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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Boi Gordo

Segmento atrapalhado pelo Brasil

Boi

As incertezas econômicas e políticas do País atingem o consumo interno de carne bovina pelo brasileiro, que, visto a crise, opta por proteínas de origem animal mais baratas. A greve dos caminhoneiros também ajudou a comprometer a situação. Mas o ritmo de abate de bovinos segue tranquilo, a firmeza dos preços do bezerro e do boi magro contribui para a sustentação do restante da cadeia, e o boi gordo tem um indicativo de sustentação de preços no segundo semestre de 2018. O lado “bom” da crise é a consequente desvalorização do real, que ajuda nas exportações de carne

Arno Baasch
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O mercado de boi tem sido diretamente impactado em 2018 pelo tumultuado cenário político e econômico do Brasil. A cada semana, as estimativas de crescimento do PIB vêm sendo revisadas para baixo. O quadro se mostra ainda menos animador considerando os efeitos da greve nacional dos caminhoneiros, ocorrida em maio de 2018, que resultou no tabelamento dos fretes e no aumento de custos em todas as esferas da cadeia produtiva, o que tende a afetar ainda mais o desempenho do setor. De acordo com o analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias, com o crescimento econômico bastante delimitado no País em 2018, o consumo de carne bovina segue preterido em relação às demais proteínas animais, especialmente à carne de frango. “A população brasileira tende a continuar optando por produtos que causem um menor impacto em sua renda média”, afirma.

Iglesias ressalta que o fraco desempenho das exportações de carne suína ao longo do primeiro semestre de 2018, com recuo de 18,79%, diante do embargo imposto no último bimestre de 2017 pela Rússia, contribuiu para um incremento da disponibilidade interna, que alcançou um volume de 1,696 milhão de toneladas, aumento de 3,43% frente ao mesmo período de 2017. Na carne de frango, o ritmo de embarques também sofreu um declínio expressivo nos seis primeiros meses de 2018, de 13,43%, por conta da interrupção das compras pela União Europeia e da adoção de tarifas antidumping por parte da China ao produto brasileiro. Isso fez com que a disponibilidade interna da proteína aumentasse 9,25% no primeiro semestre de 2018 frente ao mesmo período de 2017, atingindo 4,930 milhões de toneladas.

Bons volumes de exportação em 2018 — Ao contrário das proteínas concorrentes, a carne bovina vem tendo um desempenho muito bom nas exportações, o que tem ajudado a garantir bons números para a balança comercial brasileira em 2018. Segundo levantamento de Safras & Mercado, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), no primeiro semestre do ano, o Brasil exportou 961,78 mil toneladas, aumento de 1,19% frente ao mesmo período de 2017, de 950,4 mil toneladas. A receita atingiu US$ 2,663 bilhões, incremento de 2,94% frente aos US$ 2,586 bilhões. Iglesias lembra que o setor foi afetado, no primeiro semestre de 2017, pelos efeitos da Operação Carne Fraca, levando diversos países a embargar provisoriamente as proteínas de origem animal brasileiras. “Neste ano (2018), o fato ruim é que as exportações para a Rússia seguem embargadas. A boa notícia, por outro lado, é o aumento das exportações para a China, o que tem contribuído para o aumento dos embarques de carne bovina”, sinaliza.

Na primeira metade do ano, Hong Kong foi o principal cliente brasileiro, adquirindo 228,273 mil toneladas de carne bovina, à frente da China, com 180,580 mil toneladas; do Egito, que comprou 103,736 mil toneladas; e dos países do bloco europeu, que importaram 80,350 mil toneladas. Entre os estados exportadores, São Paulo liderou o ranking, embarcando 253,809 mil toneladas de carne bovina, à frente de Mato Grosso, com 157,866 mil toneladas; de Goiás, com 132,754 mil toneladas; e Rondônia, com 98,017 mil toneladas. Iglesias sinaliza que os números, ao longo do ano, poderiam ser ainda melhores não fosse o péssimo resultado obtido em junho, decorrente dos efeitos da greve nacional dos caminhoneiros, que derrubou os volumes embarcados. As exportações de carne bovina no sexto mês de 2018 ficaram em 93,38 mil toneladas, retração de 47,87% frente às 179,16 mil toneladas no mesmo período do ano anterior. A receita teve um declínio de 37,8%, de US$ 499,938 milhões para US$ 310,923 milhões.

Disponibilidade segue bem ajustada no mercado interno — O bom desempenho dos embarques de carne bovina, somado ao quadro mais enxuto da produção, tem contribuído para manter a disponibilidade interna bastante ajustada ao longo do ano. Segundo levantamento de Safras & Mercado, a disponibilidade interna de carne bovina atingiu 3,687 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2018, declínio de 2,43% frente às 3,779 milhões de toneladas disponibilizadas no mesmo período de 2017. A produção também se mostra bastante ajustada. O volume registrado no primeiro semestre chegou a 4,544 milhões de toneladas, volume 3,5% inferior ao registrado entre janeiro e junho de 2017, de 4,709 milhões de toneladas.

Iglesias afirma que a carne bovina possui, hoje, o melhor perfil de oferta em relação ao potencial de consumo. “O grande obstáculo para uma sinalização de movimentos mais agressivos de alta no preço da carne no atacado está no excedente de oferta registrado pelas proteínas animais concorrentes”, esclarece. O ritmo de abate de bovinos segue bastante controlado no mercado interno ao longo do ano. O volume acumulado no primeiro quadrimestre de 2018 chegou a 10,843 milhões de cabeças, 2,32% abaixo das 11,101 milhões de cabeças abatidas no mesmo período de 2017. Iglesias sinaliza que esse maior equilíbrio da oferta no mercado doméstico resulta também do menor ritmo de nascimentos de animais desde o final de 2017, quando houve uma elevação no abate de matrizes.

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O principal obstáculo para altas mais agressivas no preço da carne no atacado está no excedente de oferta registrado pelas proteínas animais concorrentes

Os preços do gado de reposição iniciaram o ano em patamares elevados e têm encontrado sustentação até meados de 2018, mesmo com uma demanda menos aquecida em meio à elevação dos custos para confinamento. A firmeza dos preços do bezerro e do boi magro vem contribuindo para a sustentação do restante da cadeia produtiva. Para o boi gordo, o comportamento dos preços também aponta para um indicativo de sustentação ao longo do ano. “Mesmo entre os meses de maio e junho, período marcado pelo ápice da safra de boi gordo, não houve um movimento agressivo de queda, com as cotações da arroba permanecendo em patamares próximos a R$ 140 no mercado de São Paulo. A tendência para os próximos meses também tende a ser de um quadro de preços mais sustentado”, sinaliza.

Com uma perspectiva de custo de produção mais elevado em 2018 frente ao ano anterior, considerando o aumento do milho, farelo de soja e outros insumos usados na alimentação animal, além do alto preço do gado de reposição, a expectativa é de que a atividade de confinamento tenha um crescimento bastante limitado no ano. Safras & Mercado projeta um confinamento de 3,417 milhões de bovinos em 2018, 0,1% acima dos 3,415 milhões de animais do ano anterior. O crescimento deverá ser puxado pelo Mato Grosso, de 1,3%, confinando 812,5 mil cabeças, seguido por São Paulo, de 0,8%, que deve confinar 635 mil bovinos. Já em Mato Grosso do Sul é esperado um declínio de 0,8% na atividade de confinamento, atingindo 782,7 mil cabeças, seguido pelo Paraná, de 0,6%, que espera confinar 137,8 mil animais.

Desvalorização cambial favoreceria exportação — Com um quadro de menor oferta de carne bovina, contrastando com uma maior disponibilidade de oferta entre as demais proteínas animais concorrentes, como a carne de frango e a suína, o cenário para o segundo semestre de 2018 tende a seguir acirrado em termos de demanda no mercado interno no atacado. “Os frigoríficos devem permanecer encontrando dificuldades para estabelecer repasses de custos ao longo da cadeia produtiva, temendo por uma queda no consumo”, afirma. Para o analista, uma melhora nos preços do boi gordo nos últimos meses do ano, como foi observado entre 2014 e 2016, será possível apenas com a retomada do crescimento econômico em níveis satisfatórios, favorecendo um incremento da renda e do consumo. Em meio ao cenário de incertezas com relação ao quadro político brasileiro, diante do acirramento de uma disputa eleitoral completamente imprevisível, há uma tendência de desvalorização ainda maior do real frente ao dólar, o que poderia garantir maior competitividade para o setor de carne bovina no cenário internacional.