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Trigo

Valorização bem-vinda

Trigo

A partir do segundo trimestre de 2018, a conjuntura entre a valorização do dólar e a disparada dos preços internos na Argentina, importante exportadora, mexeram para cima nas cotações brasileiras, depois de muito tempo em baixa. O mercado doméstico com crise de oferta, visto a redução da safra 2017/18, ajudou a melhorar o preço. No Paraná, a cotação média passou de R$ 700 a tonelada, em março de 2018, para R$ 1.100 em junho do mesmo ano

Gabriel Nascimento
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Após começar o ano comercial 2017/18 com uma elevação de preços, o mercado brasileiro de trigo passou a reverter esse quadro a partir da entrada da safra, em setembro de 2017. Segundo o analista de Safras & Mercado Jonathan Pinheiro, a valorização do grão, na época, era resultado tanto da sazonalidade natural dos preços na entressafra quanto do clima prejudicial à cultura durante o desenvolvimento. “Houve quebra de safra, influenciando positivamente as cotações”, conta. O viés, baixista observado a partir da entrada da oferta nova no mercado foi invertido em dezembro de 2017, conforme o analista, por diversos fatores que favoreceram a recuperação dos preços. Graças à quebra de safra, de, aproximadamente, 35% – que representou cerca de 2 milhões de toneladas a menos na produção nacional –, a oferta disponível se mostrou insuficiente para abastecer as necessidades do mercado, o que contribuiu para a tendência de alta. “Há que se considerar, também, que grande parte do produto colhido apresentava qualidade inferior, que não atendia à demanda da indústria brasileira”, observa Pinheiro. Além disso, a taxa cambial havia acumulado aumento de mais de 9,3% entre agosto e dezembro de 2017.

A quebra da safra 2017/18 foi liderada pelos dois principais estados produtores, o Paraná e o Rio Grande do Sul. Além da questão climática, que prejudicou as lavouras e impediu um plantio mais amplo, os preços pouco atrativos do cereal desestimularam boa parte dos produtores a investir na cultura. No Paraná, a queda de produção foi de 34% de 2016 para 2017, com rendimento médio 25% menor. A superfície plantada em 2017 foi 12% inferior ao ano anterior. No Rio Grande do Sul, a redução naquela safra foi ainda maior, de 48%, com produtividade 42% inferior. A área semeada foi 10% menor na comparação ano a ano.

Apesar da quebra na produção influenciando o mercado, os preços não apresentaram maiores elevações até o final do primeiro trimestre de 2018. O analista explicou que, como as cotações na Argentina não subiram muito, o mercado interno se aproveitou disso e se abasteceu através de importações do país vizinho. “É válido ressaltar que o Paraguai, grande fornecedor de trigo ao Oeste do Paraná, também teve quebra representativa em sua safra”, relata. Em números, o mercado chegou ao final de março com queda levemente superior a 3% nos preços argentinos e com o dólar mais alto em 3,97% no primeiro trimestre. “Os preços competitivos não deixaram espaço para recuperações das cotações nacionais”, explica Pinheiro.

Enfim, as mudanças — De acordo com o analista, a partir do segundo trimestre de 2018, a conjuntura do mercado apresentou mudanças representativas, promovendo o cenário que se estendeu até julho. Os principais fatores que favoreceram essa mudança foram a acentuada alta do dólar em relação ao real – que passou de aproximadamente 4%, do início do ano até março, para pouco mais de 19,6% até o final de junho – e a disparada dos preços internos na Argentina – que caíram cerca de 3% até março e passaram a subir 24,35% entre o início do ano e o final de junho. Pinheiro ressalta que, apenas em maio, a elevação mensal foi de 25,55%.

Assim, o mercado nacional, que já apresentava significativa redução da oferta desde o início da temporada, passou a enfrentar uma disponibilidade praticamente inexistente. Acompanhando esse quadro, os agentes do lado ofertante se retraíram a fim de valorizar seu produto, o que restringiu ainda mais os negócios. Dentro desse cenário, as cotações médias no Paraná passaram de pouco mais de R$ 700 por tonelada, ao final do mês de março, para mais de R$ 1.100 ao final do mês de junho, um ganho expressivo de mais de R$ 350 por tonelada ao longo de três meses, descreve o analista, destacando que “a elevação poderia ser ainda mais acentuada, porém a redução da liquidez no âmbito doméstico foi fundamental para minimizar as altas”. Além da menor disponibilidade, o lado comprador também não se mostrou disposto a adquirir o trigo a preços tão elevados, praticando compras pontuais.

Os preços do trigo no mercado brasileiro encerraram a temporada 2017/18 com um leve viés baixista, levando em conta a expectativa de uma safra cheia. Graças ao clima favorável à cultura desde o início dos trabalhos de plantio em 2018, a estimativa para a safra 2018/19 é de um crescimento de 47% da produção, atingindo 6,4 milhões de toneladas. A área deve crescer 6% ano a ano, e a produtividade deve ser 39% maior. Pinheiro considera essa oferta elevada importante para o recuo das cotações. “Contudo, deve-se ressaltar que o câmbio segue relativamente elevado, bem como os preços do trigo internacional, mantendo a competitividade do grão nacional, mesmo que este esteja mais caro frente à safra passada (2017/18)”, disse.

Segundo ele, outro ponto de destaque são os indícios de buscas mais acentuadas por importações de trigo, apesar da atual conjuntura indicar o contrário. “Foi por meio das compras externas de trigo que as indústrias brasileiras se abasteceram até, pelo menos, o ingresso da próxima safra no mercado”, lembra o analista. Em 2018/19, os preços tendem a buscar reajustes. Conforme Pinheiro, a expectativa, devido a fatores internos, é de retração. “Entretanto, caso se mantenham o câmbio elevado e os preços internacionais superiores, as cotações nacionais poderão se sustentar próximas dos atuais patamares”, finalizou.

Safra global — Conforme o relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) de julho de 2018, a safra norte-americana é estimada em 1,881 bilhão de bushels, acima dos 1,827 bilhão estimados em junho, contra os 1,741 bilhão de bushels produzidos em 2017/18. Os estoques finais dos EUA em 2018/ 19 foram projetados em 985 milhões de bushels, contra 946 milhões de bushels do mês passado e abaixo dos 1,1 bilhão de bushels estimados para 2017/18. A safra mundial do cereal em 2018/19 é estimada em 736,26 milhões de toneladas, abaixo das 744,69 milhões de toneladas projetadas em junho de 2018. Para a safra 2017/ 18, a estimativa do USDA é de 757,92 milhões de toneladas. Os estoques finais globais em 2018/19 foram estimados em 260,88 milhões de toneladas. Para 2017/18, o número projetado é de 273,5 milhões de toneladas.

Trigo

A safra brasileira 2017 teve uma quebra de, aproximadamente, 35%, ou 2 milhões de toneladas, e essa oferta menor ajudou a melhorar o preço

Já o Conselho Internacional de Grãos (CIG) projeta a safra 2018/ 19 global de trigo em 721 milhões de toneladas, abaixo das 758 milhões de toneladas previstas para 2017/18. O volume é o menor em cinco anos. A oferta total é projetada em 986,4 milhões de toneladas em 2018/ 19, e o consumo global do grão é estimado em 739,2 milhões de toneladas, fazendo com que os estoques passem de 265,4 milhões de toneladas, no início da temporada, para 247,2 milhões de toneladas ao final dela. O CIG estimou a produção de trigo na Rússia na temporada 2018/19 em 66 milhões de toneladas, 22% abaixo das 84,9 milhões de toneladas na safra anterior. O país deve exportar 30,3 milhões de toneladas em 2018/ 19, 29% menos que no ano anterior. Conforme o CIG, nos Estados Unidos, a safra 2018/19 deve totalizar 51,1 milhões de toneladas, quase 8% acima do produzido em 2017/18. As exportações norte- Leandro Mariani Mittmann americanas devem subir mais de 20%, passando de 24,5 milhões para 30 milhões de toneladas Os preços internacionais do trigo vêm crescendo significativamente desde o início de julho de 2018. Problemas climáticos nos Estados Unidos, na Austrália, na Rússia, na Alemanha, na França, na Ucrânia e em outros produtores devem impactar negativamente a safra global nesta temporada e forçar novas elevações nas cotações. Na Rússia, maior exportador mundial, a produtividade está no menor patamar em três anos, de acordo com a consultoria agrícola SovEcon. A safra da União Europeia é estimada no menor nível desde 2012.