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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Batata

Enterrada em crise

Lideranças apontam o momento da bataticultura como o pior já conhecido, com produtores gastando na lavoura mais do que recebem e com procura pelo produto aquém do que precisam. Até a produtividade é instável

Leonardo Gottems

Após quase dois anos em crise, talvez esse seja o pior cenário que o produtor brasileiro de batatas poderia ter imaginado. Depois de um período de fartura entre 2013 e 2016, com preços e produção em alta – resultado do clima favorável por Fotos: Divulgação efeito do fenômeno climático El Niño – a situação começou a despencar em queda livre, com bataticultores gastando mais do que ganham, sofrendo com a falta de procura e com uma produtividade instável. De acordo com Antônio Bortoletto, analista da Secretaria de Inovação e Negócios (SIN) da Embrapa Clima Temperado, nunca foi visto um período tão longo de crise que gerasse uma descapitalização tão severa dos produtores. Segundo ele, o máximo de problemas já registrados pela SIN na década anterior era de uma safra com prejuízo, mas que logo seria compensada com a colheita seguinte.

Batata

Natalino Shimoyama, diretor-executivo da Associação Brasileira da Batata (ABBA), classificou a situação como a pior já registrada em todos os tempos, com os preços cada vez mais baixos desde 2016. Para ele, esse fator negativo da bataticultura é influenciado diretamente pela crise econômica e política que o Brasil enfrenta. Ele acredita que a população está gastando menos devido à instabilidade da economia, e, consequentemente, os produtores de batata também estão vendendo menos. “Geralmente, os períodos de crise duravam cerca de dois meses, e, quando a oferta reduzia, os preços recuperavam. Atualmente, a oferta varia, e os preços permanecem baixos. Muitos produtores vendiam diariamente de 3.000 a 5.000 sacas de 50 quilos para alguns compradores. Atualmente, têm sido comum os pedidos reduzirem para menos de 1.000 sacas/dia”, explica.

Nesse cenário, o pesquisador de batata do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), João Paulo Bernardes Deleo, analisa o momento produtivo do mercado no passar dos anos: “Desde o final de 2016, a rentabilidade com a batata não é boa. O ano de 2017 foi praticamente todo com preços abaixo dos custos de produção, e, em 2018, apesar de uma significativa melhora dos preços quando comparado ao ano passado, as margens ainda são estreitas e há produtores que continuam amargando prejuízos”.

Futuro incerto — Até meados de 2019, Deleo alerta que a safra de inverno ainda deve ser de pressão de oferta, já que não há expectativa de redução de área cultivada. Para ele, ao fim da colheita de inverno, é esperado que ocorra uma reação dos preços. O pesquisador explica, ainda, que o fato de o produtor vir se descapitalizando desde o final de 2016 torna difícil manter os investimentos e, como consequência, obter mais lucro. Já Shimoyama é um pouco mais pessimista: “É difícil fazer previsões por períodos maiores de seis meses para batata, pois o clima pode interferir significativamente para melhor ou pior, ou seja, aumentar ou diminuir a produtividade. A curto prazo, até o final de 2018, a situação deve piorar”. “O principal (fator), sem dúvidas, é a retração de consumo generalizada devido à falta de empregos. Outro fator importante que influenciará o excesso de produção é que as condições climáticas estão favoráveis em diversas regiões produtoras.”

Batata

A crise econômica leva a população a gastar menos em gêneros alimentícios, e, consequentemente, os produtores de batata acabam vendendo menos

Para tentar elevar os ganhos dos produtores e conseguir restaurar o mercado da batata, descolando da crise, os especialistas listam uma série de fatores que devem ser adotados imediatamente. Para Shimoyama, por exemplo, o maior entrave deve ser atribuído ao Governo. Ele acredita que exista, em se tratando da bataticultura, falência das instituições de pesquisas, ausência de defesa fitossanitária, legislações inadequadas, excesso de tributos e abertura irrestrita às importações. Nesse sentido, Deleo explica que, para o produtor crescer e se manter na atividade, é sempre muito importante que ele faça um bom planejamento. Para isso, sustenta, é fundamental a gestão e um controle correto e bem apurado dos seus custos. “Produzir com o menor custo unitário (por saca) e boa qualidade, comprar bem os insumos e comercializar bem a produção são a chave para o sucesso. É claro que isso não é simples, e, por isso, todo um trabalho deve ser feito, com um bom planejamento, para que consiga atingir esses objetivos”, comenta.

Já Bortoletto atribui a crise à falta de qualidade e opções da batata in natura, que é disponibilizada para as pessoas nas gôndolas de supermercado. Para o analista, as pessoas preferirão comprar produtos processados porque esses são de melhor qualidade e permitem um longo tempo de armazenagem. “Se a pessoa compra um quilo, ela usa um quilo. Muitas vezes, as batatas vendidas são de péssima qualidade e acabam estragando muito rápido”, opina. De acordo com Deleo, há uma tendência no Brasil e no mundo da queda de consumo da batata in natura. No entanto, afirma que, ao contrário de outros países em que o consumo de batata industrializada já se consolidou, no Brasil, esse perfil de produto vem crescendo muito nos últimos anos e ainda deve manter um bom ritmo de crescimento no futuro.