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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

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Uma temporada sombria

O cenário global para o açúcar é de estoques recordes, desaceleração do consumo e aumento robusto da produção. A explicação é que a Índia está produzindo uma safra recorde e com previsão de novo aumento em 2019, visto que o governo subsidia a produção e os estoques, enquanto a China passou a produzir mais e a importar menos. E o Brasil? Usinas priorizam o etanol

Fabio Rubenich
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O trocadilho é inevitável, mas o setor de açúcar vive um ano dos mais amargos na temporada 2017/18, que, no mercado internacional, vai de outubro a setembro. Os estoques globais deverão atingir um recorde e, por conta da desaceleração do consumo e do aumento robusto da produção, a commodity registra o pior desempenho Divulgação entre todas as demais em 2018 no Bloomberg Commodity Index, que monitora os retornos de 22 componentes. Desde o início de 2018 até o final de julho, a referência dos preços futuros do açúcar bruto da Bolsa de Nova York caiu 30%, passando de 15,21 centavos de dólar por libra-peso para 10,55 centavos, tocando em mínimas de dez anos. De acordo com a consultoria de commodities Green Pool, o superávit global de oferta na atual temporada 2017/18 vai ser de 19,5 milhões de toneladas. A produção global de açúcar deve crescer em 23,8 milhões de toneladas na comparação com o ano anterior. A consultoria atribui principalmente à Índia o excedente mundial de oferta.

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A Green Pool aumentou a estimativa para o superávit previsto para 2018/19, de 6,55 milhões de toneladas para 6,62 milhões. Embora ainda seja um significativo excedente, é quase 13 milhões de toneladas menor que o massivo superávit esperado para 2017/ 18. A consultoria disse que a maior parte do corte na produção acontecerá no Centro-Sul do Brasil, onde a safra deve cair de 36 milhões de toneladas para 29 milhões de toneladas. Esses números poderão variar ainda, dependendo dos preços do petróleo e de quanto mais favorável será para as usinas direcionar cana para o açúcar ou para o etanol, finalizou a Green Pool.

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A safra deverá ser mais alcooleira (62% no mix) pelo preço ruim do açúcar e porque a estiagem no Centro-Sul reduz a qualidade da cana, o que favorece a produção de etanol

Um retrato local do momento negativo dos preços internacionais que parece não ter fim, o grupo Clealco, um dos mais tradicionais do setor sucroenergético brasileiro, dono de três usinas no estado de São Paulo, anunciou, em julho de 2018, que entrou com pedido de recuperação judicial. Em agosto de 2017, segundo a agência de notícias Reuters, a empresa havia chegado a um acordo com bancos para refinanciar quase R$ 1 bilhão em dívidas. Conforme a empresa, o cenário comercial de extrema adversidade, decorrente de uma contínua deterioração dos preços do açúcar VHP (principal produto comercializado) no mercado internacional, que reduziu ainda mais a rentabilidade do negócio, e a quebra de safra da cana, ocasionada por intempéries climáticas, trouxeram impactos severos para a companhia. Além disso, nos últimos anos, dezenas de indústrias do setor de açúcar e etanol entraram em processos de recuperação judicial ou fecharam as portas, prejudicadas pelo controle dos preços da gasolina por governos anteriores.

Explicação para baixos preços está na Ásia — O analista de açúcar e etanol da consultoria Safras & Mercado Maurício Muruci aponta a Índia e a China como peças-chave para a derrocada nos preços internacionais do açúcar. “Além da Índia estar produzindo uma safra recorde e com previsão de novo aumento no próximo ano, com governo subsidiando produção e estoques, a China passou a importar menos e a produzir mais”, ressalta. A Índia subsidia os produtores de cana, que representam um poderoso bloco eleitoral, através do estabelecimento de preços mínimos. Além disso, financia a estocagem de açúcar. Com isso, a produção de açúcar – que atingiu um recorde de 33 milhões de toneladas em 2017/18 – deve crescer ainda mais em 2018/19, para cerca de 35 milhões de toneladas, destacou o analista.

Na avaliação de Muruci, o mercado futuro nova-iorquino ainda não atingiu o fundo do poço. “As cotações já caíram para menos de 11 centavos de dólar, que era um importante suporte, e a expectativa para o curto prazo é de preços entre 10 a 10,50 centavos. Tem gente no mercado que fala de preço de um dígito, ou seja, de nove centavos e alguma coisa, mas isso é lá para frente, a partir de 2019. Não podemos esquecer que, no Brasil, tem quebra de safra”, destaca. Muruci aponta que a temporada internacional 2018/19, que se iniciará em outubro, poderá ter excedente de algo em torno de 20 milhões de toneladas, já que a Índia não para de aumentar sua produção interna. “É um círculo vicioso. O governo subsidia o canavieiro, que aumenta a área cultivada, as usinas ampliam a produção de açúcar, e, depois, o governo ainda banca o armazenamento. Mas vai chegar uma hora que ele vai ter que determinar exportações compulsórias, e isso representará outro baque nos preços”, explica.

Já a China, que, até 2017, era a principal importadora mundial de açúcar, agora, consome menos açúcar e ainda aumenta a produção local. “A demanda interna está estagnada com a desaceleração econômica e com o viés negativo devido à guerra comercial com os Estados Unidos”, diz Muruci. Faltando quatro meses para encerrar a campanha, a China já produziu 85% da meta do ano para a safra de açúcar, que é de 10,5 milhões a 10,8 milhões de toneladas. “Então, eles não estão nem um pouco preocupados mais em importar”, salienta.

Mundo com superávit de 10,6 milhões de toneladas — A produção mundial de açúcar em 2018/19 deverá totalizar 188,251 milhões de toneladas, de acordo com o relatório semestral do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado em 18 de agosto de 2018. Na temporada 2017/18, a produção ficou em 191,813 milhões de toneladas. Conforme o USDA, o consumo total do produto deverá atingir 177,593 milhões de toneladas em 2018/19, contra as 174,125 milhões estimadas para 2017/ 18, praticamente estável. Haverá, então, segundo o USDA, um superávit de oferta de 10,658 milhões de toneladas na temporada 2018/19, após superávit de 17,688 milhões de toneladas em 2017/18.

Ainda segundo o USDA, os estoques globais do ano comercial 2018/19 devem permanecer acima de 49 milhões de toneladas, devido a uma produção global quase recorde, impulsionada por safras recordes na Tailândia e na Índia. “Na ausência de novos subsídios para a exportação, os estoques devem crescer para níveis alarmantes no Paquistão. No entanto, os estoques na China devem diminuir, uma vez que medidas de salvaguarda permanecem ativas, limitando as importações de países com grande oferta”, disse o USDA.

Para o Brasil, o USDA estima a produção de 2018/19 em 34,2 milhões de toneladas, contra 38,870 milhões em 2017/18, diante da expectativa de que mais cana será direcionada para a produção de etanol devido aos fracos preços do açúcar que resultam das amplas ofertas globais. As exportações devem cair da mesma forma, para 23,6 milhões de toneladas, reduzindo o market share do Brasil para 38%, que pode ser o menor em 14 anos. Já a produção da Índia deve aumentar 1,4 milhão de toneladas, para um recorde de 33,8 milhões de toneladas devido ao aumento de área cultivada com cana e a uma maior produtividade.

Usinas priorizam o etanol — A Safras & Mercado revisou para baixo sua estimativa para a produção de açúcar do Centro-Sul do Brasil na temporada 2018/19. A consultoria projeta, agora, que a produção da principal região canavieira do País alcançará 28 milhões de toneladas, contra as 31 milhões estimadas anteriormente. Se confrontada com a produção de 36,44 milhões de toneladas registrada em 2017/18, a estimativa para 2018/19 prevê uma significativa queda de 23%. Segundo Muruci, entre as justificativas para a revisão na estimativa estão o fato de a safra estar muito mais alcooleira (em torno de 62% no mix) e, principalmente, a estiagem que assola o Centro-Sul desde março e que vai reduzir a qualidade da cana, um fator que favorece a produção de etanol.

Além disso, as projeções de alta no preço do petróleo deverão dar fôlego à demanda para o etanol, com as usinas deixando de lado a produção de açúcar em um momento de grande superávit de oferta em termos globais e de queda de rentabilidade com a commodity. “Há, ainda, uma queda nos investimentos em renovação de canaviais que, envelhecidos, perdem produtividade”, salienta.

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Visto o momento difícil, haverá, ainda, uma queda nos investimentos em renovação de canaviais, que, envelhecidos, apresentarão menor produtividade