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Algodão

Pluma de cor dourada

Os preços internos do algodão acumulam ganhos expressivos em 2018, consequência das cotações internacionais em alta e da valorização do dólar. Apenas em 2018, o preço em Nova York teve alta de 14,1%, visto o encolhimento significativo dos estoques globais, as incertezas quanto à produção norte- -americana e a retomada do consumo global. Ainda no ano, o câmbio se valorizou em 15,4%

Rodrigo Ramos
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O mercado brasileiro de algodão mostra ganhos expressivos em 2018. No acumulado do ano, o avanço dos preços chega a 20,3%, com a indicação no Cif do polo industrial paulista iniciando janeiro de 2018 a R$ 2,67 por libra-peso (mínima verificada) e atingindo R$ 3,35 ao final de julho. Em meados de julho, a pluma atingiu o maior patamar em 2018 – R$ 3,76 por libra-peso. Conforme o analista de Safras & Mercado Élcio Bento, a manutenção de preços elevados em um ano de recorde de produção deve-se à combinação de cotações internacionais em alta e de desvalorização do real em relação ao dólar. “No ano, a alta verificada na Ice Futures de Nova York corresponde a 14,1% (até 27 de julho), e, no câmbio, a moeda norte-- americana valorizou 15,4% em relação à brasileira.

Os ganhos na Ice Futures têm como suporte fundamental o recuo acentuado dos estoques globais, a incerteza em relação à produção norte-americana e a retomada do consumo global. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a temporada 2018/19 se iniciou em agosto com 18,496 milhões de toneladas em estoques mundiais. A produção estimada é de 26,150 milhões de toneladas (-780 mil toneladas) que, com as importações de 8,977 milhões de toneladas, gerará uma oferta global de 52,624 milhões de toneladas (-410 mil toneladas).

O consumo deve se elevar em 1,021 milhão de toneladas, indo para 27,698 milhões de toneladas. Somando-se às exportações de 8,978 milhões de toneladas (+119 mil toneladas), a demanda deve aumentar 36,676 milhões de toneladas (+1,139 milhão de toneladas). O resultado desse balanço de oferta e demanda é uma queda de 1,549 milhão de toneladas nos estoques globais, para 16,947 milhões de toneladas. “Com isso, a relação estoque/consumo, que havia atingido 98% no ciclo comercial 2014/15, recuará para 61,2%”, pondera Bento.

Estoque global bem mais enxuto — O quadro de abastecimento não chega a ser apertado. Historicamente, o mundo carrega estoques que correspondem a cerca de 50% de seu consumo. “O que se percebe, no entanto, é que, nos últimos quatro anos, o mercado conseguiu absorver praticamente todo o excedente de produção que a política de recomposição de estoques chinês trouxe ao âmbito global”, frisa o analista. Na temporada 2009/10, o mundo – e, em especial, a China – enfrentou um quadro de escassez que levou as cotações globais a ultrapassar pela primeira vez o patamar de US$ 2,00 por libra-- peso. “A resposta imediata foi uma elevação expressiva da produção, que, já no ciclo 2011/12, recompôs os estoques”, lembra Bento.

Contudo, o governo chinês manteve sua política da recomposição de estoques, absorvendo os excedentes que foram gerados até o final da temporada 2015/16. O resultado foi que, entre 2010/11 e 2014/15, os volumes colhidos superaram o total consumido em escala global em 16,3 milhões de toneladas. A China chegou a contar com estoques superiores a 14 milhões de toneladas, diante de um consumo anual próximo a 7 milhões. No mundo, os estoques de passagem atingiram o recorde de 24,004 milhões de toneladas em 2014/15. “Com o final da política chinesa, houve uma retração acentuada das cotações, e o mercado passou a se ajustar, fazendo os estoques acumularem, até o final do ciclo 2018/19, uma queda de 7,507 milhões de toneladas”, destaca.

Com os exageros corrigidos, os preços na Ice Futures, que haviam testado o suporte de US$ 0,60 por libra-peso entre 2014 e 2016, atualmente, passaram a flertar (e até romper, em alguns momentos) com a resistência de US$ 0,90 por libra- -peso. A colheita nos grandes produtores do Hemisfério Norte se inicia em meados de agosto e se estenderá até o final do ano. “Esse período de ingresso de safra pode gerar alguma pressão sobre os preços”, ressalta o analista. “Porém, os fundamentos mostram que a tendência é de preços firmes”, completa.

Esse é o quadro perfeito para o setor produtivo brasileiro, que tem como desafio escoar para o exterior um excedente recorde de pluma. A manutenção da moeda brasileira desvalorizada aumenta a competitividade. A temporada 2018/19 brasileira se iniciou em junho com 241 mil toneladas. A produção se encaminha para um recorde (2,014 milhões de toneladas). A oferta total, considerando-se um ingresso de 5 mil toneladas em importações, ficará em 2,260 milhões de toneladas, se elevando em 390 mil toneladas em relação ao ciclo comercial anterior. Importante destacar que, se, por um lado, a rápida elevação dos preços trouxe euforia entre os produtores, por outro, obrigou muitas indústrias a reduzir as linhas de produção e, em alguns casos, até entrar em férias coletivas. “Com o início da colheita essas indústrias voltam ao mercado”, frisa Bento.

Crise do País afeta consumo interno — A forte alta da sua matéria-prima tende a frustrar a esperada recuperação do consumo doméstico na atual temporada. O Brasil chegou a consumir 1,050 milhão de toneladas na temporada 2010/11. “A recessão econômica derrubou esse consumo para 600 mil toneladas em 2015/16”, lembra o analista. No último biênio, a recuperação foi modesta, para cerca de 700 mil toneladas. “O ano de 2018 vinha esboçando uma retomada do consumo, que foi obstado pela forte alta dos preços”, lamenta. As últimas estimativas apontam para um montante próximo a 750 mil toneladas.

Essa estagnação interna gera a necessidade de recorrer ao escoamento externo a fim de evitar uma sobreoferta no mercado doméstico. Desde a forte alta dos preços internacionais, que colocaram o produto brasileiro na vitrine do mercado global, o setor produtivo tem sido muito eficiente em escoar excedentes e, com isso, manter o quadro de abastecimento ajustado. “Na atual temporada, a variável exportação, mais do que nunca, será acompanhada de perto”, frisa. “Se os embarques mensais sinalizarem para um escoamento próximo a 1,2 milhão de toneladas na temporada, não haverá motivos para uma intensificação da pressão sobre os preços internos”, pondera.

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A área brasileira em 2018/19 deverá ser de 1,310 milhão de hectares, avanço de 10,8% sobre a anterior, com a prevista produção recorde de 2,240 milhões de toneladas

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China tende a favorecer as vendas brasileiras para o país asiático. Por outro lado, os excedentes do maior exportador global tendem a gerar uma maior disputa em outros grandes compradores brasileiros, como Bangladesh, Indonésia, Coreia do Sul, Vietnã e Turquia. Sob essa ótica, a taxação do algodão norte-americano pela China apenas deslocaria a venda dos excedentes para outros mercados. De qualquer forma, os fundamentos apontam para um nível de preços entre US$ 0,80 e US$ 0,90 por libra-peso no mercado internacional. Com o câmbio favorável, os produtores brasileiros tendem a continuar com preços atrativos para negociar a safra atual e para elevar a área plantada na próxima temporada.

Plantio brasileiro deve subir 10,8% — A área plantada com algodão no Brasil em 2018/19 deverá ser de 1,310 milhão de hectares, avançando 10,8% sobre o total semeado em 2017/18, de 1,183 mil hectares. A previsão é de Safras & Mercado, que divulgou sua intenção de plantio em 13 de julho de 2018. A indicação inicial é de um avanço de 0,39% na produtividade, que passaria de 1.703 quilos para 1.709 quilos/ hectare. Com isso, a produção poderá atingir 2,240 milhões de toneladas – que seria recorde, elevação de 11,2% na comparação com o ano anterior, de 2,014 milhão.

Para o analista de Safras & Mercado Élcio Bento, o otimismo, depois de dois anos de boa produtividade e com indícios de manutenção de preços atrativos aos produtores, deve motivar os produtores brasileiros a elevar a área plantada com algodão no Brasil. No Mato Grosso, maior produtor, a cultura deve cobrir 880 mil hectares, a maior área já cultivada no estado. “Interessante destacar que as lavouras seguirão concentradas na segunda safra”, lembra. As estimativas preliminares apontam para uma área de 750 mil hectares na segunda safra e 130 mil hectares na primeira.

A justificativa para essa concentração é a maior rentabilidade do algodão em relação ao milho, cereal que é cultivado na safrinha e muito parecido com a oleaginosa (primeira safra). “Considerando o preço atual, a margem sobre o custo total é positiva em 27,5% para o algodão e 27,2% para a soja”, pondera Bento. O milho, atualmente, tem uma margem negativa de 13,3%. O potencial de produção no maior produtor nacional ficou em 1,490 milhão de toneladas. “Na Bahia, as safras 2014/15 e 2015/16 foram muito complicadas, com preços e produtividades ruins”, lembra Bento. Porém, o excepcional rendimento das lavouras e os preços atrativos consolidados em 2016/17 e que se encaminham para 2017/18 geram grande otimismo entre os produtores. O avanço de área é estimado em 7,5%, para 285 mil toneladas. Com isso, o potencial produtivo fica em 515 mil toneladas, elevando-se em 7,1%.

Entre os motivos que podem atenuar o sentimento de otimismo dos produtores pode se colocar as incertezas em relação à logística (tabela de fretes), o esperado aumento do custo de produção e, principalmente, o desafio de escoar a safra recorde que está sendo colhida atualmente. “O primeiro motivo tem um peso menor sobre o escoamento do algodão em pluma, quando comparado a outras culturas”, frisa o analista. Atualmente, o custo do frete corresponde a cerca de 4% do preço de venda do algodão e em torno de 26% do de soja. “Porém, o transporte dos insumos do litoral para as regiões de produção será onerado pela elevação do custo dos fretes”, destaca Bento.

Por último, o setor produtivo tem o desafio de escoar cerca de 1,2 milhão de toneladas ao exterior para impedir uma sobreoferta interna e um consequente achatamento dos preços, que poderia desestimular o plantio. Esses são fatores que podem pesar na decisão até o início dos trabalhos de plantio, no final de 2018. “Mas, atualmente, o clima é de otimismo e corrobora para a intenção dos cotonicultores em elevar a área plantada”, salienta o analista.