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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

Liderança

Os produtores brasileiros vão ampliar a área da soja em razão das condições favoráveis de demanda, sobretudo porque a China, em guerra comercial com os Estados Unidos, vai se abastecer ainda mais na América do Sul. Ao mesmo tempo, os americanos, principais concorrentes dos brasileiros, vão diminuir sua produção. A síntese dessa conjuntura é que o Brasil, com perspectiva de produzir 123 milhões de toneladas em 2019/20, assume, pela primeira vez, a posição de maior produtor mundial da oleaginosa.

Dylan Della Pasqua, [email protected]

A expansão anual na área de soja brasileira deve se confirmar na atual temporada, ainda que o ritmo da elevação do plantio seja menor do que o de anos anterior. Por um lado, os agricultores se veem impelidos a aumentar o cultivo, em meio às condições de mercado melhores que de outras culturas e pela perspectiva de demanda aquecida, reflexo da continuidade da guerra comercial entre China e Estados Unidos. A tendência é que os chineses, principais compradores mundiais da oleaginosa, sigam direcionando sua demanda para a América do Sul, deixando a soja americana em segundo plano. Essa perspectiva indica que a aposta na soja deve ser prioridade no Brasil.

Mas o cenário também apresenta seus desafios. As cotações apresentaram muita volatilidade ao longo de 2019, acompanhando o mercado internacional. A questão do câmbio também merece atenção, com as apostas dos investidores e a continuidade das reformas, e das retomadas da confiança internacional no Brasil e do crescimento econômico. Os custos de produção também se apresentam como um grande entrave. Os obstáculos, no entanto, não impedirão o Brasil de assumir o topo na produção e na exportação mundial da oleaginosa na atual temporada.

Os produtores brasileiros de soja deverão cultivar 36,631 milhões de hectares em 2019/20, a maior área da história, crescendo 0,8% sobre o total semeado no ano passado, de 36,339 milhões. A projeção faz parte do levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado, divulgado em meados de julho de 2019. Com uma possível elevação de produtividade, de 3.270 quilos para 3.396 quilos por hectare, a produção nacional deve ficar acima da obtida nesta temporada. A previsão inicial é de uma safra de 123,788 milhões de toneladas, 4,7% maior que as 118,242 milhões obtidas neste ano.

O analista de Safras & Mercado Luiz Fernando Roque destaca que, apesar do novo recorde, o ritmo de aumento da área deverá diminuir nesta safra, em comparação com as anteriores. As incertezas com relação a questões fiscais no Brasil – como as discussões envolvendo a Lei Kandir e o Funrural –, somadas a um novo aumento dos custos, à queda recente nos preços e a indefinições sobre os rumos do mercado internacional no contexto da guerra comercial, trazem um cenário de desconforto para o produtor brasileiro neste momento. “Tal desconforto leva, inicialmente, à intenção de elevar pouco a área a ser semeada com soja na nova temporada. Além disso, a recente melhora na remuneração da pecuária brasileira diminuiu o ímpeto da transferência de pastagens para o cultivo da oleaginosa”, explica Roque. Devem haver algumas transferências de áreas de feijão e milho verão nas regiões centrais do País, mas também em um ritmo inferior às safras anteriores. A maioria dos estados deverá ter aumento de área. Essa nova elevação da área brasileira, mesmo que sutil, trará novamente um potencial produtivo recorde para o País. “Se o clima permitir, o Brasil poderá se consolidar como o maior produtor do mundo da oleaginosa na temporada 2019/20, com potencial inicial de produção de 123,8 milhões de toneladas”, conclui o consultor.

Exportações — As exportações deverão totalizar 77 milhões de toneladas em 2020, 7% sobre o volume de 2019, projetado em 72,1 milhões de toneladas. A previsão compõe o quadro brasileiro de oferta e demanda, divulgado por Safras & Mercado. “A manutenção da guerra comercial entre EUA e China deverá levar novamente a uma forte demanda chinesa pela soja brasileira, enxugando nossos estoques”, destaca Roque. O esmagamento também deve crescer frente a uma maior demanda por exportação de carnes. Safras indica esmagamento de 43,75 milhões de toneladas, em 2020, e de 43,2 milhões em 2019, representando um aumento de 1% entre uma temporada e outra. Em relação à temporada 2020, a oferta total do grão deverá subir 5%, passando para 124,067 milhões de toneladas.

A demanda total está projetada por Safras em 123,95 milhões de toneladas, com ganho de 5%. Dessa forma, os estoques finais deverão cair 9%, passando de 129 mil para 117 mil toneladas. Safras trabalha com uma produção de farelo de soja de 32,95 milhões de toneladas, inalterada. As exportações deverão cair 3%, para 15,5 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno está projetado em 17,5 milhões, aumento de 3%. Os estoques deverão cair 6%, para 838 mil toneladas. A produção de óleo de soja deverá ficar em 8,685 milhões de toneladas. O Brasil deverá exportar 700 mil toneladas, com queda de 24% sobre o ano anterior. O consumo interno deve subir de 7,9 milhões para 8,05 milhões de toneladas. A previsão é de recuo de 14% nos estoques para 93 mil toneladas.

O relatório de agosto de 2019 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou safra mundial de soja em 2019/20 de 341,83 milhões de toneladas. No relatório anterior, a previsão era de 347,04 milhões. Os estoques finais estão estimados em 101,74 milhões de toneladas. O mercado esperava por estoques finais de 106,2 milhões de toneladas. Em julho, a previsão era de 104,5 milhões. A projeção do USDA aposta em safra americana de 100,2 milhões de toneladas, contra 104,64 milhões previstos em julho. Para o Brasil, a previsão é de uma produção de 123 milhões de toneladas. A Argentina deverá produzir 53 milhões de toneladas. A produção, em 2018/19, teve sua projeção indicada em 362,85 milhões de toneladas. Os estoques finais foram elevados de 113 milhões para 114,5 milhões de toneladas. O mercado apostava em número de 113,4 milhões de toneladas. A safra brasileira foi mantida em 117 milhões de toneladas, enquanto a produção argentina teve sua estimativa inalterada em 56 milhões. Nos dois casos, o mercado já apostava nesses movimentos. A estimativa para as importações chinesas em 2019/20 foi reduzida de 87 milhões para 85 milhões de toneladas.

Estados Unidos — O relatório do USDA indicou safra americana abaixo do relatório anterior e também menor que a estimativa do mercado. Os estoques de passagem também foram cortados para a temporada 2019/20. A produção 2019/20 está estimada em 3,680 bilhões de bushels, ou 100,15 milhões de toneladas. O mercado esperava uma safra de 3,783 bilhões de bushels, ou 102,95 milhões de toneladas. No relatório de julho, a previsão era de 3,845 bilhões de bushels, ou 104,6 milhões de toneladas. Para 2018/19, a previsão foi mantida em 4,544 bilhões de bushels, ou 123,6 milhões de toneladas. Os estoques finais em 2019/20 estão projetados em 755 milhões de bushels, o equivalente a 20,55 milhões de toneladas, enquanto o mercado apostava em número em torno de 22,26 milhões. No relatório anterior, a previsão era de 795 milhões de bushels, ou 21,63 milhões de toneladas. Para 2018/19, o USDA elevou sua projeção de 1,05 bilhão de bushels – 28,6 milhões – para 1,07 bilhão de bushels – 29,1 milhões de toneladas. O mercado apostava em 1,069 bilhão de bushels, ou 29,09 milhões de toneladas.

Principal concorrente do Brasil no mercado mundial, os Estados Unidos sentem os efeitos da batalha tarifária travada contra os chineses. Com o deslocamento da maior parte das compras do país asiático para a América do Sul, principalmente para o Brasil, o produtor dos Estados Unidos não investiu na produção da oleaginosa, sentindo também o impacto de preços não tão bons no mercado internacional. Para completar o cenário negativo, o clima não ajudou no desenvolvimento das lavouras americanas, comprometendo o resultado da safra daquele país, que deve ficar em torno de 100 milhões de toneladas, 25 milhões a menos do as estimativas iniciais para a colheita do Brasil. Na Argentina, a situação também melhorou. Depois da quebra, em 2017/18, a produção argentina saltou para 56 milhões de toneladas, resultado de bons preços e de produtividade acima do esperado. Para 2019/20, o quadro segue favorável. Sem problemas climáticos, os argentinos deverão colher mais uma safra cheia, em torno de 53 milhões de toneladas, de olho também na demanda chinesa.

Comercialização — A negociação da soja em 2019 tem apresentado um comportamento errático. Na comparação com o ano anterior, a comercialização se mantém em ritmo lento. Esse desempenho se explica pelo comportamento dos preços médios até agosto. Dados de Safras & Mercado indicam que a cotação média da saca de 60 quilos no mercado brasileiro atingiu R$ 70,60 em julho de 2019, abaixo dos R$ 72,80 de junho – pico do ano –, mas acima do patamar praticado no início do ano, de R$ 69,35. Em julho de 2018, a cotação média ficou em R$ 76,52. A comercialização da safra 2018/19 envolve 78% da produção projetada, conforme relatório de Safras, com dados recolhidos até 9 de agosto. No relatório anterior, com dados de 5 de julho, o número era de 71,1%. “Houve um bom avanço ao final do mês de julho e início de agosto devido à melhora nos prêmios e câmbio”, informa o analista Roque.

Em igual período do ano passado, a negociação envolvia 83,7%, e a média para o período é de 82,4%. Levando-se em conta uma safra estimada em 118,242 milhões de toneladas, o total de soja já negociado é de 92,224 milhões de toneladas. A comercialização antecipada da safra 2019/20 envolve 15,7% da produção projetada. No relatório anterior, divulgado em 5 de julho, o número era de 14,7%. Em igual período do ano passado (2018), o total negociado chegava a 17,9%, e a média histórica é de 14,3%. Levando-se em conta uma safra estimada em 123,788 milhões de toneladas, o total de soja já negociado é de 19,429 milhões de toneladas.

Demanda crescente pela soja brasileira — O chairman da COFCO International, Jingtao Chi, projeta que as compras da empresa de soja brasileira deverão crescer 5% ao ano nos próximos cinco anos. A estatal chinesa é uma das principais compradoras da oleaginosa do principal consumidor mundial da oleaginosa. O dirigente fez questão de garantir que a empresa está focada em desenvolver a parceria com os vendedores brasileiros. “Somos os principais compradores de soja do mundo, e o Brasil, o maior exportador. A parceria com o Brasil é importante, e temos interesse em investir em armazéns, transporte e beneficiamento aqui”, frisou. Chi avalia que o ambiente para negócios parece mais seguro no no Brasil, e o momento é de projetar como aprofundar a parceria entre os dois países. Para ele, a agricultura brasileira tem o equilíbrio necessário entre crescimento econômico e aposta na sustentabilidade. Essa combinação faz com que a COFCO queira trabalhar junto com o agronegócio nacional para viabilizar oportunidades.

Recentemente, a empresa garantiu um empréstimo de US$ 2,3 bilhões para investir em projetos sustentáveis. Para o diretor, essa é uma grande oportunidade para o agricultor brasileiro que atenda a normas ambientais. “Queremos aumentar a produção de soja no Brasil de forma sustentável”, assegurou. O executivo garantiu que a empresa tem interesse em investir em parcerias que envolvam insumos e seguro agrícola para oferecer um pacote completo para uma produção mais sustentável no Brasil. “Vamos oferecer mais produtos e pacotes tecnológicos ao agricultor brasileiro para ampliar a parceria”, concluiu. Em 2018, a COFCO adquiriu 13 milhões de toneladas de soja no Brasil. O chairman disse estar confiante na expansão dos negócios da empresa no Brasil. “A demanda tende a crescer na China e no mundo, em meio à perspectiva de uma população mundial de 9 bilhões de habitantes até 2050.” “Na China, a demanda por alimentos, incluindo carnes, é crescente, acompanhando a alavancagem da economia. O padrão de vida da população melhora e, em consequência, aumenta a procura por dietas com maior teor de proteína”, destacou o dirigente.

Na avaliação do dirigente, esse cenário vai exigir que o mundo comercialize, armazene, processe, transporte e distribua mais commodities agrícolas do que nunca. “Na COFCO, estamos nos posicionando para esse futuro, construindo parcerias de longo prazo com as regiões agrícolas mais importantes do mundo. Nossas relações com o Brasil são vitais para o nosso sucesso conjunto”, disse. Jingtao Chi ressalvou que a busca por esses acordos poderá esbarrar em desafios, lembrando a guerra comercial entre Estados Unidos e China.

“Mas, do ponto de vista da COFCO, o relacionamento de longo prazo entre nossos países e nossos negócios parece muito sólido. Nessa relação, uma parte é um grande importador de commodities agrícolas e a outra é um país com abundante produtividade agrícola. Somos, ambos, membros do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul)”, destacou.

Essas perspectivas que justificam os investimentos feitos pela estatal no Brasil em infraestrutura, como armazenamento, processamento e portos. “Nos próximos anos, pretendemos aumentar ainda mais nossos investimentos em logística de transporte e novos silos. Esses investimentos dependerão, obviamente, da existência continuada de um ambiente de investimento estável e previsível”, disse. Segundo ele, somente em 2018, a empresa negociou 106 milhões de toneladas de commodities agrícolas, incluindo grãos, oleaginosas, açúcar, algodão e café. “Também temos feito bons progressos para nos aproximarmos dos agricultores. Hoje, nós obtemos mais de 40 milhões de toneladas diretamente dos agricultores. Queremos que esse número aumente para 60 milhões até 2022”, projetou. O Brasil é o principal fornecedor da COFCO. “Em 2018, negociamos mais de 13 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas do Brasil.”