36,61 por saca, favoreceram as importações do cereal para atender à necessidade de demanda em estados do Nordeste e do Sul, especialmente do Paraguai. Os volumes adquiridos na primeira metade de 2019 ficaram em 311,511 mil toneladas, aquém das mais de 1,153 milhão de toneladas registradas em 2018. Os maiores compradores foram Santa Catarina (160,602 mil toneladas) e Paraná (108,384 mil toneladas). No que tange às exportações para o segundo semestre, um ponto que precisa ser analisado, e que ainda está em aberto, é o tamanho da safra 2019 dos Estados Unidos. “Dependendo desse número, os preços poderão seguir firmes nos meses finais do ano, sugerindo maiores volumes de exportação”, sinaliza.

O analista afirma que o câmbio já não se mostra tão favorável no segundo semestre de 2019 quanto nos meses iniciais do ano. “Portanto, novas altas externas de preço são necessárias para refletir nas cotações internas do milho e para contribuir para um enxugamento da oferta doméstica. Nos meses de junho e julho, por exemplo, os embarques foram recordes e os patamares de preços, positivos, superando a marca de R$ 40,00 nos portos”, cita. Com a maior safrinha de sua história, o Brasil precisa atingir ótimas exportações ao longo da segunda metade do ano. A projeção de Safras & Mercado indica volumes de 34,150 milhões de toneladas neste ano comercial, o que corresponderia a embarques de pelo menos 4 milhões de toneladas entre os meses de setembro e janeiro de 2020. “Para alcançar novos recordes, entre 38 milhões e 40 milhões de toneladas, os embarques entre setembro e janeiro precisariam manter uma média de 5 milhões de toneladas mensais. Dessa forma, o esforço brasileiro ainda requer a combinação de fatores de demanda global com preços favoráveis, além de vendas no mercado interno”, avalia.

Oferta em 120,574 milhões de toneladas — Molinari afirma que, considerando o estoque inicial de passagem de 12,282 milhões de toneladas, somado à produção de 107,492 milhões e às importações previstas de 800 mil, a oferta total de milho em 2019 deverá atingir 120,574 milhões de toneladas, acima das 102,659 milhões disponibilizadas no ano passado. No que tange ao consumo interno, o analista afirma que o volume recorde produzido em 2019 está sendo bem absorvido pelo mercado, devendo chegar a 69,635 milhões de toneladas, superando as 65,337 milhões demandadas em 2018. No primeiro semestre, houve um incremento considerável na demanda voltada ao segmento de etanol, o que tende a se repetir nos meses finais do ano. O consumo total previsto para 2019 deve ficar em 3,2 milhões de toneladas, superando as 2,25 milhões de toneladas registradas no ano passado.

Merece destaque também a demanda do segmento de alimentação animal, que tende a alcançar 53,577 milhões de toneladas, superando as 51,143 milhões de toneladas do cereal consumidas em 2018. Este incremento se deve à avicultura, que voltou a trabalhar com alojamentos de pintos de corte acima de 520 milhões de cabeças por mês, cenário que tende a ser mantido para a segunda metade de 2019. Para Molinari, outro fator importante é o abate de suínos com um peso acima da média normal, o que sugere que o mercado está tentando produzir mais carne enquanto os plantéis não conseguem apontar para um crescimento.

Safras & Mercado projeta que o consumo humano de milho deverá continuar em 1,625 milhão de toneladas e o uso do cereal pelo segmento industrial deve passar de 9,399 milhões para 9,969 milhões de toneladas. Já a demanda interna de milho voltada ao segmento de sementes deverá ficar em 1,264 milhão de toneladas, superando as 919 mil registradas em 2018. O consumo total previsto de milho em 2019, considerando a demanda interna e um volume de exportação de 34,150 milhões de toneladas, deverá ficar em 103,785 milhões de toneladas, volume que supera as 90,378 milhões do ano anterior. Já o estoque final de passagem deverá ser mais confortável em relação a 2018, ficando em 16,780 milhões de toneladas.

Plantio menor e 2019/20 — Segundo o analista de Safras & Mercado Paulo Molinari, enquanto o País ainda colhia a maior safrinha da história, os produtores começavam a decidir qual o perfil a ser adotado no plantio da nova safra de milho. Ele entende que será muito difícil, mais uma vez, quebrar o binômio do plantio de verão com soja e de inverno com milho. “A atenção está nas regiões que não dispõem desta alternativa de cultivo, como boa parte dos estados do Sul e do Sudeste”, afirma. Os preços do milho, mesmo em bons patamares na comparação com outros anos, ainda não apresentaram valores suficientes para entusiasmar o produtor a voltar a elevar o plantio no verão. Por outro lado, ainda é difícil apontar uma curva de reversão para a safrinha 2020, a qual poderá ter alguma acomodação em área plantada, mas ainda dependerá dos acontecimentos até janeiro de 2020. “O fato importante é que o Brasil precisará se acostumar a trabalhar com uma safra de milho superior a 100 milhões de toneladas anuais, situação que direciona o País como mais um exportador permanente de grandes volumes a cada ano”, esclarece.

Outro fator a ser observado é o custo de produção, que tende a ser maior no cultivo de verão 2019/20 frente ao anterior devido aos preços dos fertilizantes. “O câmbio oscila entre R$ 3,70 e R$ 4,00, mas os preços dos fertilizantes estão em patamares mais elevados. Estimamos, neste momento, que o custo de produção na safra de verão deva oscilar entre R$ 22,00 e R$ 25,00 por saca. Já o preço de venda para a saca na primeira safra deverá ficar em R$ 30,00”, informa.

O mais recente levantamento de Safras & Mercado de intenção de plantio para a temporada 2019/20 indicou que a área na safra de verão no Centro-Sul deverá recuar 2,5%, ocupando 3,957 milhões de hectares. A retração mais expressiva, de 5%, deverá ocorrer no Paraná, atingindo 482,340 mil hectares, por conta da preferência dada pelos produtores ao cultivo da safrinha. Já o Rio Grande do Sul deverá ser o estado de maior cultivo de milho no verão, com 1,112 milhão de hectares, mesmo com um indicativo de que a área possa retroceder 0,4% frente à temporada anterior. A produtividade média deverá ficar em 6.093 quilos por hectare na safra verão, abaixo da anterior. Segundo Molinari, a expectativa é de que o Paraná possa obter um rendimento médio de 6.900 quilos/hectare, à frente de São Paulo, com 6.400 quilos; e de Santa Catarina, com 6.300 quilos.

A produção da primeira safra do Centro-Sul do cereal está estimada em 24,110 milhões de toneladas, abaixo da registrada na temporada anterior. A maior produção tende a ser registrada no Rio Grande do Sul, com 6,565 milhões de toneladas, à frente de Minas Gerais, com 5,336 milhões; e de Santa Catarina, com 4,152 milhões. Inicialmente, Safras indica uma retração de 1,3% na área a ser plantada com a safrinha em 2019/20, ocupando 12,103 milhões de hectares. O Mato Grosso vai liderar o cultivo da segunda safra, com 4,987 milhões de hectares, 0,6% menor frente à área registrada neste ano, seguido pelo Paraná, com 2,183 milhões; e por Goiás, com 1,987 milhão. Segundo o analista, como a área da segunda safra cresceu muito em 2019, alguma acomodação parece normal para 2020. Para que haja uma manutenção de ritmos elevados de expansão na área plantada em 2020, alguns fatores precisarão ocorrer. “O primeiro seria uma janela ótima de plantio, a exemplo do que ocorreu em 2019. Para isso, o cultivo de soja terá que ocorrer de forma precoce. O segundo ponto é que o câmbio, provavelmente, não será um bom formador de preços em 2020, ou seja, não ajudará os preços nos portos a alavancar negócios na exportação”, explica.

Área segunda safra 2020 — Por conta desses fatores, um incremento de área na safrinha 2020 está diretamente condicionado a uma variável externa de preços, com uma safra norte-americana em 2019 muito discreta. “Esse quadro ainda não parece estar concretizado, mas a safrinha terá até janeiro para encontrar fatores para motivar ou não o produtor ao plantio”, avalia. O rendimento médio da safrinha 2020 tende a ser menor, de 5.965 quilos/hectare.

As maiores médias de produtividade são esperadas para São Paulo, com 6.100 quilos/hectare, seguido por Paraná e Goiás, com 6.050 quilos cada. Com as menores área e produtividade previstas, a segunda safra deverá ser inferior frente à colhida em 2019, atingindo 72,194 milhões de toneladas. A área cultivada nas regiões Norte e Nordeste na temporada 2019/20 deverá ocupar 1,622 milhão de hectares, retrocedendo 3,9%. Com uma produtividade média de 4.725 quilos/hectare, inferior aos 4.799 quilos de 2019, a safra de milho dessas regiões deverá atingir 7,665 milhões de toneladas, aquém das 8,103 milhões obtidas na temporada 2018/19. A área total plantada com milho deverá ser de 17,682 milhões de hectares em 2019/20, recuando 1,8%, e a produção deverá ficar abaixo da registrada na safra 2018/19, em 103,970 milhões de toneladas. Já o rendimento médio também tende a ser inferior, em 5.880 quilos/por hectare.